sábado, 29 de agosto de 2015

umbrais longínquos

alguns de nós estão fadados ao desespero
creio que o fim não seja algo confortável para nenhum
egocêntrico, humano, mesquinho.

não creio nos fins como um problema.
depois do fim é que nos resta a pior sensação.
quando morre algo ou alguém o momento pode passar mesmo despercebido.
mas internalizar o fim não é processo fácil.

como sobreviver ao limbo?
esse momento do ciclo entre o fim e o novo começo?
quando não se avista o umbral
quando não se pode atravessar a bruma
sempre tem algo te puxando, puxando, puxando...

ouço ecos
sinto ar úmido
quero gritar
alguém para ouvir?
dificilmente.

sempre professo que estamos sozinhos
eu estou sozinha
sempre estive e sempre estarei.
se eu quero?
eu gosto. suporto.
é por saber que não há nada que possa me fazer atravessar
a não ser eu.

"so you don't wanna hear about my good day..."
- good day, the dresden dolls

eu não sei o que me deixa mais triste.
te ver ou ouvir sua conversa.
mas o problema são as pessoas querendo se encaixar, não é?
mas quando você faz isso não tem nada errado.
eu não sei como você consegue.

não sei o que está acontecendo comigo, mas você não ajuda.
fique com sua facilidade de fazer amigos
eles são todos rasos
eles não dão a mínima.
talvez seja porque você não dê a mínima pra si mesmo.

"eu gostaria de fazer mais que sobreviver
eu gostaria de esfregar isso na sua cara"*
não sei quem combina mais com essas linhas, eu ou você. 

estou surtando
estou surtando
e tudo que você faz é assistir de longe
- ela está fazendo de novo. 
- a mim isso não influencia mais.
você tem a frieza necessária pra esfregar isso na minha cara.
pois justo você que tanto se diz sentimental.
justo você que acha que é tão importante falar.
agora me diz que não há qualquer coisa para sentir?
não é irônico?, que eu tenha me afastado para cuidar de mim e que isso seja um problema?
agora que eu falo você não escuta.
o bom de tudo isso é que ainda me resta uma vitória: eu estava certa o tempo todo.

e eu previ tudo isso
previ meu sofrimento
sua forma de lidar com tudo
todo o monte de informações que eu receberia e com as quais não saberia lidar
a catástrofe inevitável da minha identidade
que era, no fim, o problema todo.

e no entanto estamos bem, obrigada.
você nunca me conheceu. 
as pessoas que você despreza porque se sente mais homem que elas
conheceram melhor ou pelo menos respeitaram esses aspectos 
mesmo que eu não tenha deixado
- é tão bonito ficar olhando as coisas desmoronarem de longe.
com que prazer você deve ter assistido meus problemas 

todos nós sabemos do sadismo do ser humano e eu posso ser bem fria
mas não sei o que pensar sobre você.
tão benfazejo 
tão generoso
delicado e que sabe sempre o que dizer. 
começo a acreditar que eu sempre fui idiota.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

fiapo

Hoje acordei com vontade de morrer
há dias em que essa vontade é maior que em outros.
Há tempos que eu não vertia lágrimas no caminho de casa.
Mas aparentemente o tempo quis assim.

Não, eu não estou bem.
E eu  não tenho vontade de melhorar, se quer mesmo saber.
Não há qualquer prognóstico.
E talvez eu esteja bem assim, obrigada.
Não há como fugir de quem se é.

Toda pessoa que eu encontro me frustra.
Toda necessidade de ser algo diferente me dói.
Estar no mundo ainda é pior.
Não quero mais buscar companhia.

Qualquer toque humano me destrói.
As conversas, vazias, me dóem.
Qualquer sofrimento me alenta.
E a distância por vezes conforta.

Estou querendo virar fiapo.
Sumir, evanescer, virar qualquer coisa que
Não necessite ser lembrada
Que possa permanecer intocada
Que seja sinônimo de fiasco.

Quero morrer.
A vontade que me acompanhou ao acordar ainda me alenta.
Gostaria que não sentissem minha presença
Queria que tampouco sentissem minha ausência
O peso de ser me atingiu em cheio
Hoje pela manhã, quando abri os olhos.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

divagações vespertinas

quanto mais as coisas duram mais tendo a acreditar que não funcionam
não sei quantos de nossa espécie conseguem ser tão estáveis
e conhecendo você sei que nada vai muito longe
só você
que vai até o fim
mas ninguém te acompanha
porque você larga tudo logo cedo sem nem se dar conta

quantos amigos e amigas já me entediaram
procurando essas coisas em que se agarrar por anos
em geral se prendem desesperadamente a outras pessoa sprocurando outras estacas
não são portos seguros, são pequenas âncoras
pouco capazes de segurar almas com segurança
na maior parte das vezes apenas as levam para baixo, baixo, baixo

não sei nadar, nem tento
mas se eu soubesse passaria nadando, flutuando, boiando entre essas amarras todas
o problema é quando me prendo nelas
nas amarras de outras pessoas
nas intenções de outros seres

você vai morrer sozinho, como sozinho veio ao mundo
isso serve para todas e todos nós e
é muita ingenuidade,
é ingenuidade
achar que prender uma corda numa estaca débil vai fazer com que isso mude

fico observando as coias não darem certo
como você consegue acreditar que isso está ok?
prefiro minha amargura que essa obra de arte frágil emoldurada na parede
está um pouco torto esse quadro, não acha?
pendendo pro lado direito... não, não, agora ficou mais torto
vai cair!

plaft.
Não sei como vocês aguentam!
Acho que agora entendi que eu não estava ok com esse transtorno obsessivo compulsivo
de amarras
de um lugar só
de uma moldura perfeita
"perfeita", palavra clichê. perfeita deveria ser uma palavra proibida.
"Não sou perfeita, lide comigo",
"Complicada e perfeitinha"
Quantas meninas se identificam com isso mas são só mais umas tentando ser, enfim, perfeitas.

"A mina que corre junto"
significando a mina que não tem planos próprios
eu juro sinceramente que não entendo.

domingo, 9 de agosto de 2015

fim da linha

"nothing is certain at this time of day"
- the mouse and the model, the dresden dolls

eu fico aqui olhando para fotos antigas e 
lendo suas frases e me torturando e
eu abro as caixinhas de lembranças e
penduro quadros antigos na parede e
começo uma catarse proposital e
fico com vontade de morrer e
sinto dor física e 
prendo minha respiração e...

conto todos os dias pra mim mesma as histórias mais fracassadas
eu não consigo parar de fazer esse tipo de coisa porque acho que me dá senso de identidade
a sensação de estar sempre perdendo
de esperar por coisas que não aparecem
eu não sei me desvencilhar porque eu nem sei de que se trata

vamos matar alguns bebês?
eu quero abortar esse sentimento
a minha cabeça começa a doer no exato momento em que a preocupação parece chegar ao ápice
eu sei que você faz as coisas de propósito
pode confessar
obrigada, obrigada
eu sei

é tudo tão bonito, tão bonito, tão bonito
as luzes
quando o carro viaja rápido
quando não estou no meu melhor
quando não sou eu mesma
quando olho para as árvores
às vezes quero me fundir com elas, com elas, com elas
eu amo aquelas folhas e o verde me acalma e eu fico querendo que vente e derrube tudo

o vento poderia me levar para longe e eu poderia bater contra alguma parede
cair
sangrar
morrer
explodir por dentro
nunca mais ter que
achar tudo tão bonito
e nada mais seria inalcançável
eu quero que...

acabou a linha de raciocínio.