quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Teatro Madrepérola

Djavan manda lembranças ao poeta reticente.
Que olhos!, guardando em si o que não se pode ver.
Enxergando o que?, se a vista que lhe concede a dama é parcial.
Ainda que isso seja injusto, ela se sente melhor assim;
ou pelo menos por enquanto, ou pelo menos é o que ela acha,
ou pelo menos é como ela fez a vida inteira,
porque acha que ninguém vai agüentar o que nem ela mesma aguenta.

Ela foi caminhando desviando das poças o mais que podia
e no entanto, num ataque de histeria,
começou a pisar nelas espalhando água pelos pés brancos e em volta.
Assim sujos ela pensava melhor na palavra "lama"
que ela nunca compreendera bem nos poemas de seus ídolos,
mas agora tinha certa noção do que significava.

Correu, enquanto se agasalhava em seu casulo de misérias e decepções.
Mas ele não deixou que ela se afastasse muito.
Agarrou-lhe os braços, e disse que ela não poderia se esconder dele por muito tempo
Porque ele não queria feri-la e ela sabia, e ela chorou por dentro,
Porque queria aquilo e queria não aparecer mais por entre cortinas vermelhas de veludo
Queria encerrar as apresentações no seu teatro de madrepérola
Os assentos portentosos ela queimaria todos
E expulsaria quem quisesse continuar vendo-a fingir
(o que faria com que somente uma pessoa lá permanecesse).
As lágrimas rolaram por dentro da pele, e ela, sobrancelhas franzidas,
correu num ritmo em eu ele pudesse acompanhá-la – mas ainda não deixara de correr.

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