segunda-feira, 24 de outubro de 2016

te-ver-bonito

[Para ouvir enquanto lê.]

Tenho tido algumas noites de insônia
desde que você abriu o peito
e puxou os fios doloridos do teu passado;
eu os segurei nas minhas mãos trêmulas
e chorei, chorei, chorei...

E desde então eu não sei nem o que pensar.
Eu me dei conta que eu não choro muito, sabe.
Não é que eu seja forte.
Eu queria ser forte como você acha que eu sou.
E então me peguei revisando as coisas que já escrevi pra você.
Com um sorriso cansado e triste
dei-me conta de que as notas de desespero dos teus olhos maus não eram impressão minha.

Você sempre me deixa assim
sem saber o que sentir.
E eu sou sempre tão decidida!
Será que isso está certo?, eu sempre me pergunto.
Se eu ao menos soubesse que você está bem
juro que te deixaria em paz.

A metáfora da dor, líquido quente, escorrendo por meus dedos,
permanece.
Continuo querendo você como antes.
Mas eu estou sinceramente triste.
Não sei te dizer por que.
Não poderia te explicar.
Não quero sumir.
Não quero ficar longe, mas talvez você precise.
Talvez eu precise.
Talvez você queira.

"Você é um pequeno mistério para mim toda vez que você chega perto",
e eu queria que você pudesse me ver agora.
Mas eu acho que eu nunca vou deixar.
Mesmo agora, mesmo depois de tudo
eu sigo com medo de você.

Às vezes eu queria que você ficasse puto.
Às vezes eu queria ser uma vaca.
Não consigo, fico aqui.
Ouço você balbuciar qualquer coisa pra mim, dormindo, e não escuto.
Queria poder te curar.
Mas de alguma forma eu própria estou quebrada de diferentes formas.
E eu nem mesmo sei te dizer por que.

Eu choro, e choro, e choro, e mesmo agora, que te quero tanto,
eu não consigo conter as lágrimas.
Parece que é fatal, isso tudo.
E no entanto não sinto que minha tristeza é sobre você.
Eu queria tanto te ver, e só te ver.
Olhar você, me certificar de que você existe de verdade,
fazer alguma piada, e ir embora.

"Você é um pequeno mistério para mim toda vez que você chega perto",
e eu queria tanto entender melhor,
e ao mesmo tempo é assim que eu te gosto.
"Nós faremos uma pequena história, meu bem"
e eu fico olhando, em terceira pessoa,
te observando vir e voltar
quando precisa.

Com medo de te machucar,
eu fico assustada de ir até você.
Às vezes acho que você queria me querer mais.
Racionalmente faria sentido.
Mas não é assim que funciona,
e eu me pergunto se isso te frustra.

Incrivelmente, percebo que eu própria não me ressinto dessa ideia.
Te olho com um olhar cansado de quem ama e não vê mais o que fazer.
Sorrio, porque você é assim, essa coisinha bonita e meio quebrada,
meio canalha, meio avoada,
e assim um tanto profunda.
Sempre tem algo novo pra te olhar.

Nunca quis que você fosse embora,
me desculpa as palavras ruins.
Eu estou tão perdida, e às vezes esqueço que não tem a ver com você.
Tem dias que eu te sinto tão perto
que, quando não consigo te alcançar com a minha mente, eu fico um pouco tonta.
Quem diria.
Logo eu. Logo você. Logo nesse tempo.

Queria abraçar teu coração.
Esquentar o meio-do-teu-peito,
fechar teus olhos, beijar tuas pálpebras:
- Vai ficar tudo bem.
E, assim, desse jeito simples, dissipar essas dores e nuvens cinzas.
Queria iluminar os dias brancos que te afligem
com uma luz quente, amarela-quase-laranja.
E te mostrar como você merece todas as coisas bonitas que eu vejo em você.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

sobre ela

como na música profética,
eu senti sua falta quando você foi embora.
não posso ouvir a introdução que eu choro.
não é que lembrar de você me deixe triste, coisinha.
mas a nossa história é complicada, e eu queria tanto, tanto que você não estivesse assim tão longe.

queria poder descer do ônibus
andar atá a praia
molhar meus pés
voltar pra rua.
colocar os chinelos de novo,
os pés cheios de areia, o coração batendo acelerado.
andar até a tua casa, te chamar no portão.
e ver os teus olhinhos magrinhos de sorrir pra mim.

temos algumas músicas, não é?
e algumas luzes
coloridas, de natal, piscantes.
algumas que eu estraguei, inclusive.
não me desculpo.
suas cores todas, guardo elas no meu peito com carinho.
todas as suas expressões, e o formato dos teus dedos.

tuas unhas curtinhas
teu cabelo
e o cheiro, o teu cheiro eu ainda sinto
como isso é possível?
às vezes estou andando na rua e sinto teu cheiro
ou estou em casa, e lá vem ele, teu cheiro
uma coisa assim meio doce, meio venenosa

eu queria tanto, tanto, chegar aí a nado
queria tanto chegar aí de barco
mas eu não sei nadar
esse oceano de distância entre nós
essa coisa linda e trágica que sempre fomos
teus abraços e teu corpo pequeno
te fazer cócegas porque você não consegue evitar rir quando eu arranho suas costelas
tua risada
teu sotaque e o jeito como você me acha babaca

eu nunca te disse um monte de coisas
com essa minha mania de ser quieta
onde e quando não devo
e eu queria muito te colocar nas minhas mãos e te ninar
e assistir os teus filmes preferidos
nos embebedar e acordar rindo.

eu ainda lembro você lá
rindo
e teu cheiro
e tua pele
e teu rosto
e os olhos
e os seios
e a língua
e a boca pequena
e o sorriso
com a risada que se seguia
depois de chamar meu nome
depois de fingir que não liga.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

às vezes eu queria poder bater em vocês

Prólogo

A merda é que eu te amo.
E nem é que eu queria tua vida na minha.
É só que eu te gosto, mesmo.
Isso é demais?
Não é normal?
É só um amor em si mesmo!, nada mais, por que o medo?

Eu já sei como isso acaba.
Você some, do nada.
Exatamente como eu pedi, envergonhada,
pra você não fazer.
Você vai evanescer aos poucos
sem avisar
rarear
e então sumir.
Não vai me dar adeus.

E eu vou chorar.
Você vai se sentir mal, mas não tanto,
de saber que estou triste,
entregue à vida,
caída.
Amargurada e costurando novos sorrisos à minha cara branca.
(Você pode, por favor, não fazer isso?
Você pode, por favor, provar que estou errada,
e pelo menos me avisar?)

E eu avisei,
eu pedi com lágrimas nos olhos.
Eu cheguei mesmo a ser dramática,
uma criança de pelos raros,
e você disse que não ia a lugar algum.
É o que você diz pra si mesmo
quando foge de mim e se esquiva?,
Como se eu tivesse alguma pretensão de te prender?

Ou você nem se dá ao trabalho,
vis que são teus olhos,
de sequer lembrar de quem tanto te espera com paciência?
Ouvi um
- Te quero muito!,
e de muito me serve isso, quando me jogas no teu gelo fino
Onde tenho que andar suspensa
Sendo doce quando minha vontade é te maltratar até o talo.

Capítulo I

E enquanto ele vai se deixando levar,
Te sigo com os olhos.
Atentos, enquanto observo os teus, alheios
a minha análise silenciosa.
Você tem movimentos amplos
daqueles de pessoas que não têm consciência de si mesmas.
Você apenas se divertia,
e ria, ria, ria,
e eu ali, sofrendo, por uma coisa tão bonita.

E enquanto você sumia,
seus cabelos ondulando, ventando atrás de si,
eu ia relembrando os braços
os ombros altivos e a cara louca.
Prendia cada detalhe na memória
pra poder te imaginar no dia seguinte.
O despertar da minha face mais louca,
torta e descontrolara,
amante frustrada.
E no entanto nem um pouco arrependida.

Nas frações que meus olhos imensos
encontraram os teus, igualmente grandes,
parecia que eu te punha medo.
Você desviou de mim,
senti de longe e aceitei o gesto.
Assenti, imaginária,
e ao me voltar para o meu copo,
já sentia aquele poderoso tremor
de que algo poderia ter sido e não foi,
dando uma golada forte de gelo derretido e um pouco de álcool.

Epílogo

Por fim, novamente você aparece na minha tela azulada.
Apago a luz do quarto e você,
do outro lado da cidade,
novamente me manda um abraço.
Curte uma ou outra foto.

Sussurro que te amo,
sabendo que você jamais vai poder atender.
E assim, indiferente, você faz as coisas mais esquisitas
que alguém pode fazer
na rede social de alguém
com quem não conversa muito.

Não é como se eu quisesse voltar no tempo.
Não é como se eu quisesse que você corresse pra mim agora.
Não é "como poderia ter sido",
Ou "pare de ter uma namorada".
Não é que eu queria ser sua namorada.
Eu não quero ser uma namorada.
É que eu sinto que tem amor demais nas minhas mãos,
meus bolsos já estão cheios,
e eu preciso de mais amor pra carregar comigo,
mas onde enfiar?

E por mais sugestivo que isso soe
(e essa não é uma opção, caro leitor,
porque amor a gente não vai enfiando assim no corpo, a seco),
eu não vejo você e eu
unidos
corpos
almas
pelos
qualquer coisa assim meio quase suja, meio quase perfeita.
Só sei que vejo você.
E que em você me vejo.
E que, vez em quando, até invejo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Dos teus gestos de gostar

Seu cheiro me acalma
E ao mesmo tempo não consigo evitar ficar inquieta
Como se isso despertasse uma vontade de bicho em mim
Você que me põe assim
Animalesca
Desmanchada
Reversa
Almadiçoada, comida,
Destruída.

E você nem parece fazer questão, com esses olhos maus
Olhos quentes de quem derrete
Olhos tristes de quem não consegue evitar
Olhos frios de desdém
Olhos tolos de me olhar
Como os meus, estúpidos, gigantes
Evidentes
Que nem eu, assim.
Risada, chuva, você,
Na ponta dos cílios.

O teu saber dos sons que me desmontam
Tuas mãos assim certeiras e malditas
Teu sorrir idiota de me fazer te odiar
Tem vezes que não posso evitar a raiva
Não consigo acreditar que você pôde fazer isso comigo
Mas é lindo até mesmo te ver todo frio de manhã