quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Chegada

O ônibus parecia que ia entrar em si mesmo
ia andando e parecia que se esticava
como borracha derretida
açúcar derretido formando um doce novo.

Parecia que a frente dele
retornava a si, num vórtice,
e os passageiros iam derretendo e acompanhando
o ônibus que eternamente entrava em si mesmo.

Era como eu, quando mergulho em mim mesma
na hora da tristeza.
Tudo é lágrima, de folha caindo
aos livros que eu leio desesperadamente por não querer.

Meus olhos se juntam ao horizonte.
Eles saem das minhas órbitas, fico cega, não importa.
Meus olhos são o céu.
Estrelas derretem na minha cara, e ficam lá, no lugar dos globos gelatinosos.

Sorrio. As estrelas, ainda líquidas, na minha face rosada
se moldam no sorriso e ficam pequenas.
Você acompanha tudo
já meio perdido, de procurar sentido nas mutações do meu olhar.

Nuvens. Elas tocam minha pele, são úmidas e geladas.
É como vento na janela do automóvel
quando coloco o rosto na janela e no vento que racha a pele
é como me sinto, como se estivesse livre.

As músicas se somam nos ouvidos e viram uma só.
Nos fones - há fones? - eu confundo todas mas ao mesmo tempo sei bem a melodia.
E elas todas traduzem eu e você - que é só o que existe.
Só conheci o céu porque existiu poesia.

Virei na areia do por-do-sol e você estava atrás de mim.
Sorria, porque só me via.
E eu chorei, de felicidade, como choro agora, escrevendo isso.
Porque você sabia que eu viria.

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