terça-feira, 15 de dezembro de 2015

angústia ou o gozo suspenso

queria estar agora em seus braços
(o que é um eufemismo para:
gostaria de estar de quatro pra você
levando uns tapas ou te chupando até você
implorar pelo amor de deus que eu pare)

lamber a pele nua
teus pelos
retrato teu de corpo inteiro
só teu sorriso pela tela fria não me satisfaz
(ou abraços roubados corredores e bares afora)
quantas gotas embriagáveis serão necessárias até eu
alcançar teus sentidos com meus gemidos?

a mente entra em parafuso
e eu entro na paranoia
quem sou eu perto das tantas outras que te querem
resquícios de inseguranças antigas
de saber que existem tantas mulheres interessantes no mundo, para você.
mas nenhuma delas vai sentir como eu sinto

porque eu tenho essa coisa, você vê?
desde muito cedo.
Essa angústia
pela carne
pelo suor e pelo sangue
pela dor das mordidas
dos arranhões
de tanto arfar
de sufocar o gozo e os gemidos
de morrer.

violenta
ou antes um querer que sejas violento.
transpassando e ignorando meu eu tal como eu ignorarei quem és
quando nossas roupas sumirem e entrarmos em combustão
dois corpos, apenas
ligados pela perversão incorruptível
pela preferência compatível pelas coisas as mais sujas possíveis.

domingo, 13 de dezembro de 2015

ferro de passar

Estou tão cansada nesse momento
ser mulher
estar no mundo
ter que viver
ter que
tudo
ter que ser algo
alguém
corrói
pesa meus ombros

você fica longe e eu não sei o que fazer
tento aproximações tímidas
então me sinto ridícula
pareço uma criança idiota que sabe que vai se queimar
toca no ferro de passar quente
retira a mão rápido e chora
de dor e por ser burra

não, não é a descoberta
não é o aprendizado
é a decepção
a frustração
é a primeira coisa que vem na minha cabeça

se você estiver me vendo
e se sente alguma coisa
por que
por que não vem até mim?
se você realmente sente, do que você tem medo?
eu acho que você não sente nada
meus amigos dizem que estou enganada
então se você sente
por que não vem até mim?

estou aqui, não vê?
sofrendo essa doença chamada vida
eu me sinto ridícula
(encostei a mão no ferro de passar de novo!)
eu me sinto como quando tinha três anos
e minha avó tentou colocar pasta de dente
no meu dedinho queimado
a diferença é que minha avó está morta agora

oh, me ajude.
por favor, não fique com medo agora
porque eu não consigo lidar com minhas próprias fobias
estou deitada no escuro sem conseguir entender
paralisada
quando o dia vem eu fico mais assustada

e você é só mais um dos meus problemas
e não deveria ser
o que está acontecendo comigo?
estou tão cansada nesse momento
de ser mulher.
de ser
de ter que estar
sorrindo.

domingo, 29 de novembro de 2015

Todo dia.

Abrir os olhos, acordar
colocar os pés fora da cama
voltar a deitar.
Repetidamente, em poucas horas,
fica mais difícil a cada minuto.
Sei que eu deveria respirar fundo, abrir as cortinas
um pouco de água no rosto, talvez?

Travesseiro.
Desenhos na parede.
Passos nos outros cômodos da casa.
Intrusos da minha eterna contemplação.
Necessidade de observar.

Todo dia.
Repetidamente.
Por horas a mesma sensação.
Anos passam.
A sensação só aumenta.
Não vou sair. Não vai ajudar.
É difícil se divertir.

"Pense positivo".
"Saia um pouco de casa".
Acabar com tudo não é uma possibilidade?
Destruir o que mais amo não é uma possibilidade?
Todo dia.

sábado, 7 de novembro de 2015

Carolina

Conheço uma Carolina
Que às vezes parece filha
às vezes ela é irmã
às vezes me põe no colo
me adota e faz vezes de mãe.

Essa minha Carolina
Tem olhos pequenininhos
A risada é esquisita
Quando ri ela toda se agita
E parece criança que quebrou copo e saiu correndo.

Às vezes Carolina fica triste
Pouca gente imagina
É que essa minha Carolina
É menina forte e aparecida
Mas o peso do mundo às vezes afeta a Carolina.

Mas, ô, Carol, não fique triste!
Porque às vezes, minha irmã-mãe-e-filha,
A gente vai chorar e pensar que o mundo está perdido
Mas os teus cabelos de Deusa do Sol ainda continuarão brilhando de manhã.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

medo do escuro

Para ouvir enquanto lê:
https://www.youtube.com/watch?v=Cu8qsC1WLiE

algumas coisas nunca morrem
por mais que você segure a cabeça delas com força debaixo d'água
é difícil matar algumas coisas.
é difícil matar algumas coisas.

parece que eu comprei um pacote e
os adicionais não eram exatamente o que eu queria
não tem retorno.

quando eu for
não quero ser esquecida.
talvez eu trabalhe ainda um tempo nisso.
se se lembrarem de mim talvez eu não vá.
ao menos é o que a esperança sussurra no meu ouvido.
mas eu sei que ela está errada.
ser amada nunca ajudou.

às vezes tenho um medo irracional de ficar sozinha.
às vezes quero agarrar sua mão e pedir, pelo amor de deus, que não vá embora.
algumas coisas são difíceis de matar.
por isso é mais fácil abortá-las
envenená-las no ventre.
quero que você vá embora.
quero ficar sozinha.

deixe a luz acesa quando sair, por favor
eu tenho medo do escuro

manifestos de menina #14

if i could i would i'd change everything
- it all over but the crying, garbage

está acabada
"hey babe can you bleed like me?"
ela olha para o espelho e repete isso infinitamente,
esperando um dia poder fazer essa pergunta para alguém de verdade.
alguém de verdade
como se não fosse ela própria real.

ela tem essas cicatrizes invisíveis porque ela não acha que consegue se destruir literalmente
ela não se considera autodestrutiva até perceber que está se matando aos poucos
"you should see my scars"
sem cuidado ou apreço pela própria existência.
ela está cansada.

para e lê o que escreve e se acha deprimente.
quase desiste de clicar em "publicar".
mas segue o raciocínio - há algum?
já diria certa escocesa
que tudo o que você acha que sabe está errado, querido.
ninguém sabe nada dela
ninguém tira ela de lá
ninguém vai conseguir
ela não quer sair

as coisas vão acontecendo numa cascata e ela achou que nunca mais se sentiria assim
ela achou
que era coisa da cabeça dela
ela não tinha nada
ela não estava doente
ela nunca havia estado
ela achou que as férias seriam permanentes
ela sentiu que acabariam
e fugiu
das únicas coisas
que a poderiam salvar

e agora está ouvindo as mesmas músicas de anos atrás
acabada
acabada.

para onde foi tudo?
para onde foi o que tínhamos?
para onde fui?
onde eu estava esse tempo todo?
por que isso não acaba?

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Judith, A Mulher Mediana™

Judith é mó otária
Serve o patriarcado
De coleira ela tá feliz

Eu devia ser legal
E explicar
Judith, não é assim
Mas Judith me acha gorda
Judith me acha louca
Judith, não é assim.

A Judith não liga
que quando ela arruma o cabelo
ela não fez isso pra ela no espelho

Eu deveria ser legal e
Explicar pra Judith
Mas Judith não me escuta
Ela acha que eu sou puta
Judith, não é assim.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

porta fechada

escolher entre a liberdade e ser amada
cuidada
ter colo e porto seguro
escolhi ficar sozinha

sei que sou nova ainda, relativamente
(embora muitas vezes eu me sinta velha
ou só cansada)
e que é muito cedo pra dizer isso
mas é assim que vou morrer.
bem, talvez eu morra cedo.

nas difíceis escolhas entre ser
ou deixar entrever
eu prefiro que sobrem só frestas
entreabertas e rasgadas à força
por um ou outro aventureiro
sem medo de sangue, de gritos, de histeria.

sem medo de ser afastado.

estou genuinamente cansada e sinto isso em todos os meus ossos.
as notas musicais entram em meus ouvidos
fazem carinho nos meus braços
percorrem minhas pernas
me sinto expandida
explodo.

e fecho a porta com barulho
na sua cara.

sábado, 29 de agosto de 2015

umbrais longínquos

alguns de nós estão fadados ao desespero
creio que o fim não seja algo confortável para nenhum
egocêntrico, humano, mesquinho.

não creio nos fins como um problema.
depois do fim é que nos resta a pior sensação.
quando morre algo ou alguém o momento pode passar mesmo despercebido.
mas internalizar o fim não é processo fácil.

como sobreviver ao limbo?
esse momento do ciclo entre o fim e o novo começo?
quando não se avista o umbral
quando não se pode atravessar a bruma
sempre tem algo te puxando, puxando, puxando...

ouço ecos
sinto ar úmido
quero gritar
alguém para ouvir?
dificilmente.

sempre professo que estamos sozinhos
eu estou sozinha
sempre estive e sempre estarei.
se eu quero?
eu gosto. suporto.
é por saber que não há nada que possa me fazer atravessar
a não ser eu.

"so you don't wanna hear about my good day..."
- good day, the dresden dolls

eu não sei o que me deixa mais triste.
te ver ou ouvir sua conversa.
mas o problema são as pessoas querendo se encaixar, não é?
mas quando você faz isso não tem nada errado.
eu não sei como você consegue.

não sei o que está acontecendo comigo, mas você não ajuda.
fique com sua facilidade de fazer amigos
eles são todos rasos
eles não dão a mínima.
talvez seja porque você não dê a mínima pra si mesmo.

"eu gostaria de fazer mais que sobreviver
eu gostaria de esfregar isso na sua cara"*
não sei quem combina mais com essas linhas, eu ou você. 

estou surtando
estou surtando
e tudo que você faz é assistir de longe
- ela está fazendo de novo. 
- a mim isso não influencia mais.
você tem a frieza necessária pra esfregar isso na minha cara.
pois justo você que tanto se diz sentimental.
justo você que acha que é tão importante falar.
agora me diz que não há qualquer coisa para sentir?
não é irônico?, que eu tenha me afastado para cuidar de mim e que isso seja um problema?
agora que eu falo você não escuta.
o bom de tudo isso é que ainda me resta uma vitória: eu estava certa o tempo todo.

e eu previ tudo isso
previ meu sofrimento
sua forma de lidar com tudo
todo o monte de informações que eu receberia e com as quais não saberia lidar
a catástrofe inevitável da minha identidade
que era, no fim, o problema todo.

e no entanto estamos bem, obrigada.
você nunca me conheceu. 
as pessoas que você despreza porque se sente mais homem que elas
conheceram melhor ou pelo menos respeitaram esses aspectos 
mesmo que eu não tenha deixado
- é tão bonito ficar olhando as coisas desmoronarem de longe.
com que prazer você deve ter assistido meus problemas 

todos nós sabemos do sadismo do ser humano e eu posso ser bem fria
mas não sei o que pensar sobre você.
tão benfazejo 
tão generoso
delicado e que sabe sempre o que dizer. 
começo a acreditar que eu sempre fui idiota.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

fiapo

Hoje acordei com vontade de morrer
há dias em que essa vontade é maior que em outros.
Há tempos que eu não vertia lágrimas no caminho de casa.
Mas aparentemente o tempo quis assim.

Não, eu não estou bem.
E eu  não tenho vontade de melhorar, se quer mesmo saber.
Não há qualquer prognóstico.
E talvez eu esteja bem assim, obrigada.
Não há como fugir de quem se é.

Toda pessoa que eu encontro me frustra.
Toda necessidade de ser algo diferente me dói.
Estar no mundo ainda é pior.
Não quero mais buscar companhia.

Qualquer toque humano me destrói.
As conversas, vazias, me dóem.
Qualquer sofrimento me alenta.
E a distância por vezes conforta.

Estou querendo virar fiapo.
Sumir, evanescer, virar qualquer coisa que
Não necessite ser lembrada
Que possa permanecer intocada
Que seja sinônimo de fiasco.

Quero morrer.
A vontade que me acompanhou ao acordar ainda me alenta.
Gostaria que não sentissem minha presença
Queria que tampouco sentissem minha ausência
O peso de ser me atingiu em cheio
Hoje pela manhã, quando abri os olhos.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

divagações vespertinas

quanto mais as coisas duram mais tendo a acreditar que não funcionam
não sei quantos de nossa espécie conseguem ser tão estáveis
e conhecendo você sei que nada vai muito longe
só você
que vai até o fim
mas ninguém te acompanha
porque você larga tudo logo cedo sem nem se dar conta

quantos amigos e amigas já me entediaram
procurando essas coisas em que se agarrar por anos
em geral se prendem desesperadamente a outras pessoa sprocurando outras estacas
não são portos seguros, são pequenas âncoras
pouco capazes de segurar almas com segurança
na maior parte das vezes apenas as levam para baixo, baixo, baixo

não sei nadar, nem tento
mas se eu soubesse passaria nadando, flutuando, boiando entre essas amarras todas
o problema é quando me prendo nelas
nas amarras de outras pessoas
nas intenções de outros seres

você vai morrer sozinho, como sozinho veio ao mundo
isso serve para todas e todos nós e
é muita ingenuidade,
é ingenuidade
achar que prender uma corda numa estaca débil vai fazer com que isso mude

fico observando as coias não darem certo
como você consegue acreditar que isso está ok?
prefiro minha amargura que essa obra de arte frágil emoldurada na parede
está um pouco torto esse quadro, não acha?
pendendo pro lado direito... não, não, agora ficou mais torto
vai cair!

plaft.
Não sei como vocês aguentam!
Acho que agora entendi que eu não estava ok com esse transtorno obsessivo compulsivo
de amarras
de um lugar só
de uma moldura perfeita
"perfeita", palavra clichê. perfeita deveria ser uma palavra proibida.
"Não sou perfeita, lide comigo",
"Complicada e perfeitinha"
Quantas meninas se identificam com isso mas são só mais umas tentando ser, enfim, perfeitas.

"A mina que corre junto"
significando a mina que não tem planos próprios
eu juro sinceramente que não entendo.

domingo, 9 de agosto de 2015

fim da linha

"nothing is certain at this time of day"
- the mouse and the model, the dresden dolls

eu fico aqui olhando para fotos antigas e 
lendo suas frases e me torturando e
eu abro as caixinhas de lembranças e
penduro quadros antigos na parede e
começo uma catarse proposital e
fico com vontade de morrer e
sinto dor física e 
prendo minha respiração e...

conto todos os dias pra mim mesma as histórias mais fracassadas
eu não consigo parar de fazer esse tipo de coisa porque acho que me dá senso de identidade
a sensação de estar sempre perdendo
de esperar por coisas que não aparecem
eu não sei me desvencilhar porque eu nem sei de que se trata

vamos matar alguns bebês?
eu quero abortar esse sentimento
a minha cabeça começa a doer no exato momento em que a preocupação parece chegar ao ápice
eu sei que você faz as coisas de propósito
pode confessar
obrigada, obrigada
eu sei

é tudo tão bonito, tão bonito, tão bonito
as luzes
quando o carro viaja rápido
quando não estou no meu melhor
quando não sou eu mesma
quando olho para as árvores
às vezes quero me fundir com elas, com elas, com elas
eu amo aquelas folhas e o verde me acalma e eu fico querendo que vente e derrube tudo

o vento poderia me levar para longe e eu poderia bater contra alguma parede
cair
sangrar
morrer
explodir por dentro
nunca mais ter que
achar tudo tão bonito
e nada mais seria inalcançável
eu quero que...

acabou a linha de raciocínio. 

domingo, 28 de junho de 2015

No tempo errado

A Primeira Árvore secou rápido
Chamei-a Decepção
A Segunda Árvore queimou ainda mais rápido
Mostrando que tudo se destrói.
Dentro de mim eu já tinha a certeza
de que nada se mantém de pé.

Árvores secas, queimando no caminho.
Estou sempre no tempo errado.

Nunca deixei ninguém chegar perto
E me fiz pedra porque não suporto os olhares sobre mim
Mas nem tudo é dureza e eu sou fluida
Passo sob as raízes
Mas elas não me absorvem
Pesado demais, as Flores não gostam.

Flores são frágeis, porque assim é a beleza.
Estou sempre no tempo errado.

Quando resolvi parar de andar
No meio do caminho me sentei e olhei para cima
Reencontrei algo perdido Vidas Atrás
Retido em minhas mãos por alguns instantes
Era pesado demais para carregar.
Enterrei debaixo de minhas árvores e fui embora chorando.

Não sei quantas Vidas serão necessárias.
Eu estou sempre no tempo errado.

O Vento açoita a pele quando é gelado.
Quando estou morta é Ele quem me revive.
Eu morro todo dia antes de levantar.
A dor é mais forte e eu sou puxada para baixo.
O Vento me acorda, me chama pra fora.
Mas eu quero me enterrar sob as árvores.

É difícil fugir das imagens na minha cabeça.
Eu estou sempre no tempo errado.

Encontrei-me comigo mesma na minha versão oposta
Quis me enamorar de mim mesma, mas eu era tão livre!
Chorei ao ver Eu Mesma partir, minha sombra
Em forma de figura masculina eu dei outros passos
Na direção de outras vidas
Foi difícil assistir meu outro eu ir embora.

Tão jovem, que eu não podia interferir.
Eu estou sempre no tempo errado.

Na esperança de me ver voltar, encontrei outra mulher
Que me ofereceu seus seios como alento.
Entre suas pernas me descobri mais amada.
O carinho não pode ser sempre expresso.
Cortei os laços, porque não podia amá-la,
chorando ao vê-la partir, sem poder dizer que estava triste.

Ela nunca soube o quanto a amei.
Eu estou sempre no tempo errado.

Quando não pude ter a moça
Me prometi não abandonar ninguém por medo
O Amor me assustava então levantei e mudei de direção.
O Vento açoitava meus cabelos e rachava a pele de meu rosto.
Deixei Olhos profundos olharem dentro dos meus.
Minha alma aquecida e livre pela primeira vez.

Mas não demoraria para o quebrar dos espelhos.
Eu estou sempre no tempo errado.

Eis que o Tempo tão sórdido jogou suas lanças todas sobre mim
Porque no momento em que minha alma se aqueceu
Águas terríveis caíram do céu.
Desenterraram e trouxeram todos os Sonhos enterrados.
Quando os Olhos partiram de minha vista.
Não pude mais decifrá-los.

Como um último trunfo do Tempo, não pude mais confiar no meu coração.
Eu estou irremediavelmente no tempo errado.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Constatações rápidas

Eu estou sempre no tempo errado.

domingo, 14 de junho de 2015

Das coisas que faço quando não estás comigo

Chega enfim a hora da noite
Em que começo a sentir você
Despretensioso no meu caminho
Me encontrou no meio do labirinto
Me tomou arrastando meu olhar
Meu maior medo a essa hora é não te alcançar

Minha respiração fica entrecortada.
Eu mal ouço ou vejo o mundo a minha volta.
As palavras correm, minhas roupas caem.
Minha voz fica solta
Mas minhas mãos querem prender
Reter
Entre meus dedos
Calor
Fim dos meus medos.

Me contorço sozinha na cama
Bailarina de minha própria música
Prisioneira de minhas cobertas
Como se você estivesse assistindo
Seguro, relutante, meus gritos
Quase posso sentir
Ouvir tua voz me chamar
Chega enfim a hora do dia
Em que conto os segundos
Sedenta por qualquer vislumbre.

Reconstruir

Fico refazendo teus traços na minha cabeça
Reconstruindo tua voz
Percorrendo tua pele
Memorizando
Revivendo
Nada parece me incomodar quando você está por perto.

Ouço tuas músicas.
Choro enterrando antigos pedaços mortos de um amor estranho.
Confundo-me.
Eu me perco em mim mesma e não consigo entender
De onde vêm minhas tristezas
Não sei para onde as palavras estão me levando.

Queria te perguntar algumas coisas
Mas ainda é muito cedo.
Tua voz me diz mil coisas
Eu te reconstruo pra me manter de pé.

A Falta (ou A Cama)

Falta eu na sua cama.
Falta sua voz no meu ouvido.
Falta tua pele nas minhas mãos,
Na minha língua.
Teus olhos reparando nos meus cabelos,
Teus dedos neles entrelaçados.

Teus olhos me perseguem onde quer que eu vá
(Eu já falei sobre isso e no entanto preciso falar de novo)
Me atravessam e decifram
E mesmo assim não me sinto acuada
Só quero você me invadindo
E me pedindo calma
Quando eu me desespero
Porque você consegue chegar onde nunca quis que ninguém chegasse.

Queria estar em sua cama
Falta eu na sua cama.
Falta você dentro de mim.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Arrebatar

Olhos que parecem sempre carregar um sofrimento muito antigo
Como se estivessem cansados do que testemunharam, por eras a fio, sem descansar
Pousam sobre eles sobrancelhas arqueadas para baixo
Como se pedisse algo - como se fosse urgente.

São olhos claros que dizem tanta coisa!
Que sussurram e me perguntam por significados profundos
Que não conheço ou que não consigo formular.
Me rondam em sonhos, no fim do dia,
me questionando, fazendo parar.

Creio estar apaixonada por esses olhos
Que me olham e me transpassam
Decifram quando menos quero e espero ser compreendida
Mesmo quando formo tempestades ao redor
E para os outros permaneço desconhecida.

Você e seus olhos me atravessam.
E eu já começo a parar de relutar.
Estou cansada de lutar contra mim mesma.

E não há força que tire seus olhos da minha cabeça.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

a volta dos manifestos

eu estou sozinha
eu gosto de estar sozinha
eu
sou
sozinha
eu sou sozinha a a

flutuando na calçada
neblina
compondo no ônibus
sentindo vento frio
o outono
inverno
estou em que estação?

me pego fazendo caras estranhas
bons e velhos tempos

eu te amo
eu sou aquela por quem você se apaixonou
visitando velhos lugares pelos quais eu era apaixonada
pensamentos em turbilhão que agora esqueci
não gravei
não gravei não gravei

eu não sei
eu não quero
quero largar tudo
quero agarrar o mundo
quero cantar
cantar
tocar as teclas
estou estou estou
eu.

domingo, 3 de maio de 2015

momento indeciso

onde está onde sou onde era onde soo onde voo

onde onde onde

manias de querer saber
manias de não sentir
poesia experimental
ou só experimentando ser
não sei bem onde começa
muito menos como termina

se termina...

quantas bobagens nesse dia de amanhecer estendido
como se o segundo em que o sol se escondeu derradeiramente
se sustentasse por horas e horas e horas

aquele momento indeciso do dia
aquele momento indeciso da vida
aquele momento indeciso e vazio.

difícil ser

odeio gente
odeio o jeito como ainda me importo com você ou com o que você faz
preciso sumir

é difícil lidar com isso e eu acho que não vamos nos curar
provavelmente ainda estarei aqui

os sons do meu corpo
sem fazer sentido
querendo ficar quieta e afundar em neblina

sozinha
sozinha
sozinha
onde não machuco ninguém
"vá com a outra garota, vá com a outra garota."

queria apenas que eu mesma fosse embora
é difícil lidar com a saudade
é difícil lutar comigo mesma
é difícil ser

sem você.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

riacho azul e prata

tenho acordado há semanas sem vontade de levantar
eu só queria ensinar história pra algumas crianças
não ver colegas de trabalho apanhando e levando tiro da polícia
pensando
"podia ser eu"

 deixem a gente ensinar.
já é bem difícil
com nossos salários
com vocês nos apedrejando quando pedimos melhores condições
fica pior ainda.

 dá vontade de desistir

dá vontade de nunca ter existido
dentre as tantas outras coisas que me fazem sentir assim

 o mundo não me quer vivendo nele
não é possível que se espere que eu queira viver nele.
só quero dormir, dormir, dormir...

você não me quer mais na sua vida
não posso dizer que estou triste
não posso dizer que estou contente
não posso dizer que não percebi
não posso dizer nada.

eu não quero mais
eu não quero mais
eu não quero mais
eu quero sair daqui
eu quero viver trancada no meu quarto
o mundo é ruim
as pessoas são ruins
eu não tenho esperança
eu preciso ter esperança
eu não consigo ter esperança
desde muito nova eu afoguei a esperança num riacho azul e prata.

não há estrada à frente
não há flores nem sorrisos
não há
não

eu queria apenas poder ler e escrever minhas letras em paz

sexta-feira, 24 de abril de 2015

o cortar dos fios

estou contando nos dedos as farpas
que atiras assim como sem querer
a raiva se acumula
mãe das mudanças

a um passo de perder qualquer resquício
as cartas falam em cortar os fios
fundo na minha alma sinto que já passa da hora de fazê-lo.

frases e termos repetidos para pessoas diferentes
não é assim que se trata uma lady.
a vontade é grande de assistir-lhe afundar

sinto-me destemperada e nem um pouco paciente
sinto-me velha e encarquilhada
sem paciência e sem freios na língua
sinto-me cheia

todas as manipulações de que dispunhas evanesceram
uns dias atrás, como um clique, desativadas
é tão bom estar sozinha sem ninguém a confundir meus pensamentos

as coisas com as quais você não se importa ou faz questão de mostrar
me cansam e eu me sinto esgotada.
está acabado.

domingo, 15 de março de 2015

cubos de gelo

acho que sou mesmo fria
a despeito de todos os sentimentos e rancores que sou capaz de sentir
é fácil ignorar
deixar pra lá
não me importar.

escrever não alivia a dor
mas pelo menos a organiza.
talvez eu tenha transtorno obsessivo compulsivo em relação ao que me cabe de interno.

(eu não gostaria de ter que revelá-los assim,
mas às vezes ajuda saber que alguém lê, e entende e se vê.
enfim.)

tem dias que os fios ficam tensos
tão tesos que não produzem som.
tem semanas que meus músculos se enrijeceram e não mais voltam a relaxar.
tantos fardos inúteis a se carregar, mas essa é a vida, eles dizem.
creio que seja minha eterna sina.

me envolvo nos véus de sempre
há coisas que não se misturam, ainda que no mesmo ambiente.
há pessoas que não devem ser tocadas
e coisas que não devem ser escritas.

domingo, 1 de março de 2015

Bom dia para Março

Março tem um cheiro bom. É a melhor parte do verão. Tudo fica mais alaranjado, se preparando para as luzes amarelas do outono. Março tem um cheiro bom e me faz pensar em frutas.
Março me deixa melancólica, e geralmente chove no meu aniversário. Mas é o mês das escapulidas para a praia, porque ela já não está lotada - e eu tenho essa pouca predileção por espaços muito cheios de gente.
Acordei dando bom dia para o mês que me deixa mais velha.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Divagações ignoráveis

Gostaria de poder sangrar esses desejos todos.
É muito difícil lidar com todos eles gritando todos ao mesmo tempo.
Eu morro cada vez um pouco mais toda vez que tenho que controlar meu corpo
Minha respiração é criminosa.

Eu já estive aqui antes, e essa sensação me dá arrepios.
Eu sigo repetindo e repetindo os mesmos padrões,
muito embora eles sejam loucos o suficientes para parecerem aleatórios.
Mas está começando a me irritar.

E então me fascinam novamente.
Fico me sentindo feia
algo para ficar jogado num canto como fosse empoeirado e velho e mofado.
Talvez você já tenha se sentido assim.
Houve um tempo em que isso era só o que eu podia sentir.

Ando esquecida e distraída e
sentindo como se esses fossem os últimos tempos de alguma coisa.
Sinto que estou cavando minha mente cada vez mais fundo
como fosse meu próprio túmulo
eu realmente não entendo como você pode não ficar hipnotizado com essas coisas.
Eu realmente acho que você não entende nada.

As coisas mudam. E eu não acho que vai começar a fazer sentido.
Simplesmente vai aparecer uma pequena rachadura
que vai se transformar num abismo e quando você perceber será tarde demais.
Não sei se tenho tempo para lidar com isso.
Não sei se quero lidar com isso.
Acho que não consigo.

Estou a ponto de entrar em colapso mas ajo como se tudo estivesse bem.
Qual o problema, não é mesmo?
No fim sobram eu e minhas coisas, meus livros, minhas músicas
E você nem vai saber,
Para você isso nem é uma realidade mensurável.
Sigo andando por aí e tentando não pensar.

Só me ignore.

domingo, 4 de janeiro de 2015

escombros

minha cabeça gira e nos sonhos fico dividida entre dois corpos.
eu ouço as vozes na minha cabeça me puxando pra perto.
quando me viro, não estão lá. 
o pior mesmo é quando tudo lembra o cheiro dos donos das vozes...
tem sido estranho

sinto como se estivessem drenando o sangue do meu coração 
estou vendo o sangue escorrer 
pelos tubos até garrafas de vidro brilhantes e coloridas
sou uma bruxa e dizem que sangue de bruxa tem propriedades mágicas nesses dias

eu sinto você 
eu sinto essas coisas todas que se despejam de seus lábios
lembro dos sussurros
eu não consigo lembrar do que foi dito, não consigo, não consigo
é tão difícil costurar as memórias nesses dias
eu gostaria de saber por que.

fico pensando em todos aqueles movimentos e nos cheiros e no que consigo ver
estou confusa demais, e acho que não quero entender nada.
sigo mergulhando em mim mesma mas sem chegar naqueles cantos escuros em que chafurdava outrora

vocês não vão tirar de mim minha sanidade

na luz todos os detalhes mais bonitos podem ficar irritantes
amor: não expor à luz, umidade e utilizar antes de [insira aqui a data de validade]

não quero pensar nisso

você pode me encontrar debaixo dos escombros, se quiser. 
eu não vou mover um dedo sequer.