segunda-feira, 19 de outubro de 2015

medo do escuro

Para ouvir enquanto lê:
https://www.youtube.com/watch?v=Cu8qsC1WLiE

algumas coisas nunca morrem
por mais que você segure a cabeça delas com força debaixo d'água
é difícil matar algumas coisas.
é difícil matar algumas coisas.

parece que eu comprei um pacote e
os adicionais não eram exatamente o que eu queria
não tem retorno.

quando eu for
não quero ser esquecida.
talvez eu trabalhe ainda um tempo nisso.
se se lembrarem de mim talvez eu não vá.
ao menos é o que a esperança sussurra no meu ouvido.
mas eu sei que ela está errada.
ser amada nunca ajudou.

às vezes tenho um medo irracional de ficar sozinha.
às vezes quero agarrar sua mão e pedir, pelo amor de deus, que não vá embora.
algumas coisas são difíceis de matar.
por isso é mais fácil abortá-las
envenená-las no ventre.
quero que você vá embora.
quero ficar sozinha.

deixe a luz acesa quando sair, por favor
eu tenho medo do escuro

manifestos de menina #14

if i could i would i'd change everything
- it all over but the crying, garbage

está acabada
"hey babe can you bleed like me?"
ela olha para o espelho e repete isso infinitamente,
esperando um dia poder fazer essa pergunta para alguém de verdade.
alguém de verdade
como se não fosse ela própria real.

ela tem essas cicatrizes invisíveis porque ela não acha que consegue se destruir literalmente
ela não se considera autodestrutiva até perceber que está se matando aos poucos
"you should see my scars"
sem cuidado ou apreço pela própria existência.
ela está cansada.

para e lê o que escreve e se acha deprimente.
quase desiste de clicar em "publicar".
mas segue o raciocínio - há algum?
já diria certa escocesa
que tudo o que você acha que sabe está errado, querido.
ninguém sabe nada dela
ninguém tira ela de lá
ninguém vai conseguir
ela não quer sair

as coisas vão acontecendo numa cascata e ela achou que nunca mais se sentiria assim
ela achou
que era coisa da cabeça dela
ela não tinha nada
ela não estava doente
ela nunca havia estado
ela achou que as férias seriam permanentes
ela sentiu que acabariam
e fugiu
das únicas coisas
que a poderiam salvar

e agora está ouvindo as mesmas músicas de anos atrás
acabada
acabada.

para onde foi tudo?
para onde foi o que tínhamos?
para onde fui?
onde eu estava esse tempo todo?
por que isso não acaba?

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Judith, A Mulher Mediana™

Judith é mó otária
Serve o patriarcado
De coleira ela tá feliz

Eu devia ser legal
E explicar
Judith, não é assim
Mas Judith me acha gorda
Judith me acha louca
Judith, não é assim.

A Judith não liga
que quando ela arruma o cabelo
ela não fez isso pra ela no espelho

Eu deveria ser legal e
Explicar pra Judith
Mas Judith não me escuta
Ela acha que eu sou puta
Judith, não é assim.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

porta fechada

escolher entre a liberdade e ser amada
cuidada
ter colo e porto seguro
escolhi ficar sozinha

sei que sou nova ainda, relativamente
(embora muitas vezes eu me sinta velha
ou só cansada)
e que é muito cedo pra dizer isso
mas é assim que vou morrer.
bem, talvez eu morra cedo.

nas difíceis escolhas entre ser
ou deixar entrever
eu prefiro que sobrem só frestas
entreabertas e rasgadas à força
por um ou outro aventureiro
sem medo de sangue, de gritos, de histeria.

sem medo de ser afastado.

estou genuinamente cansada e sinto isso em todos os meus ossos.
as notas musicais entram em meus ouvidos
fazem carinho nos meus braços
percorrem minhas pernas
me sinto expandida
explodo.

e fecho a porta com barulho
na sua cara.