sábado, 7 de janeiro de 2012

Visões de Tara

Da lama surgiu um monstro que correu atrás de uma frágil menininha. Embalada pela poesia, porém, ela se libertou.

Da lama surgiu uma lótus. Ela se abriu com Tara dentro dela, dançando sua compaixão para dentro da vida da menina amedrontada, ainda puxando o ar com dificuldade pelo medo que a encobriu como uma deusa maldita, praguejando a lama em seus sapatos de boneca, com a boca de botão em flor se abrindo em palavrões inocentes de não saber o que significa, os cabelos desgrenhados e os olhos lacrimejantes.

A menina parou. De onde tinha vindo a poesia? Tara lhe sorriu. A menina tinha pequenos espelhinhos colados na roupa colorida. Os cabelos, ainda que bagunçados, tinham em si amarradas fitas multicoloridas salpicadas de lama. Escondido num tronco, um duende se ria dessa desordem fascinante, saindo da sombra para observá-la melhor.

Tara voltou pra lótus, serena, calma e clemente, emanando amor. O duende parecia debochar disso, e, no entanto compreendia muito bem – o ar zombeteiro não era intencional. A menina virou-se para ele, pois sentia que era de lá que os versos vinham. Os versos eram ditos e algum lugar da sua cabeça, mas o duende não movia os lábios. Ele os estava colocando lá!

Sem perceber, a menina chegara mais perto. O sorriso do duende parecia mau. Mas ela sabia que não era. “Como se eu já o conhecesse...”

Algo a puxou pra fora d’água. O ar bateu em seus pulmões com força. Tossindo, ela virou na areia da praia vazia. Ou assim ela pensava. Alguém a tinha puxado pra fora do mar revolto e convidativo. Seus pequenos lábios tremiam, roxos, seu corpo estava muito gelado, e o vento açoitava tudo ao redor. Havia árvores e um caminho mais ao longe.

Havia um homem ali. Ele parecia exausto, e suas roupas e cabelos estavam encharcados como ela própria. Ele respirava ofegante – obviamente ele a tinha salvado. Ela o odiou. Odiou-o por tê-la tirado de seu devaneio pré-morte, por não ter deixado o duende falar com ela. E Tara, Tara lhe envolvera tão deliciosamente com seu amor...

Com os cabelos negros espalhados na areia, ela ficou imóvel, desejando morrer. A dor que sentia, a ardência nas mucosas do sistema respiratório eram insuportáveis, e sua alma parecia gritar. Por fim, ela própria gritou.


(Continua?)

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