terça-feira, 22 de novembro de 2016

Do não te experenciar

Tem dias que a gente acorda com nuvens brancas no peito e nas têmporas. Me sinto só, não aquele estar só de ser um ser que nasce e morre sozinho, mas um só com gostinho de abandono - quase adolescente, sabendo que ninguém compreenderia.

Primeiro eu senti vontade. Um arrepio que foi tão grande que era quase um evento. Depois eu pensei nele. E então senti uma frustração que não sentia há meses. Depois, em terceiro, virei meu rosto para o lado da parede e desliguei o despertador. Em dias assim não me importo de chegar atrasada.

Uso uma metáfora criada por outro*, e abro uma janela com força, mas ignoro o fato. São tantas as saudades que sinto que uma a mais, uma a menos, que diferença faz? Detenho-me mentalmente nos detalhes dele antes de respirar fundo e encarar o que está de fato me incomodando.

Quis fazer uma prece, mas não senti que faria sentido. O nó se formou na garganta, o desespero me arrepiou, esquentou o pescoço e as orelhas. Desejei uma catástrofe para que eu pudesse chorar sem ser questionada. Fazia algumas semanas que não me sentia assim.

Fatalmente minha mente enfim se voltou para minha tristeza mais antiga, e doeu andar pelo centro da cidade pensando naquele amor morto anos atrás. Como pode ainda ser tão dolorida essa fatalidade que me acometeu tão cedo, quando ainda era uma menina?

Em dias em que durmo pouco, tua imagem, teus olhos tranquilos e profundos, grandes e escuros, aparecem dentro dos meus e cortam meu peito com lâmina fina e quente. A indiferença com a qual o mundo permanece lidando com esse fato dói demais. A indiferença do destino, que insiste em me jogar para longe de você, me mata todos os dias. Eu não deveria ter ficado tão insone. Eu não deveria ter dormido tanto pra compensar. Não há uma noite em que eu não me sinta vazia por pelo menos três minutos, e embora eu nem sempre lembre de você, eu sei que é porque eu não te experienciei direito que esse nada me toma e me arrebata, eventualmente, de manhã.

*"A janela em mim é tão brutal
Longe de você"
Trecho de "Longe de Você", de Vitor Ramil.

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