terça-feira, 22 de maio de 2012

Ser vivo (clichê cotidiano)

Algumas pessoas passam pela calçada como pétalas caídas
de uma flor que outrora foi alegre.
Como pode o milagre da vida passar despercebido em si mesmo nos corações de tanta gente?
Como pode alguém querer ser componente de uma massa que só existe?,
que balança na colina conforme fazem os outros, como o faz o capim.
A posto que se o capim tivesse escolha não agiria assim.
Não vejo qual a graça de ser aderência num fluxo idiota.

Então uma pétala surge, se colore
volta à vida, ainda que caída da flor.
Para além da conformidade capinzística,
esses seres deixam de existir,
eles verdadeiramente vivem.

Eles comem como todo mundo? Sim.
Eles dormem como todo mundo? Sim.
Eles fodem como todo mundo? Sim.
Banheiro, cozinha, sala de tv, computador.
Livro, revista, cadeira mesa, escritório.
Burocracia, atestado, doença.

Mas também poesia.
Mas também dor.
Mas também alegria, e sofrimento, e propósitos.
Comida não é só nutriente, é uma alegria profunda.
Dormir não é só sono, e sonho não é só ilusão.
Sonho é aquilo que se faz pra encontrar quem se ama mesmo dormindo.
A foda não é só sexo. É poesia também, é um campo com flores coloridas.
É também uma parede branca ou um teto.

E as coisas têm todas outros sabores.
Colina de chocolate e borboleta de bala de limão.
Batata, bolinho, cheiro de cigarro, criança correndo tem gosto de algodão-doce.
Chuva à noite e postes de luz, carro em movimento.
Cheiro de terra, cheiro de homem.
E é clichê, e é surpresa, e é ciclo e é hístórias-parecidas.

Meu celular tem um portal mágico.
Minhas caixas têm vórtex.
Minhas canetas são chaves e meus cadernos provas do crime.
Prendam-me: eu vivo.


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