sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Atestado de Incapacidade Poética

Minha mãe chega em casa. Ela pega o bebê no colo e parece que todos os problemas do dia dela evanescem nesse simples gesto – mesmo que depois o bebê comece a chorar por um motivo qualquer.

E então eu sei que, meia hora depois, vou ouvir o barulho da caminhonete do meu pai, e ele estará chegando de um dia estressante de trabalho. E mesmo que as coisas estejam ruins em casa e o bebê esteja chorando, eu sei que ele está aliviado por finalmente estar entre estas paredes.

Meu irmão maior vai continuar jogando no computador, minha gatinha preta vai continuar andando por aí até que sinta fome, sono ou até que queira um carinho. Vou oferecer tudo isso a ela e depois vou subir as escadas, com o peso do mundo nas costas, arrastando meus chinelos até o quarto.

Dia desses eu resolvi olhar pela janela. Abri as cortinas verdes de meu quarto e deparei-me com uma lua tão grande e branca que me assustei. Ela parecia gritar pra mim: POR QUE PAROU DE ME OBSERVAR? Minhas cartas de tarô pareciam tremer dentro da caixa, mas não as peguei.

Minha poesia se personificou. Uma bela mulher curvilínea de sorriso misterioso. Um olhar que parecia passível de explodir de raiva se eu dissesse palavra errada. Era volúvel. Era meu lado negro.

“Você me deixou”, acusou ela, chorosa.

“Sim. Deixei.”

Ela pareceu fazer um esforço para controlar o semblante anuviado. Sentou-se na minha cama e ofereceu-me seu colo. Era muito alta e grande, e no entanto era delicada e quente. Seu colo era macio como o de uma mãe ou avó, só que ela era jovem, tão jovem quanto eu.

“Você não pode me ignorar, menininha. Uma hora eu vou sufocar você até que me escreva. Você sabe que não consegue.”

“É, eu sei, mas se eu te escrever, vou me sentir sufocada por memórias.”

A poesia me olhou com compaixão. Piscou, assentiu com a cabeça, e evanesceu. Foi voltar pra sua casa, a lua. Quis evanescer como ela, quis deixar de existir. Quis verdadeiramente morrer.

Ouvi o barulho da caminhonete do meu pai. A realidade me chamou. Desculpe, Poesia, mas eu preciso viver um pouco.

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