quarta-feira, 17 de julho de 2013

Calvário materno

O homem se preocupa mais
com a fruta
que com a planta.
- Sagrada Maria,
me dá um tempo! - e subiu na cruz de saco cheio.
O fruto pode sair podre, no fim das contas.

Caretas de dor, feias como a morte;
é fácil perpassar um ser com outro,
basta algumas horas.
Talvez com um corte a coisa seja mais fácil.
Alguns
acham
mais limpo.

Dizem que não dói, mas você deu isso pro mundo.
Acho que dói, sim.
Então melhor assistir à passagem das horas gritando.
Prefiro isso
à apatia fria
das paredes verdes-sem-cor.

O fruto olha entediado com braços abertos.
A mãe, de braços abertos pro céu gritando impropérios.
As escrituras
ocultariam esse detalhe inoportuno, creio.
Evangelho do parto,
que belo momento.

A mãe aberta
de braços abertos
agulhas furando
soro pingando
o ventre dilacerado, o sangue ainda fresco.
Assepsia, anestesia, mal-vejo-seu-rosto.

A grama verde e passos de criança.
O chão arenoso, os passos entediados
de um fruto que conhece seu destino.
- Me dá essa cruz aqui, cara,
deixa que eu mesmo
termino.


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