sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Bem me leve

Ora, ora, o poeta também teme!
Eis que eu cavalgo nos sonhos -
porque deus me livre um bicho daquele tamanho! -
e com um manto de terror te cubro.
Trancei num tear desejo, medo e paixão.

Nossos temores que se entrelaçam e nos protegem
e eis que surge o tal do amor.
Ele se aconchega sobre os lençóis
como saliva produzida por boca ávida.
Eis aqui, senhores, sabores doces.

Crio imagens na minha cabeça
pra esse poema foram mil.
Queria tatuar tudo o que és pra mim,
um desenho completo, complexo,
algo como traços de criança e ares de mulher.

As longas faixas de areia das praias que fomos e que iremos;
as longas faixas de poeira de estrelas,
e eis que surge o futuro com tanta luz que não se pode vê-lo.
As vozes todas ouvidas e as solidões, esquecidas.
Ainda que haja medo ainda.

São anéis nos dedos,
cristais e relicários nos pescoços
e versos demais pra se deixar levar
por outra coisa que não seja esse poema
e as marcas das nossas peles.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Gotas d'eu

Que fazer com esses escritos
senão te amar mais a cada um deles?
A cada verso de prender respiração
como carinhos na nuca.

Nunca.
É uma palavra feia.
A não ser que seja nunca de nunca-abandonar.
Deixar de lado é feio e não combina com a gente.

Penso nas nossas loucuras.
Na nossa companheira violenta e dissimulada.
Ela surge por trás de nossos ombros vez ou outra
lembrando "eu ainda estou aqui."

Cheirando a sangue, ela, se esvai.
Destrutivos, um mais que o outro,
e ainda não sei dizer qual,
construímos uma abóbada nebulosa de sonhos.

Ouço ecos de coisas que gostaria de ver
desfiadas por ti em longas conversas sobre passinhos e pianos,
caídas da tua boca que tanto amo e me deixando torta
de tanto derreter por aí afora
em tantos lugares-comuns em que nos encontramos outrora
e que agora são lugares-em-comum.

Tem pedacinhos de mim espalhados
por todos esses espaços
gotinhas de mim que evaporam na luz da lua
e que formam as visões que tens ao adormecer...


domingo, 19 de agosto de 2012

O Anel

A noite se fez quente, e logo começou a se esvair.
Em cantos de passarinhos que nos queriam ver correr para casa
pra nos proteger da luz do sol que ameaçava já nos banhar.
Caminhávamos enfim na rua esgotados e felizes de tanta gente.
Minha mão direita pesava com um fino anel de lata.
A imitação de alguma pedra alaranjada parecia ofuscar-me os olhos
enquanto ao meu lado recitavas um poema que lhe vinha cabeça
criando ali mesmo na calçada uma ode ao nosso amor
enquanto caminhávamos sobre o cimento frio.
Os versos ecoavam as promessas da noite
sussurradas ao pé do ouvido enquanto toda a gente passava e olhava.
Fumaça de cigarros, gelo pra esfriar a cerveja.
Quantas pessoas sujas de pó de fadas, brilhando e rindo neste lugar!
Observando o anel que conseguiste
um prêmio alcoólico da noite a mais para seu corpo ébrio
e seus braços me puxam pra fora, e ali, nos degraus da porta dos fundos
só falta o último passo.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Gosto em te cuidar

Por mim eu iria praí.
Por mim eu nem teria ido embora
Lavava tua louça
te fazia sopa
e trocava tua lâmpada.

Cuidaria dos teus machucados
fazia curativo mesmo com tua cara amarrada
e limpava o vidro da janela do quarto
(pelo amor de deus).

E se, de madrugada, tu levantasse
depois de um sonho embaralhado
eu te punha no colo e tu dormia
só pra eu ficar te olhando.