quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Homem-casa ou sobre ele que insistimos em ser coadjuvantes

Estar na sua casa e você não estar aqui é muito estranho
O tipo de vazio que se sente tem um gostinho de saudade misturado com algo doce
É quando me dou conta que não consigo encontrar teu cheiro mesmo que eu entre no teu quarto.

Sonho com você e o coração aperta
E no entanto é impossível me sentir mal,
porque mesmo que meu peito fique pequeno de sentir-falta
Não consigo me angustiar porque esse tu-longe é teu navegar
E tu fica bonito quando experimenta coisas
E mesmo quando não estou envolvida
Fico feliz de te ver sorrir
Mesmo que não possa ver de fato.

Entrei no teu quarto pra sentir seu cheiro mas pouco dele ficou.
Espero que não se importe pela invasão.
Se bem que não me importei quando você me sorriu porque me reconheceu
E me invadiu com esses olhos mansos
Mansidão lânguida que me leva a acreditar
Que tenho casa nessa coisa bonita que é o teu abraço.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

crueldade

eu sempre senti que havia algo de errado
um desajuste
você estava lá, mas ao mesmo tempo não estava
você se lembra das coisas que disse ou elas simplesmente se evanescem de manhã,
quando você parece sentir tanto nojo de mim que nem me abraça?
o que faz você pensar que tem o direito de agir dessa forma?

eu estou tentando sair disso e manter uma relação saudável com você na minha cabeça
eu estou tentando sair disso e manter você numa posição confortável para nós dois
mas você não colabora
você, definitivamente, não colabora
eu não quero ter que fazer isso
eu não quero usar a foice
fazer a colheita da lua nova e ter que te deixar ir
você, definitivamente, não colabora.

eu não vou correr com você
e nem nunca quis isso, se é o que está pensando
você me deixa sem respostas e nem mesmo tem vontade de me fazer perguntas
o que estávamos pensando?
e, mais que isso, no que você estava pensando?, quando fez todo um circo
quando você poderia simplesmente ter me falado "preciso sair daqui a pouco"

eu teria ido embora
teria voltado se você chamasse
a gente bebia e trepava até os vizinhos dizerem chega
e eu tomava meu caminho
e poderia fazer isso de novo, e de novo, e de novo
por cem anos se fosse possível
sem nunca precisar de nenhum verso
de nenhum carinho
um cafuné

eu não estava procurando por isso
eu não procuro por isso
você age como se eu estivesse
e depois tem a pretensão de me acusar de romantismo
te amar e querer ser um casal são duas coisas diferentes.

e nem sinto que posso resolver isso
te olhar na cara e querer te rasgar até os ossos
despejar esses medos e raivas e saber o que você quer dizer pra mim
eu gosto tanto, tanto de saber o que você tem a dizer
e você insiste
em voltar pro buraco de onde veio como se a gente não tivesse nada que ver com isso
depois de termos virado amigos
você quer que eu aja como se tivesse sido só uma festa muito longa
com beijos muito intensos

a partir daqui eu não sei o que fazer.
fico aqui, sigo, esperando.
lembra desse poema? em que eu era Ana Terra.
Sigo sendo mesmo como Ana Terra
e sigo te achando bonito no sono
e você segue com os olhos cruéis
a diferença é que eu finalmente entendi
que você tem olhos cruéis
porque você é inteiro cruel.

eu seguirei aqui. porque é o que eu faço.
eu não tenho problemas em admitir que irei até você se você precisar
que eu me importo com você
mas agora tem que ser a carne, a foda e o álcool goela abaixo
e a despedida sem abraço de que você tanto gosta.
porque eu só gosto de apanhar na cama,
e às vezes eu sinto como se tivesse levado um soco na cara quando você me fala certas coisas.
e mulher nenhuma gosta de apanhar.



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

amargo.

às vezes eu acordo com um sentimento estranho
quero escrever sobre e não sei exatamente o que
porque esse sentimento só tem um gosto estranho
e um exasperar-se que agita a boca do estômago
mas falta delimitação e os termos me escapam.

eu me sinto difícil de amar na maior parte do tempo.
a despeito das solidões gostosas de se amar e se conhecer
a despeito das horas passando pelos meus dedos com gostosidade
desacompanhada e desimpedida,
abraçada por mim mesma no arco do tempo
amando todos vocês em silêncio e sendo o porto que é de vocês desconhecido
fico pensando que sou uma coisa difícil de abraçar e segurar -
eu me sinto difícil de amar na maior parte do tempo.

fico amargurada, confesso.
porque essa certeza me atravessa ao longo dos anos há anos
o céu me ampara às vezes
e às vezes a grama debaixo dos pés.
é comum que a areia me irrite como outras coisas pequenas
e que eu esqueça essa certeza dolorida
mas ela sempre volta.

impassível diante da vida
segue me enrolando nessas teias difíceis
são tantas coisas que ficam guardadas na gente
venho tentado abrir o peito e rasgar meu coração na medida do possível
para que possa carregar o menos comigo. nem sempre vocês deixam.
é aí que o amargo me escorre língua adentro
e fica preso em algum lugar entre a garganta e o fundo da boca.