sábado, 26 de novembro de 2016

certeza

às vezes parece que serei jogada para longe
quando sinto isso eu própria trato de
recolher meus trapos e ir embora
estou adiando minha viagem há muito tempo
estou prolongando minha estadia demasiado
talvez eu esteja juntando forças suficientes para o cortar definitivo das cordas

eu amo, amo com força.
eu não sei amar de outro jeito.
queria tanto pedir desculpas por isso.
às vezes dói.
causa vertigem.
ultrapassa todos os limites imagináveis.
quero tocar sua pele e toco,
mas eu não consigo alcançar você.

e quando isso acontece eu fico genuinamente triste.
e sei que é só dar um tempinho pra um respiro que dali a pouco você volta.
mas tem dias que eu não te quero mais assim.
eu sei que vai passar em um dia ou dois.
mais cedo ou mais tarde vou sentir só alegria de novo.
mas dói muito quando essa certeza de que você não tem certeza me ataca.
porque eu sou muito certa no que eu sinto.


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

divagações nada a ver

odeio quando me sinto assim
há dias que estou desse jeito
uma angústia que não vem de lugar nenhum
uma certeza de que tudo irá se desmoronar e todos irão embora.

eu sei que não irão.
eu sei que essas pessoas se importam.
Eu sei que se eu ligasse pra ele chorando ele se importaria.
e sei que todos os meus amigos ficam desesperados
ansiando por me ver confiando neles.

passei por várias pessoas hoje
e eu estava tão amedrontada pela minha própria vida que
não reparei em nenhuma.
nenhuma moça bonita
nenhum moço de olhar diferente.
só uma dor insistente
como uma cólica
no peito.

acho que preciso sumir.
olho teus presentes na estante.
abro tuas cartas e as releio com carinho.
vou em busca de fotos
vídeos
do som da tua voz e do teu sotaque estranho.

se eu tiver como, quero ter filhas
quando eu tiver uma filha, e se eu tiver uma filha que pareça doce
que olhe curiosa pra tudo
e que não se pareça nada, nada comigo
porque ela seria doce e eu não o sou
só então
eu colocaria nela o nome de
Amanda.



terça-feira, 22 de novembro de 2016

Do não te experenciar

Tem dias que a gente acorda com nuvens brancas no peito e nas têmporas. Me sinto só, não aquele estar só de ser um ser que nasce e morre sozinho, mas um só com gostinho de abandono - quase adolescente, sabendo que ninguém compreenderia.

Primeiro eu senti vontade. Um arrepio que foi tão grande que era quase um evento. Depois eu pensei nele. E então senti uma frustração que não sentia há meses. Depois, em terceiro, virei meu rosto para o lado da parede e desliguei o despertador. Em dias assim não me importo de chegar atrasada.

Uso uma metáfora criada por outro*, e abro uma janela com força, mas ignoro o fato. São tantas as saudades que sinto que uma a mais, uma a menos, que diferença faz? Detenho-me mentalmente nos detalhes dele antes de respirar fundo e encarar o que está de fato me incomodando.

Quis fazer uma prece, mas não senti que faria sentido. O nó se formou na garganta, o desespero me arrepiou, esquentou o pescoço e as orelhas. Desejei uma catástrofe para que eu pudesse chorar sem ser questionada. Fazia algumas semanas que não me sentia assim.

Fatalmente minha mente enfim se voltou para minha tristeza mais antiga, e doeu andar pelo centro da cidade pensando naquele amor morto anos atrás. Como pode ainda ser tão dolorida essa fatalidade que me acometeu tão cedo, quando ainda era uma menina?

Em dias em que durmo pouco, tua imagem, teus olhos tranquilos e profundos, grandes e escuros, aparecem dentro dos meus e cortam meu peito com lâmina fina e quente. A indiferença com a qual o mundo permanece lidando com esse fato dói demais. A indiferença do destino, que insiste em me jogar para longe de você, me mata todos os dias. Eu não deveria ter ficado tão insone. Eu não deveria ter dormido tanto pra compensar. Não há uma noite em que eu não me sinta vazia por pelo menos três minutos, e embora eu nem sempre lembre de você, eu sei que é porque eu não te experienciei direito que esse nada me toma e me arrebata, eventualmente, de manhã.

*"A janela em mim é tão brutal
Longe de você"
Trecho de "Longe de Você", de Vitor Ramil.

Do não te experenciar

Tem dias que a gente acorda com nuvens brancas no peito e nas têmporas. Me sinto só, não aquele estar só de ser um ser que nasce e morre sozinho, mas um só com gostinho de abandono - quase adolescente, sabendo que ninguém compreenderia.

Primeiro eu senti vontade. Um arrepio que foi tão grande que era quase um evento. Depois eu pensei nele. E então senti uma frustração que não sentia há meses. Depois, em terceiro, virei meu rosto para o lado da parede e desliguei o despertador. Em dias assim não me importo de chegar atrasada.

Uso uma metáfora criada por outro*, e abro uma janela com força, mas ignoro o fato. São tantas as saudades que sinto que uma a mais, uma a menos, que diferença faz? Detenho-me mentalmente nos detalhes dele antes de respirar fundo e encarar o que está de fato me incomodando.

Quis fazer uma prece, mas não senti que faria sentido. O nó se formou na garganta, o desespero me arrepiou, esquentou o pescoço e as orelhas. Desejei uma catástrofe para que eu pudesse chorar sem ser questionada. Fazia algumas semanas que não me sentia assim.

Fatalmente minha mente enfim se voltou para minha tristeza mais antiga, e doeu andar pelo centro da cidade pensando naquele amor morto anos atrás. Como pode ainda ser tão dolorida essa fatalidade que me acometeu tão cedo, quando ainda era uma menina?

Em dias em que durmo pouco, tua imagem, teus olhos tranquilos e profundos, grandes e escuros, aparecem dentro dos meus e cortam meu peito com lâmina fina e quente. A indiferença com a qual o mundo permanece lidando com esse fato dói demais. A indiferença do destino, que insiste em me jogar para longe de você, me mata todos os dias. Eu não deveria ter ficado tão insone. Eu não deveria ter dormido tanto pra compensar. Não há uma noite em que eu não me sinta vazia por pelo menos três minutos, e embora eu nem sempre lembre de você, eu sei que é porque eu não te experienciei direito que esse nada me toma e me arrebata, eventualmente, de manhã.

"A janela em mim é tão brutal
Longe de você"
Trecho de "Longe de Você", de Vitor Ramil.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

de te incomodar

[Para ler ouvindo ou ouvir lendo.]

passei por uma menina linda hoje
você ia gostar de ver.
ela estava com uma roupa branca, e nenhum sutiã.
conseguia ver suas aréolas, rosadas, de longe.
fiquei sem respirar uns segundos,
absorvendo sua beleza distraída.
eu duvido muito que o moço que estava com ela
(aba reta, meias brancas, um tênis Vans qualquer)
possa um dia ver a moça
como eu a vi,
ali, de longe, já no meu banco de ônibus,
estremecida e efêmera.

e logo meu pensamento voou para outra moça,
e logo depois para outro moço.
e me dei conta que até em divagações eu sou essa vagabunda.
e começou a tocar Ramil
e eu encostei a cabeça na janela, e começamos a andar,
e as lágrimas não demoraram a cair.
e eu ali, feliz.

mas, faz dias
(quatro, para ser mais exata),
que sonho com você.
alguns desses sonhos uns estorvos de acordar aflita.
mesmo no meu sonho você é impossível de prever.
mesmo ali você continua agindo de forma inesperada.
te falei que comecei uma série de contos eróticos?
acho que não.
às vezes eu traço diálogos na minha cabeça
e não lembro se falei de verdade.

passam as pessoas, passam os cheiros.
passam seus olhos, e bocas, e sorrisos e sobrancelhas mal feitas.
e seguem passando seus cabelos
e anseios, e medos, e choros.
eu ali, com minha cara tola.
(minha cara é tão tola quanto eu vejo ela tola?)
fazendo planos pra mim, sempre sozinha, hoje, ontem, amanhã,
daqui a décadas, graças àquele Deus em que não acredito.
eu, sozinha, ali,
divagando e passando tanto tempo na própria companhia
que fico mau humorada quando preciso interagir.

e eu dou risada, uma daquelas que tu gostas,
e fico me sentindo idiota novamente
porque sei que mesmo nos meus dias mais sociopatas
eu ainda assim te ofereceria meu ombro se você precisasse.
e eu dou mais risada, porque isso vai soar tão besta se eu disser em voz alta
algo de definitivo ou de drástico
como sempre soa quando eu sôo - e é por isso que eu não te falo nada.

e de novo eu vou agir
como se não estivesse escrevendo mais uma
das quinze poesias que já fiz pra ti
ou que por ti passam
ou que te mencionam, assim, en passant.
deve até ser meio chato,
ficar assim se lendo o tempo todo nesses devaneios em versos
mas, bem, eu até que gosto de te incomodar.