sábado, 28 de julho de 2012

Filhos de Vênus


Ela faz sexo com as notas.
O som da guitarra é o movimento do quadril.
O osso que solta, que desloca (ou parece deslocar)
O corpo que serpenteia
Que se vira – de frente, de costas de lado e de costas novamente -,
Que se move
Que fica estático num átimo.
O ar parece tocá-la
Sente-o de fato
Como coisa física
Como se o ar fosse mão que acaricia.
Morre.
Para o mundo, está morta.
As palavras que chegam ao ouvido
Não chegam ao entendimento.
E as que lhe vêm da garganta
Atropelam-se em algum ponto da língua
Sem chegar à ponta
Sem escapar pelos lábios.
Está sentada à mesa
Mas segurando a borda do tampo
Com força
Para sentir o mundo à sua volta
A textura da madeira de alguma forma traz senso de realidade.
Segura-se na mesa para não gemer alto
Na sala de jantar.
Ela está cortando um pedaço de massa
(Ela está arranhando a pele dele)
Ela está falando sobre Chico Buarque
(Ela está se retorcendo até a tortura)
Ela está rindo de uma piada interna
(Ela está gozando.)
A sala inteira se desintegrou
“Desde que estou te amando”.
Mais uma explosão.
Alguém continua falando do Chico.
Gemidos.
Não, não ainda.
Segure-se, espere por ele.
E então, novamente, o ar lhe toca a pele
As pernas.
(E) entre elas.
Um telefone toca, ela atende.
Ela não sabe o que acabou de dizer
O ar e o som dos carros
Fazem pressão em volta dela
Toda a atmosfera parece se comprimir no quarto.
Pela janela entram todas as boas sensações do mundo.
Ela parece desesperada;
Ela está desesperada.
Lágrimas escorrem, por debaixo da pele.
Ele está mesmo lá!
- Ele está mesmo aqui!
Comigo.
Tudo parece sumir.
Deixar de existir.
Deixo de existir.
Ela sou eu.
Ele sou eu.
Ela observa o amante.
Observa a conjunção de quadris –
seu confronto e união –
por cima do ombro dele.
Rabisca uma linha ondulada
Na folha onde escreve
Porque não consegue pensar em nada que descreva o resto.
O resto são os olhos dele.
O resto são as palavras que destes olhos brotam
Aquelas que ele escreve
E mesmo as que ele não escreve
Aquelas que ficam nas entrelinhas e as que ele grita
Ou sussurra
As palavras todas que se despejam sobre ela.
Elas explodem sobre ela
E depois escorrem sobre seu rosto
Lânguidas, mas intensas.
Meu deus, eu vou morrer.
Por que não somos um?
Por que não posso me fundir com ele mais literalmente?
Assim mais...
De novo a linha do não saber descrever.
Os olhos.
Permanecem olhando-a.
Os olhos.
Concentre-se nos olhos.
Eles te amam tanto
Eles são tão brilhantes
Eles te idolatram
Mas não só eles.
As mãos e toda a extensão de sua pele.
A voz dele te ama, e os ouvidos dele também.
Mas os olhos, ah, os olhos...
Parecem lacrimejar.
O corpo dele chora.
Os lençóis ficam úmidos
De suor
Dele
Dela
Suores
Soam gritos – dela – agudos, trágicos.
O teto parece descer e depois ascender subitamente.
E então ele esconde o rosto no pescoço dela.
Como pode ainda estar viva?
Urgência.
Quase como fosse desespero.
E então o mundo acaba
Quando ele desaba sobre ela.
As pernas não se movimentam
Tampouco a boca
Que não fala nem beija
Que não lambe nem morde
Só se abre para puxar o ar.
Os olhos viram e procuram algo para focar
Debilmente e em vão.
Só mostram “prazer” e “eu te amo”.
“Eu te amo” é o mantra
Que no ar dentro do quarto ressoa,
Em silêncio.

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