quarta-feira, 2 de novembro de 2016

de te incomodar

[Para ler ouvindo ou ouvir lendo.]

passei por uma menina linda hoje
você ia gostar de ver.
ela estava com uma roupa branca, e nenhum sutiã.
conseguia ver suas aréolas, rosadas, de longe.
fiquei sem respirar uns segundos,
absorvendo sua beleza distraída.
eu duvido muito que o moço que estava com ela
(aba reta, meias brancas, um tênis Vans qualquer)
possa um dia ver a moça
como eu a vi,
ali, de longe, já no meu banco de ônibus,
estremecida e efêmera.

e logo meu pensamento voou para outra moça,
e logo depois para outro moço.
e me dei conta que até em divagações eu sou essa vagabunda.
e começou a tocar Ramil
e eu encostei a cabeça na janela, e começamos a andar,
e as lágrimas não demoraram a cair.
e eu ali, feliz.

mas, faz dias
(quatro, para ser mais exata),
que sonho com você.
alguns desses sonhos uns estorvos de acordar aflita.
mesmo no meu sonho você é impossível de prever.
mesmo ali você continua agindo de forma inesperada.
te falei que comecei uma série de contos eróticos?
acho que não.
às vezes eu traço diálogos na minha cabeça
e não lembro se falei de verdade.

passam as pessoas, passam os cheiros.
passam seus olhos, e bocas, e sorrisos e sobrancelhas mal feitas.
e seguem passando seus cabelos
e anseios, e medos, e choros.
eu ali, com minha cara tola.
(minha cara é tão tola quanto eu vejo ela tola?)
fazendo planos pra mim, sempre sozinha, hoje, ontem, amanhã,
daqui a décadas, graças àquele Deus em que não acredito.
eu, sozinha, ali,
divagando e passando tanto tempo na própria companhia
que fico mau humorada quando preciso interagir.

e eu dou risada, uma daquelas que tu gostas,
e fico me sentindo idiota novamente
porque sei que mesmo nos meus dias mais sociopatas
eu ainda assim te ofereceria meu ombro se você precisasse.
e eu dou mais risada, porque isso vai soar tão besta se eu disser em voz alta
algo de definitivo ou de drástico
como sempre soa quando eu sôo - e é por isso que eu não te falo nada.

e de novo eu vou agir
como se não estivesse escrevendo mais uma
das quinze poesias que já fiz pra ti
ou que por ti passam
ou que te mencionam, assim, en passant.
deve até ser meio chato,
ficar assim se lendo o tempo todo nesses devaneios em versos
mas, bem, eu até que gosto de te incomodar.

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