quinta-feira, 28 de abril de 2016

O Conciliar

Passada a dúvida, eu lembro do sentimento de casa.
Um passar de dedos pela tua orelha e tua cara de
o-que-você-está-fazendo
quando faço carinhos estranhos.

Você me enlouquece às vezes,
e eu não preciso de ajuda pra ser louca.
Já o sou suficientemente sozinha.
Ouço os acordes de alguma música da minha infância
Olho pra você com ares de "eu não acredito".

Você perguntou o que eu estava pensando
com aqueles meus grandes "olhos enluarados".
Pensei no quanto esses momentos parecem o prender de uma respiração
Antes de um primeiro beijo
Antes de se jogar no abismo
Antes do virar do copo de cachaça.

Eu não vou arredar o pé, é óbvio.
É só que às vezes a minha voz dentro da cabeça grita mais alto
que todas as que estão do lado de fora.
Seus olhos maus e tristes me assustam, e
eu sei que eu sou terrível.

Tapa na cara

Você tem olhos maus.
Nunca tinha visto disso.
- Larga essa faca, Ana, pensa um pouco.
Você tem olhos que olham com tristeza e maldade
Que olham fundo dentro de mim e sabem exatamente quem eu sou.

Minha visão está um pouco turva.
Por que eu já me canso de você?
Em que ponto eu fico frustada com teus sinais?
Em que momento eu percebi que isso seria dispendioso?

Quando preciso acionar defesas?
É quando você me desvenda facilmente, abraçada a você na sua cama?
Ou quando mal e mal me abraça na despedida
e não sei se voltarei a vê-lo?
- Ana, você não quer fazer isso.
E o que eu quero?

Quero você dentro de mim até enjoar de mim mesma.
O que, sinceramente, pode acabar bem rápido.
De quanto tempo eu preciso para que a confusão comece a me irritar?
Você me deixa sem respostas e sobram as minhas incertezas.
Queria ter esperado até algo assim aparecer.
Eu não sei até que ponto estou projetando as coisas que Outro me fez.

Você tem olhos maus, eu já disse isso?
Que ótimo, agora estou chorando.
A faca na minha mão e você falando
qualquer coisa sobre não querer me machucar:
- Mas vou ter que usar a força com você!
Você não vê, querido?
O melhor que você poderia fazer agora
seria dar um tapa na minha cara.

O virar da cara

Sonhei com uma despedida
Eu não quero ir embora.
Eu preciso sair, e eu vou sozinha.

Não pense você que me prende
Já vi coisa pior que você
Já suportei muito menos
Já feri quem me contrariou
E já mandei pro inferno gente que não merecia.

Você merece.
Não vou lidar com tua frieza.
Não vou lidar com esses pequenos tapas que você me dá
Assim, sem mais nem menos, quando acha,
quando supõe que estou sendo doce demais.

Não me azede,
que eu não sou flor que se cheire.
Não me empurre, que eu não volto
Uma vez virada a cara
nunca mais eu dou as caras.

Nessa sua de morde assopra
Ainda vou arrancar seu fígado fora a dentadas.
Eu não sei se estou num bom dia
e você me deixa puta.

Prelúdios e Noturnos

Prelúdio
Não quero feri-la
quando sei que entre ele ou ela
vou correndo para ele.
Seu carinho me amedronta
olhos claros tão bonitos
menina de cabelo verde
não quero quebrar você,
porque não quero carinho.
Eu escolho a fuga.

Parte I
Ao preferir ele
escolho a indiferença
uma frieza que me deixa puta
Saiba você que nunca serei sua
Não trate como se eu fosse louca
Eu vou quebrar você em três.

Parte II
Sinto a falta dela
quando acordo e vejo as fotos com seus olhinhos pequenos
a voz dela falando estupidez
A pele da barriga onde ela sentia cócegas
A bebida que ela odiava mas que amava me dar
Eu sinto a falta dela
E cada dia que passa me deixa mais longe
Pra além do além-mar onde ela se encontra.