sábado, 13 de outubro de 2012

Manifestos de Menina #11

Eu vi um corpo morto na estrada.
Não era corpo de gente, era corpo de bicho.
Havia um cachorro morto na rua.
Ele me pareceu tão idiota,
ali ignorado por todos os carros.

Alguns até mesmo chegavam a passar por cima de seu cadáver esmigalhado
alguns miolos estavam espalhados pela pistas
comprimidos contra ela
tingindo tudo de uma cor que é indefinível.
Aquela cor de órgãos grudados na pista, que não é nem vermelho, nem cinza, nem rosa
e que é todas essas cores ao mesmo tempo.

O corpo morto parecia imbecil.
Não por ser um cachorro (ou por um dia ter sido um cachorro)
mas pela morte que teve.
Acabou de um jeito tosco, sujo e rápido demais.
Grande bosta morrer debaixo das ferragens.

Depois, eu me senti tão morta quanto ele.
Porque me vi cercada de culpas e obrigações,
e de comparações que existem só na minha cabeça.
Senti meu corpo queimando, uma queimadura de ácido,
na boca do estômago e depois se alastrou por tudo.

"Nós vamos ser aqui a platéia do mundo
e vocês vão rir de nós, achando que estamos num palco underground.
Porque vocês estão nesse mundo louco
nesse sistema que tira os sonhos das pessoas."

O falso louco ria, e achava que transgredia.
Fiou um manto de letargia, e depois de uma hora e meia, olhou o relógio:
- Caralho! - era hora de ir embora.
É, louco, parece que o sistema o engoliu
e você não vive mais num sonho.

Enquanto eu vivo a minha vida como se fosse um livro
cheia de personagens imaginários, e pensando
"Quem esteve aqui nesse lugar antes de mim?"
Eu odeio todos vocês quando falam idiotices achando que vivem mais plenamente que os outros.

Minhas palavras são a morte.
Minha morte será uma palavra.
No fim de tudo só uma pedra e umas cinzas
ou fungos e vermes, eu podre debaixo da terra.
E deus me livre que seja por causa de um carro.

Escrevi deus e não creio em religião.
Creio que sejam todos os males do mundo
nenhuma presta, todas são sujas, cuspo em todas.
É mentira, eu as respeito, e não tenho o hábito de cuspir porque assim minha vó me ensinou.

Morte, volto pra ela o tempo todo.
Creio que seja a obsessão do homem, esse tal de fim
que provavelmente é o que é, por mais que eu creia em recomeço.
Vamos te enforcar com suas próprias veias, nao é maravilhoso?
Me dê aqui seu braço, está na hora da convulsão.
Prefere choque químico ou uma carga alternada passando pelo seu cérebro.
Podemos te induzir ao coma.

Veja como somos legais, estamos te dando as opções!
Nós só não admitimos suicídio. Isso é algo que não poderemos admitir
sob hipótese alguma.
E se você tentar, vamos te salvar, porque só se pode morrer aqui se for pela mão de outrem.

Minhas palavras são a morte, e minha morte vai ser por palavras.
Mas as minhas palavras são como a morte do cachorro:
rápidas e imbecis, instantâneas e evanescentes.
A morte se vai, procurando outros corpos de que possa se apoderar.

Mas quem vê aquela morte e a ela é sensível, sente-lhe o espírito e dele sente-se habitado.
Eis que a morte e a palavra passam a remoer meu estômago.
Eis que o espírito por ela - a palavra minha - tocado apodrece.
Tudo num átimo.



- Fazia tempo que a menina Revolta não se manifestava...

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