sábado, 27 de julho de 2013

Maldição

Cruza meu caminho,
e eu apodreço seu organismo por dentro.
Não tenho dúvidas ao dizer que faço o vento tremer folhas de árvores.
Quando seu sangue secar dentro das veias
e suas entranhas virarem pedra,
estarei sorrindo, tecendo teias de desespero.
Não tenho medo de dizer que sou perversa.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Calvário materno

O homem se preocupa mais
com a fruta
que com a planta.
- Sagrada Maria,
me dá um tempo! - e subiu na cruz de saco cheio.
O fruto pode sair podre, no fim das contas.

Caretas de dor, feias como a morte;
é fácil perpassar um ser com outro,
basta algumas horas.
Talvez com um corte a coisa seja mais fácil.
Alguns
acham
mais limpo.

Dizem que não dói, mas você deu isso pro mundo.
Acho que dói, sim.
Então melhor assistir à passagem das horas gritando.
Prefiro isso
à apatia fria
das paredes verdes-sem-cor.

O fruto olha entediado com braços abertos.
A mãe, de braços abertos pro céu gritando impropérios.
As escrituras
ocultariam esse detalhe inoportuno, creio.
Evangelho do parto,
que belo momento.

A mãe aberta
de braços abertos
agulhas furando
soro pingando
o ventre dilacerado, o sangue ainda fresco.
Assepsia, anestesia, mal-vejo-seu-rosto.

A grama verde e passos de criança.
O chão arenoso, os passos entediados
de um fruto que conhece seu destino.
- Me dá essa cruz aqui, cara,
deixa que eu mesmo
termino.


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Chega de poema

O dia estava frio.
Olhei para minha unha encravada.
Que dia de bosta, pensei,
e a cor do céu não ajudou quando abri as cortinas.

Olhei a hora. Ainda era manhã.
Estamos progredindo.
Na sala o menino pequeno pinta um controle remoto com canetinha,
alheio à minha tristeza.

O poema acabou e faltavam ainda umas três estrofes. Não sei mais escrever.