sábado, 27 de agosto de 2016

Desarmar

Como é que se te-deixa
assim bonito e moreno?
Quando flutuo etérea no som da tua voz.
Quando me abro e sorrio na ponta dos teus dedos.
Quando você me abre e vê minh'alma assim de perto.

Faz um tempo que minha poesia é só sobre você
Eu, um'alma de amores múltiplos
me pego em você como fosse ideia fixa.
Com tantos quereres de tantos sujeitos
Por mais corpos que me queimem,
me invadam e me acalantem
é o teu que me põe certa de novo.

Então eu fico nervosa.
Instintivamente te jogo minhas farpas,
assim, com medo de você.
"Homem bonito a gente não pode deixar sentar em cima da gente
Porque o certo é a gente sentar neles".

É que quando ele me olha eu fico boba.
Quando eu estou tranquila me pego pensando nas mãos.
Quando tenho medo de perdê-lo
me lembro que não posso perder o que não tenho - não te possuo.
Quando tenho medo e acho que nunca mais vou escorregar nos teus quadris
Quando acho que vou cair da tua vista.

Lembro das confissões veladas e do teu olhar gritante
Da tranquilidade de rir do teu lado
Esse medo é bobo, mas inevitável
Desde que cresci estive com medo
Desse raro sentir-se bem.

Esse apavorado dar-se conta de que sou muito diferente
das moças esguias, calmas e quietas
Doces e gentis.
Eu, essa explosão.
Seios grandes, coxas grossas, sorriso largo e gargalhadas.
Esse abrir abrupto das portas.
Esse subir em você com sede.
Essa necessidade dolorida, quase, de atacar.

Essa vontade lancinante de deitar no teu colo.
De ser menina.
Mesmo que você não veja assim.
Se eu pareço incontrolável é que você se engana.
É mais fácil você me guiar que eu te dizer o que fazer.

Se eu fico nervosa e me defendo quando você se abre,
mesmo de brincadeira,
é porque estou sujeita
a essa voz-de-amansar fera
essas mãos-de-molhar minha boca
teu cheiro-de-me-desarmar.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

adaptações de um diário em eterno (des)continuum

às vezes acho que "sou" demais
queria, às vezes, que fosse possível que alguém me roubasse de mim.
quantas vezes me peguei te olhando.
ali tentando entender que diabos
sem admitir.
pergunto-me se algum dia vai mesmo chegar a fazê-lo.
e em seguida pergunto-me se estou falando mesmo de você
ou se estou só me olhando no espelho.

tão bonito e tão triste
tanto que nem sei o que pensar
o quão estranha eu sou
por me imaginar chorando no teu abraço?

perguntei por quem
e entendi a estupidez da pergunta, sorrindo.
 no escuro você não viu.
sóbrio, você não lembra.
não faz mal, não faz mal.
o que eu sei é o que eu sei
e ninguém, nem mesmo você, precisa ficar sabendo.

e eu ali, perdoando aquelas pequenas coisas que na sua cabeça são falhas
você entende?
quando você me observava me vestir
eu queria poder ter registrado teus olhos
a forma como os depositou em mim
não sei o que queriam dizer
não sei o que querem dizer quando ficam assim

sei só que eles ficam em mim,
eu os sinto me fitando
mesmo com as costas viradas para você
vestindo minhas roupas
sem querer de fato ir embora

mesmo descendo a rua
o sol na minha cara
teus olhos ainda me seguem os movimentos.
eu caminhando aos tropeços
ainda sentindo teu cheiro
aquele olhar na minha pele
como se ainda estivesse
seminua na sua cama.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

dias difíceis

quantas vezes acordarei com esse sentimento
queria ser a sombra das folhas desenhando padrões esquisitos no chão da sala
olho para o céu
poderia estar nublado ou o sol poderia estar rachando minha cara assustada
permaneceria a mesma sensação no peito
um peso afundando meu coração até as costas
uma vontade de explodir
segurando o choro
sentindo a falta de um contato
triste por saber que mesmo então fico frustrada

gostaria que você voltasse
mas logo que estivéssemos juntos você ia me frustrar de novo
confundindo minha atitude com satisfação
eu deveria falar mais?
deixar tudo mais explícito?
te dizer o que fazer?
perder o pouco que tenho?

é porque sinto sua falta?
é porque é fácil ignorar a vida quando você está por perto?
mesmo ficando profundamente chateada
sei que você sente o mesmo
quando nossos olhos se encontram e estamos, os dois, perdidos, desesperados
quando precisamos desviar o olhar porque estamos ambos frustrados
com medo

eu fico tão aflita quando penso em tua cama
penso em como tudo vai ser tão rápido e como vou ficar nervosa
como antes de eu me acostumar com a ideia você já vai estar cansado
fico frustrada, deitada, acordada
ao mesmo tempo que teu semblante é lindo quando dorme
fico tão aflita e ao mesmo tempo eu me sinto tão embalada.

abro os olhos para mais um dia de céu de tanto-faz
estou indiferente, estou com medo, estou cansada
o que mais posso te dar?
às vezes fico tão frustrada que não entendo exatamente o que eu gosto em você.
e quando lembro, as gotas inundam
ouço tua voz na minha cabeça, vejo teus olhos me olhando
lembro os curtos momentos do teu te-despir
não falo das roupas, elas são o de menos
quando você fala com tanta naturalidade sobre as minhas pequenas belezas.
queria conservar esses pequenos momentos comigo.
mas tem dias que eu simplesmente não consigo te amar.