terça-feira, 29 de maio de 2012

Casamento Celeste

O céu tomou o gosto pelo cinza ontem e se vestiu de nuvens escuras. Ao contrário do que as pessoas pensam, ele não estava de cara amarrada. Ela, na verdade. O céu é uma mulher - uma mulher que chove ou fica ensolarada.
Céu choveu porque estava se sentindo livre. Sentia-se como uma menina de cabelos soltos andando de bicicleta à beira-mar, com fitinhas no guidão amarradas (mas não o coração florido).
Chupou uma bala de hortelã e carinho, guardou o papelzinho no bolso e enviou um ou outro raio pra assustar gente humana. Riu-se das crianças que se esconderam debaixo dos seus cobertores, uma gargalhada pura e leve, solta. Céu não sabia se era menina ou mulher ainda, por isso aquelas crises de identidade a deixavam raivosa.
De repente Céu cansou de chover e se aquietou. Como guardasse a bicicleta, foi se deitar e escureceu. As crianças continuaram com medo debaixo de seus cobertores, mas Céu não percebeu. Tinha um drama maior. Céu não sabia se queria casar com a Lua ou com o Sol.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

E eu que achava que ia ter tempo pra tudo...

Agora que falei da história
e do que me deixa infeliz
pretendo vazar as cores
do que mais amo e quero perto.

Queria ter todos os meus amigos perto hoje.
Aqueles que realmente fazem bem.
Eles são legais e são inteligentes
mas melhor que isso, não disputam entre si.

Queria a risada das minhas meninas
queria um cachorrinho branco correndo às voltas com todos nós.
Queria uma cerveja e um amigo barbudo
aquele que leu todas as minhas provas e riu de muito do que falo.

Queria que os fins de semana fosse mais repletos dessa gente leve.
Queria sorver o céu azul e transformar em sorvete
(Não aquele que o Anselmo gosta que tem gosto de indústria,
mas o verdadeiro sabor do Céu Azul).

Queria os confeitos de chocolate e as casquinhas e os jogos de cartas.
Queria transitar de restaurante em restaurante
passar pela igreja e rir no parquinho
parar sentada na praia e rir de qualquer bobagem cibernética.

Queria muito aproveitar essas coisas
queria que essa gente nunca crescesse. Eles já cresceram o suficiente.
Queria eu poder parar de crescer. Estou ficando chata e ainda sou tão nova.
Mas dizem por aí que a gente é assim mesmo...

O Lugar onde tenho que conviver com as pessoas que mais odeio.

Estou me imaginando olhando pro mar.
Eu sempre falo dele embora morra de medo de me afogar.
Acho que o medo acaba nos atraindo.
Mas só um pouco.

Eu queria não ter medo de deixar fluírem as palavras da minha boca.
Quando elas saem dos dedos é tão mais fácil
Elas não machucam assim.
Quando eu falo elas cortam minha garganta.

Por que eu não consigo parar de chorar?
Está tudo bem, não está? Está?
O que está acontecendo com as plantas ao meu redor?
Elas não deveriam murchar se não estou no mundo.

Sinto como se os portais pras outras dimensões estivessem fechados.
Como se minha comunicação estivesse bloqueada.
E não consigo trazer palavras à forma de poesia.
E não consigo transmutar o que eu sinto em beleza.

Grande bosta essa vida de pretensiosa aspirante a poetisa.
Tanta gente passando por aí e comendo e indo pro trabalho
se parassem pra me ler iam dizer "ok, vai fazer algo da vida".
Talvez eu devesse mesmo, mas eu não sei o que.

Aí você vem e me diz "você já deveria estar com postura de historiador."
Oh, senhorita, desculpe, mas ser uma arrogante qualquer numa mesa de bar?
Ficar por aí estragando prazeres e discutindo filmes como se eles tivessem que ser documentários.
Que tipo de pessoa não consegue se desligar do que estuda por nem um segundo?

Aí você pode me dizer que isso é coisa de todo mundo das humanas.
Aí você pode me dizer que isso não é ruim.
Não é ruim se você ficar vivendo no mesmo mundinho.
A vida não é nenhum cabaré, como diria Amanda. Mas também não é um discurso acadêmico.

Então eu viro e explodo tudo isso.
Livros e mais livros destruídos e eu não me importo.
Eu acordo mais tarde do que deveria e tenho que correr.
Não posso chegar tarde no lugar que está me deixando infeliz.
Não posso chegar atrasada no lugar onde tenho que conviver com as pessoas que mais odeio.

Mas eu não sou louca e nem desleixada
Eu não odeio a história
Eu só acho que não sou
uma historiadora.

Dia de merda

Ando sumida.
Quis sumir da vida.
Tantas letras pra ler, tantas imagens pra ver
tantas que ficam revisitando a memória.

Acordei de um sonho ruim e me senti vazia.
Andei de um ladro pro outro do quarto
e quando abri a cortina
o céu não me trouxe resposta e não me tranquilizou.

Eu poderia fazer um casulo pra mim
e eu poderia não querer dinheiro.
Eu poderia não precisar de coisas tão humanas e estúpidas.
Mas eu sou humana. Hoje, não há poesia nisso.

As fumaças todas impregnaram-se no meu cabelo.
Ele ficou cinza e quando me olhei no espelho
eu vi uma velha amargurada.
Será que vou ser assim quando envelhecer?

De repente tive medo de morrer.
De repente eu pensei como é fácil perder a vida.
Desculpem se pareço frustrada
Desculpem se isso não é bonito.

Não vi borboletas, não reparei nas árvores.
Não senti nada hoje. No alarms and no surprises.
Triste não ter nada pra alegrar verdadeiramente o espírito.
Triste que eu tenha que ficar em suspenso.

- O pior de tudo é quando vem a raiva...

terça-feira, 22 de maio de 2012

Ser vivo (clichê cotidiano)

Algumas pessoas passam pela calçada como pétalas caídas
de uma flor que outrora foi alegre.
Como pode o milagre da vida passar despercebido em si mesmo nos corações de tanta gente?
Como pode alguém querer ser componente de uma massa que só existe?,
que balança na colina conforme fazem os outros, como o faz o capim.
A posto que se o capim tivesse escolha não agiria assim.
Não vejo qual a graça de ser aderência num fluxo idiota.

Então uma pétala surge, se colore
volta à vida, ainda que caída da flor.
Para além da conformidade capinzística,
esses seres deixam de existir,
eles verdadeiramente vivem.

Eles comem como todo mundo? Sim.
Eles dormem como todo mundo? Sim.
Eles fodem como todo mundo? Sim.
Banheiro, cozinha, sala de tv, computador.
Livro, revista, cadeira mesa, escritório.
Burocracia, atestado, doença.

Mas também poesia.
Mas também dor.
Mas também alegria, e sofrimento, e propósitos.
Comida não é só nutriente, é uma alegria profunda.
Dormir não é só sono, e sonho não é só ilusão.
Sonho é aquilo que se faz pra encontrar quem se ama mesmo dormindo.
A foda não é só sexo. É poesia também, é um campo com flores coloridas.
É também uma parede branca ou um teto.

E as coisas têm todas outros sabores.
Colina de chocolate e borboleta de bala de limão.
Batata, bolinho, cheiro de cigarro, criança correndo tem gosto de algodão-doce.
Chuva à noite e postes de luz, carro em movimento.
Cheiro de terra, cheiro de homem.
E é clichê, e é surpresa, e é ciclo e é hístórias-parecidas.

Meu celular tem um portal mágico.
Minhas caixas têm vórtex.
Minhas canetas são chaves e meus cadernos provas do crime.
Prendam-me: eu vivo.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

sonhos

te tenho no oculto
em meio à bruma
de onde viemos e onde nos abrigamos
eu faço isso pra lembrar
escrevo pra ser tua
te mando palavras aos ouvidos
à noite
enquanto dormes
quase posso sentir como
se estivesse no teu quarto
ao pé da tua cama
no sopé do teu ouvido
sussurrando para que durmas bem
para que sonhes comigo
torcendo para que, ao acordar,
eu possa ter lembranças de sonhos teus também


- Hoje eu toquei piano e lembrei de você - mas também, quando eu não lembro?

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Do tarô ao clichê

"Oh, wind and rain may haunt me
Look to the north and pray
Send me, please, his kisses
Send them home today" 
Send his love to me, Polly Jean Harvey 



Estranho o dia em que não te vejo.
O céu até se lavou de ontem,
quando ele choveu pra nós,
sentados observando a fonte.

Você disse uma vez que eu era ar.
Eu sorri internamente porque eu também me vejo assim.
Eu vento pra você criar,
mesmo quando você não fala de mim.

Eu paro e suspiro quando lembro
de um toque vívido que assalta minha memória
sempre que sinto ar frio na pele eu penso no Mundo.
Estrelas contam da gente. Pandora manda esperança.

O sonhos caminham junto com a poesia e a dança,
ora figurativa, ora real,
 nos conduz pra dentro de nós mesmos,
quando nos vemos um no outro.

- Rimas parecem uma coisa boba, mas coincidentemente eu as fiz. Perdão aos que não gostam delas. Eu compreendo.

domingo, 13 de maio de 2012

Sem sal

Uma coruja piou lá fora
eu sinto o frio ar típico
o som do pássaro dá o tom da infância
traz de volta os anos idos, iguais a agora:
sempre como se algo estivesse faltando;
sempre sozinha.

Sal no rosto branco e sem sal.
Algum tempero tinha que ter.
O espelho mostra o de sempre
as folhas nunca parecem estar cheias o suficiente de letras
que possam descrever a agonia.

Só vai andando e sorrindo
e acordando todo dia
tendo tudo o que precisa,
mas nem sempre o que se precisa é o que procura.
Algo mais abstrato sempre falta
e de tanto abstrair, as veias se esvaem.
Explosão.

Pretensão em se chamar de louco

Então minhas palavras se atropelam.
Como se furassem filas.
Eu escrevo assim, desse jeito, quando te amo demais.
Não há pássaros piando.

Sinto minha mente como um manicômio.
Em algum lugar aqui dentro, tem alguém no eletrochoque.
Se essa pessoa ainda liga, eu não sei.
Creio que sim, porque se rebela.
Noutro canto, alguém sofreu lobotomia.

Um dia chegou outro louco.
Vindo de fora, um completamente problemático
(veja seus pulsos atados! e seus tornozelos!, pensei: acho que ele é pior que eu.
resta saber quem sou.)

Ai ai, às vezes é bom ter essa cabeça de atropelo
Embora às vezes a gente chore muito,
pelo menos aprendemos a dar vazão.
Se vai fazer sentido não importa, é assim que se vive a loucura...

Oi, confusão

O sol, o céu - o frio que finalmente chega.
Um dia como outro qualquer - preciso pensar assim, preciso pensar assim, preciso...
Não dá, e eu me desfaço em vinte pra conseguir manter o equilíbrio.
(Ao menos o aparente.)

A vontade é de pegar as canetas e riscar toda a parede
como se fossem lâminas
e o tijolo epiderme derme exoderme (verme?)
Deixo as outras vontades ocultas porque não convém.

Aí vêm as lágrimas. É como se eu estivesse bêbada.
Num minuto estou rindo e conversando com ela e feliz por ser seu dia.
Depois eu lembro que tem gente que não tem a sua por perto.
Aí eu choro, desconsolada por não poder consolar.

Mas sempre quieta, sempre escondida.
Porque às vezes amar é muito e demais e pode ser que assuste ou invada.
Invadir é não ter cuidado, e aí amar é veneno.
Não se pode ser veneno sem antídoto.

E mais uma vez eu atropelei um sentimento com outro e mais outro e os versos ficaram mais confusos que a minha cabeça.
Acho que
nesse ponto (como em tantos outros)
A gente combina.

(Oi.)

domingo, 6 de maio de 2012

Tempo e Bailarina indecisos

Eu não sei o que dizer quando minha inspiração falha
É raro, mas às vezes não ficamos na mesma frequência
E eu não sei por que isso acontece
Talvez seja normal e eu só esteja desabituada.
Talvez essa sensação seja na verdade nós dois
confusos e venenosos ao mesmo tempo. Talvez.

Engraçado que a lua ri no céu e no tarô
Ela fez uma volta completa em torno do meu quarto,
mais uma em torno da minha cama
e saiu brilhando arco-íris, deixando um rastro colorido no céu
que depois a envolveu como os anéis de saturno.

Desenhei uma bailarina sob um céu com essa lua
que brinca sobre capim e algumas flores,
como naquele dia que sentamos sozinhos na grama e falei daquela senhora
a mesma do crucifixo dourado
que me protege tanto quanto você.

Chorei sem lágrimas ou gemidos agoniados
fiquei imóvel olhando pro teto esperando a vontade passar
várias vezes no dia essa cena se repetiu
e o céu estava indeciso como eu fui outrora.
Mas se hoje a chuva não vem, amanhã eu choverei.

Da rotação

As horas não passam, quando se espera um amanhã de abraços.
Um fim de semana sozinha, uma cama de solteiro
a janela conta o que a noite reserva pra poesia que está longe.
No sono se tem notícias daquele que se ama.

Um pássaro de papel colorido
picotado nas mãos do amante
o olhar fulmina pessoas odiosas atrás de mim
e embora eu não goste delas, fico com medo.

Perturbação - essa é a palavra! - e desconforto.
Acordo de testa franzida, a janela traz o frio.
Arrepio e fecho o vidro.
Volto a dormir sem sonhar.

As fotos de olhos fechados mostram uma das cenas que mais gosto de ver.
As horas se arrastam, lentas, e o amanhã acena desdenhoso.
Ao sol do meio-dia eu vou sair de casa
pra ir pra casa quando ele se pôr...