quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Cegueira Vermelha

Enfiou-lhe uma vela para cada órbita dos olhos azuis do rosto que coroava aquele corpo magnífico, agora caído no chão. Chutou a cabeça que berrava de dor, e riu, quando percebeu que podia matá-lo, ali, indefeso. Mas não o fez.
De repente os gritos lhe pareceram insuportáveis, e só saiu correndo, deixando seu cheiro florido atrás de si na caverna maldita.
A idéia das velas ocorrera-lhe vinda de um livro, agora ela lembrava. Queria ver como era, se a coisa lhe pareceria tão poética quanto parecera nas páginas amareladas do velho livro que leu e releu tantas vezes, em tardes quentes ou frias, tanto fazia, era uma coisa a se tentar. E tentou. E a coisa pareceu-lhe muito melhor na vida real porque era de verdade e era ela e era ele.
Quando caiu em si, estava correndo há horas. Estava numa praia deserta de ventania, a areia lhe vinha aos olhos como que para beijar-lhe as pálpebras, mas de repente o vento ficou muito forte, e a areia a machucava. Abaixou-se no chão até sentar-se, e a ventaria de pronto parou. Foi aí que ela finalmente olhou pro mar. E ele parecia tão perfeito, esse mar, e ela pensou como era possível que aquela superfície uniforme guardasse tantos mistérios e espécies e embarcações, como aquele mar parecia gritar lá nas profundezas as histórias de piratas, viagens, pescadores. E no entanto, essas histórias estavam no fundo, e como uma pessoa que grita debaixo d'água, o mar era mudo. O mais que podia fazer era rugir com suas ondas. O mar rugia sua dor de ter visto tanto.
De repente o mar parecia a metáfora perfeita para seus olhos e para os olhos do rapaz. Talvez agora que ele era cego não pudesse mais ver a dor. Então ela voltou até a caverna, onde ele permanecia imóvel, desacordado, e arrancou os próprios olhos, em frente ao altar que fizera. Tateou o chão em busca do corpo inerte do homem, deitando-se ao seu lado. Ela sentiu que com seus movimentos ele acordava e tratou de sussurrar-lhe: "Calma, eu também não posso mais enxergar."

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