domingo, 11 de dezembro de 2016

sobre como decidi voltar a estudar música.

está chovendo novamente.
quando eu era pequena, minha avó de voz de coruja
me contava, como se piasse,
que durante a chuva, as árvores dançavam.
balançavam-se assim porque o vento cantava uma canção pra elas
que nós, pessoas, não conseguíamos entender que era uma melodia.

eu sempre quis ser como ela.
inatingível.
mas agora ela se foi e nem sempre me lembro dela -
e nem sempre me lembro de sua força.

sento-me pequena ao lado da minha janela
olho para as mesmas árvores que eu observava
minha vó apontando os dedos finos e delicados para aqueles galhos balançando
a cara de índia
os olhos cruéis
a voz rasgada de cigarro e o cheiro do mate fumegando.
a pele dela com cheirinho de sabonete.

sento-me aqui, olhando a chuva e suas companhias inevitáveis no jardim de casa.
as folhas caindo
os pássaros se protegendo
as frutas caídas na grama
a mãe recolhendo a roupa e pedindo a ajuda do pai
a falta do meu irmão em casa
os passinhos do pequeno na escada.

sento-me aqui e aqui me sinto
mapeando o que dói e o que me deixa feliz
remoendo memórias, e em certa medida me ressentindo da vida
enquanto uma parte de mim respira fundo e se alonga
antes da próxima corrida.

espero ainda poder caminhar com quem amo
espero não precisar deixá-lo pra trás.
espero poder vê-la novamente.
espero reencontrá-lo.
fico feliz de tê-lo esquecido.
desejo nunca ter me apaixonado
rasgo cartas nunca escritas mentalmente
irrompo em lágrimas, depois em sorrisos, e choro novamente.

estou sentimental na beira do insuportável.
inevitavelmente vem a tua imagem na minha cabeça.
respiro fundo, e olho de novo pras árvores.
acho que vou voltar a tocar piano.

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