domingo, 22 de maio de 2016

lamento

[Para ouvir lendo.]

estou me sentindo fraca.
a chuva açoita a janela e eu
sinto como se minha alma fosse ficando pequenininha
você foge da minha vista e eu
não consigo deixar de me sentir insegura

estou em casa, mas sinto falta de um lar
eu não sou forte. você não vê?
não há nada que me ampare.
estou pequena, enrolada em mim mesma como uma criança chorando

eu estava lá, na calçada, andando, a cabeça erguida
o vento batia na minha cara
o frio cortante me dava algum senso de dignidade.
chegando no meu destino eu dei meia volta porque queria andar mais.
você não vê? às vezes eu só quero andar, andar, andar.

eu estou ficando louca? eu acho que eu estou ficando louca.
eu me sinto eufórica com um abraço e depois me despedaço
em mil quando não tenho as respostas que quero
estou tão decepcionada com o mundo
com as pessoas, comigo.

comigo. eu não poderia estar mais decepcionada comigo mesma.
você não vê? não consigo abraçar a mim mesma,
como vou poder ajudar quem quer que seja?
sigo cantando, de qualquer forma, minha voz ficando fraquinha.

não tenho ninguém pra abraçar.
eu mandei todos irem embora. eu preciso que vocês vão embora
porque é sempre assim, não é?
num determinado ponto vocês vão embora sem aviso e quando eu me dou conta
estou só.

domingo, 8 de maio de 2016

Suspensa

no livro de onde vem meu nome
as mulheres parecem fadadas a esperar pelos homens
que voltem da guerra
que as tirem de suas famílias e lhes coloquem a seu lado.
hoje me sinto bem mesmo como Ana Terra
esperando, esperando, esperando.

pergunto-me de onde vem essa sensação de tanto esperar
que vem até quando não há nada para acontecer
parece que estou suspensa no tempo
já escrevi sobre isso antes, essa sensação que se repete
que espero eu?

essa agonia
novamente o momento que antecede
como o suspiro antes de me unir a você
despida das minhas roupas e de mim mesma

fico esperando, esperando,
como é que se te-alcança?
como é que se te-espera?
como é que se te-cura?

queria poder penetrar esses olhos e retirar a tristeza
minhas mãos em concha
contendo o líquido quente da dor.
queria conter tua agonia dentro do meu abraço.
queria enfiar a mão no meu peito e amassar a dor
ela insiste em me transpassar vez em quando
eu, sofrida, congelada no trauma do tempo.

uma rachadura híbrida de amor e de amargura
essas duas coisas não funcionam bem juntas
e, no entanto, eu costuro essas fissuras todas
e abro uma fenda em meu rosto
que pouco a pouco parece cada vez mais com um sorriso de verdade
não uma mera imitação preocupada.

mas aí eu sinto que não posso continuar.
estou andando e preciso chegar nesse lugar onde, eu sei,
as coisas são melhores.
mas uma parede invisível me impede, me repele
e eu me sinto tão estúpida...

eu estou com tanto medo,
e ao mesmo tempo eu tenho tanta certeza!
me estico cada vez mais
a tensão do fio.
produzo os mais estranhos sons e
de repente

um relaxamento e eu sorrio novamente
então chega a luz do dia e as cordas vão se esticando até o último rangido de nervosismo novamente
tenho a chance de complicar tudo
tenho a chance de sair correndo e o primeiro impulso é esse
teço uma narrativa com todos os motivos para fugir
mas não corro. não fujo. não complico, não prendo.
corro, corro, e de repente

estanco.
como se eu fosse sangue, paro de vazar do ferimento.
a parede invisível que me repele dessa vez é a minha própria esperança.
é uma menina tão boba, a esperança
mas ela me ajuda a esperar
ela me ajuda a me curar e a dar o tempo que você precisa
para se curar sem precisar de mim.

(te espero tranquilo
te quero calmo
te quero livre e despido de dores
te livro de exigências
não vou te segurar, jamais seguraria.)

a esperança me explica
que eu preciso aprender a me curar sozinha, também.
enquanto isso dou teu tempo
dizendo que estou aqui
querendo confortar,
mesmo me sentindo frágil e vulnerável no som da tua voz.