quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Divagações

Sentei de frente pro mar num banco na grama. Se é que isso é possível, a grama estava suja de areia. É que os passantes limpavam os pés no verde pra não sujar o carro - e havia muitos passantes ali, que minha reflexão ignorava, ao mesmo tempo em que reparava em todo e qualquer detalhe deles.
Fiz cara de quem precisa de alguma coisa e não sabe o que é. Cara de quem sente falta de algo. Uma cara de quem entende porque não pode ter aquilo que quer mas que acha muito injusto - é normal acharmos que há injustiças sendo cometidas contra a gente -, embora meu lado racional soubesse ser aquilo perfeitamente aceitável e até justo. Mas minhas expressões nunca obedeceram qualquer lógica, elas só são o que são - expressões puras, reflexos instantâneos de meu sentir.
Abri meus olhos como gavetas, deixando que o mundo espiasse ali dentro. Eu esperava que o mundo pudesse ler meus pensamentos nos meus olhos como se eles fossem letreiros, que vissem ali dentro pássaros voando e lobos correndo, neve caindo - ainda que eu nunca tivesse visto esse espetáculo ao vivo - e ventos congelantes, em uma rodoviária, um terminal de ônibus, um lugar bem abandonado num dia nublado como minha cara blasé.
Matei uma abelha num reflexo que me puxou pra realidade, e me desculpei com ela, inutilmente - eu não queria matá-la, como quando damos um peteleco num inseto pra que elevá pra longe e no entanto a força mal calculada acaba matando-o, eu vi a abelhinha esmagada e me senti cruel, humana, nojenta. A abelha não me provocava asco.
Olhei pro mar, com seus banhistas, barcos turísticos, vi as crianças correndo à beira d'água, duplas jogando frescobol (odiava aquelas duplas!), senhoras exibindo corpos flácidos sem sequer se importar (afinal o que mais lhe restava?, passaram provavelmente a vida inteira se importando em ter o corpo perfeito e agora agradeciam por estarem vivas, a grande ironia da indústria da beleza, por fim derrotada na vida de cada mulher que no fim da vida resolve andar na praia ao lado de um marido barrigudo), e mães preocupadas dizendo pra que "filho, volte, aí é muito fundo, MARCELO VOCÊ VAI DEIXAR SEU FILHO SE AFOGAR?".
Sorri. O mar sorriu também, apesar de mudo, e os barcos deslizavam, os morros guardavam histórias de pedras e cavernas que serviam de abrigo pra bruxas de nomes exóticos, e eu ali sentada, só observando, observando, observando, a minha vida passando lentamente por segundos slow motion pra que depois eu sentisse que tudo tinha passado rápido demais. É a vida, dizem. É a vida.

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