domingo, 18 de novembro de 2012

De mundos, de outrora e de amanhã.

Pedidos em meio a músicas
que nunca havia escutado
não com os ouvidos dessa existência.
Aceito, como já aceitara antes,
e te preparo presentes.

Hoje o dia amanheceu cabisbaixo.
Seu cabelo, geralmente azul, acordou branco.
No topo da cabeça do mundo, o céu,
havia nuvens grisalhas.

Uma tremedeira tomou as árvores-mãos, de leve.
Nada suficiente pra levar vagas tristezas fantasmagóricas embora
Mas se criarmos um paraíso de grama, veja bem, meu amor
tudo de desfaz na nossa dança tímida.

O hospício pegou fogo, nós saímos dele.
Estamos rodando o mundo sem sair do lugar (por enquanto).
As poesias fazem e fizeram sentido
continuarão fazendo, porque é assim nosso mundo.

Tempos atrás, passava esses dias muito mais triste.
Hoje sei que te vejo amanhã.
Na época nem sabia se ia voltar a te ver de novo.
Alegra-me saber que passamos da linha,
e que posso brindar loucura, amor e infância do teu lado.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Chegada

O ônibus parecia que ia entrar em si mesmo
ia andando e parecia que se esticava
como borracha derretida
açúcar derretido formando um doce novo.

Parecia que a frente dele
retornava a si, num vórtice,
e os passageiros iam derretendo e acompanhando
o ônibus que eternamente entrava em si mesmo.

Era como eu, quando mergulho em mim mesma
na hora da tristeza.
Tudo é lágrima, de folha caindo
aos livros que eu leio desesperadamente por não querer.

Meus olhos se juntam ao horizonte.
Eles saem das minhas órbitas, fico cega, não importa.
Meus olhos são o céu.
Estrelas derretem na minha cara, e ficam lá, no lugar dos globos gelatinosos.

Sorrio. As estrelas, ainda líquidas, na minha face rosada
se moldam no sorriso e ficam pequenas.
Você acompanha tudo
já meio perdido, de procurar sentido nas mutações do meu olhar.

Nuvens. Elas tocam minha pele, são úmidas e geladas.
É como vento na janela do automóvel
quando coloco o rosto na janela e no vento que racha a pele
é como me sinto, como se estivesse livre.

As músicas se somam nos ouvidos e viram uma só.
Nos fones - há fones? - eu confundo todas mas ao mesmo tempo sei bem a melodia.
E elas todas traduzem eu e você - que é só o que existe.
Só conheci o céu porque existiu poesia.

Virei na areia do por-do-sol e você estava atrás de mim.
Sorria, porque só me via.
E eu chorei, de felicidade, como choro agora, escrevendo isso.
Porque você sabia que eu viria.

sábado, 13 de outubro de 2012

Manifestos de Menina #11

Eu vi um corpo morto na estrada.
Não era corpo de gente, era corpo de bicho.
Havia um cachorro morto na rua.
Ele me pareceu tão idiota,
ali ignorado por todos os carros.

Alguns até mesmo chegavam a passar por cima de seu cadáver esmigalhado
alguns miolos estavam espalhados pela pistas
comprimidos contra ela
tingindo tudo de uma cor que é indefinível.
Aquela cor de órgãos grudados na pista, que não é nem vermelho, nem cinza, nem rosa
e que é todas essas cores ao mesmo tempo.

O corpo morto parecia imbecil.
Não por ser um cachorro (ou por um dia ter sido um cachorro)
mas pela morte que teve.
Acabou de um jeito tosco, sujo e rápido demais.
Grande bosta morrer debaixo das ferragens.

Depois, eu me senti tão morta quanto ele.
Porque me vi cercada de culpas e obrigações,
e de comparações que existem só na minha cabeça.
Senti meu corpo queimando, uma queimadura de ácido,
na boca do estômago e depois se alastrou por tudo.

"Nós vamos ser aqui a platéia do mundo
e vocês vão rir de nós, achando que estamos num palco underground.
Porque vocês estão nesse mundo louco
nesse sistema que tira os sonhos das pessoas."

O falso louco ria, e achava que transgredia.
Fiou um manto de letargia, e depois de uma hora e meia, olhou o relógio:
- Caralho! - era hora de ir embora.
É, louco, parece que o sistema o engoliu
e você não vive mais num sonho.

Enquanto eu vivo a minha vida como se fosse um livro
cheia de personagens imaginários, e pensando
"Quem esteve aqui nesse lugar antes de mim?"
Eu odeio todos vocês quando falam idiotices achando que vivem mais plenamente que os outros.

Minhas palavras são a morte.
Minha morte será uma palavra.
No fim de tudo só uma pedra e umas cinzas
ou fungos e vermes, eu podre debaixo da terra.
E deus me livre que seja por causa de um carro.

Escrevi deus e não creio em religião.
Creio que sejam todos os males do mundo
nenhuma presta, todas são sujas, cuspo em todas.
É mentira, eu as respeito, e não tenho o hábito de cuspir porque assim minha vó me ensinou.

Morte, volto pra ela o tempo todo.
Creio que seja a obsessão do homem, esse tal de fim
que provavelmente é o que é, por mais que eu creia em recomeço.
Vamos te enforcar com suas próprias veias, nao é maravilhoso?
Me dê aqui seu braço, está na hora da convulsão.
Prefere choque químico ou uma carga alternada passando pelo seu cérebro.
Podemos te induzir ao coma.

Veja como somos legais, estamos te dando as opções!
Nós só não admitimos suicídio. Isso é algo que não poderemos admitir
sob hipótese alguma.
E se você tentar, vamos te salvar, porque só se pode morrer aqui se for pela mão de outrem.

Minhas palavras são a morte, e minha morte vai ser por palavras.
Mas as minhas palavras são como a morte do cachorro:
rápidas e imbecis, instantâneas e evanescentes.
A morte se vai, procurando outros corpos de que possa se apoderar.

Mas quem vê aquela morte e a ela é sensível, sente-lhe o espírito e dele sente-se habitado.
Eis que a morte e a palavra passam a remoer meu estômago.
Eis que o espírito por ela - a palavra minha - tocado apodrece.
Tudo num átimo.



- Fazia tempo que a menina Revolta não se manifestava...

domingo, 23 de setembro de 2012

Te dou Selany como amuleto

O poeta treme
e é normal que ele, menino que não quer crescer
tema
porque meninos sentem medo.

Como se houvesse algum Dragão debaixo da cama, ele se encolhe,
gritando ao mundo que é São Jorge,
com a espada de madeira a transformar-se no melhor aço,
ele toma coragem, infla o peito.

Ataca as Melancolias e espanca a Agonia.
Só que a Agonia é como um espelho,
e o menino fica com cortes nas mãos.

O sangue goteja, e o Dragão fareja.
E todos os sonhos bons e as cores derretem
e ficam cinza, como o céu dos dias de preguiça.
O peso do metal que lhe veste tira a vontade.
O menino já não tem tanta certeza se quer usar armadura.

Aparece, pois, a Musa.
Que não é fria aos versos, e os escreve de volta.
Com as cores do céu-da-noite, branco e azul brilhantes,
eis que ela sorri, para que o menino não tenha medo.
E eis que o menino se lembra de ser poeta.

Sorrindo, a Musa se aproxima do menino.
Com lágrimas nos olhos e poemas nas mãos,
faz com que o Dragão se aquiete.
O monstro volta para debaixo da cama,
onde deita-se a mulher - agora nua.

O menino volta a ser O Poeta.
A Musa fala pra ele, já despido de armadura:
- Ao Poeta eu ofereço
a proteção da Deusa da Lua.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Bem me leve

Ora, ora, o poeta também teme!
Eis que eu cavalgo nos sonhos -
porque deus me livre um bicho daquele tamanho! -
e com um manto de terror te cubro.
Trancei num tear desejo, medo e paixão.

Nossos temores que se entrelaçam e nos protegem
e eis que surge o tal do amor.
Ele se aconchega sobre os lençóis
como saliva produzida por boca ávida.
Eis aqui, senhores, sabores doces.

Crio imagens na minha cabeça
pra esse poema foram mil.
Queria tatuar tudo o que és pra mim,
um desenho completo, complexo,
algo como traços de criança e ares de mulher.

As longas faixas de areia das praias que fomos e que iremos;
as longas faixas de poeira de estrelas,
e eis que surge o futuro com tanta luz que não se pode vê-lo.
As vozes todas ouvidas e as solidões, esquecidas.
Ainda que haja medo ainda.

São anéis nos dedos,
cristais e relicários nos pescoços
e versos demais pra se deixar levar
por outra coisa que não seja esse poema
e as marcas das nossas peles.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Gotas d'eu

Que fazer com esses escritos
senão te amar mais a cada um deles?
A cada verso de prender respiração
como carinhos na nuca.

Nunca.
É uma palavra feia.
A não ser que seja nunca de nunca-abandonar.
Deixar de lado é feio e não combina com a gente.

Penso nas nossas loucuras.
Na nossa companheira violenta e dissimulada.
Ela surge por trás de nossos ombros vez ou outra
lembrando "eu ainda estou aqui."

Cheirando a sangue, ela, se esvai.
Destrutivos, um mais que o outro,
e ainda não sei dizer qual,
construímos uma abóbada nebulosa de sonhos.

Ouço ecos de coisas que gostaria de ver
desfiadas por ti em longas conversas sobre passinhos e pianos,
caídas da tua boca que tanto amo e me deixando torta
de tanto derreter por aí afora
em tantos lugares-comuns em que nos encontramos outrora
e que agora são lugares-em-comum.

Tem pedacinhos de mim espalhados
por todos esses espaços
gotinhas de mim que evaporam na luz da lua
e que formam as visões que tens ao adormecer...


domingo, 19 de agosto de 2012

O Anel

A noite se fez quente, e logo começou a se esvair.
Em cantos de passarinhos que nos queriam ver correr para casa
pra nos proteger da luz do sol que ameaçava já nos banhar.
Caminhávamos enfim na rua esgotados e felizes de tanta gente.
Minha mão direita pesava com um fino anel de lata.
A imitação de alguma pedra alaranjada parecia ofuscar-me os olhos
enquanto ao meu lado recitavas um poema que lhe vinha cabeça
criando ali mesmo na calçada uma ode ao nosso amor
enquanto caminhávamos sobre o cimento frio.
Os versos ecoavam as promessas da noite
sussurradas ao pé do ouvido enquanto toda a gente passava e olhava.
Fumaça de cigarros, gelo pra esfriar a cerveja.
Quantas pessoas sujas de pó de fadas, brilhando e rindo neste lugar!
Observando o anel que conseguiste
um prêmio alcoólico da noite a mais para seu corpo ébrio
e seus braços me puxam pra fora, e ali, nos degraus da porta dos fundos
só falta o último passo.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Gosto em te cuidar

Por mim eu iria praí.
Por mim eu nem teria ido embora
Lavava tua louça
te fazia sopa
e trocava tua lâmpada.

Cuidaria dos teus machucados
fazia curativo mesmo com tua cara amarrada
e limpava o vidro da janela do quarto
(pelo amor de deus).

E se, de madrugada, tu levantasse
depois de um sonho embaralhado
eu te punha no colo e tu dormia
só pra eu ficar te olhando.


sábado, 28 de julho de 2012

Filhos de Vênus


Ela faz sexo com as notas.
O som da guitarra é o movimento do quadril.
O osso que solta, que desloca (ou parece deslocar)
O corpo que serpenteia
Que se vira – de frente, de costas de lado e de costas novamente -,
Que se move
Que fica estático num átimo.
O ar parece tocá-la
Sente-o de fato
Como coisa física
Como se o ar fosse mão que acaricia.
Morre.
Para o mundo, está morta.
As palavras que chegam ao ouvido
Não chegam ao entendimento.
E as que lhe vêm da garganta
Atropelam-se em algum ponto da língua
Sem chegar à ponta
Sem escapar pelos lábios.
Está sentada à mesa
Mas segurando a borda do tampo
Com força
Para sentir o mundo à sua volta
A textura da madeira de alguma forma traz senso de realidade.
Segura-se na mesa para não gemer alto
Na sala de jantar.
Ela está cortando um pedaço de massa
(Ela está arranhando a pele dele)
Ela está falando sobre Chico Buarque
(Ela está se retorcendo até a tortura)
Ela está rindo de uma piada interna
(Ela está gozando.)
A sala inteira se desintegrou
“Desde que estou te amando”.
Mais uma explosão.
Alguém continua falando do Chico.
Gemidos.
Não, não ainda.
Segure-se, espere por ele.
E então, novamente, o ar lhe toca a pele
As pernas.
(E) entre elas.
Um telefone toca, ela atende.
Ela não sabe o que acabou de dizer
O ar e o som dos carros
Fazem pressão em volta dela
Toda a atmosfera parece se comprimir no quarto.
Pela janela entram todas as boas sensações do mundo.
Ela parece desesperada;
Ela está desesperada.
Lágrimas escorrem, por debaixo da pele.
Ele está mesmo lá!
- Ele está mesmo aqui!
Comigo.
Tudo parece sumir.
Deixar de existir.
Deixo de existir.
Ela sou eu.
Ele sou eu.
Ela observa o amante.
Observa a conjunção de quadris –
seu confronto e união –
por cima do ombro dele.
Rabisca uma linha ondulada
Na folha onde escreve
Porque não consegue pensar em nada que descreva o resto.
O resto são os olhos dele.
O resto são as palavras que destes olhos brotam
Aquelas que ele escreve
E mesmo as que ele não escreve
Aquelas que ficam nas entrelinhas e as que ele grita
Ou sussurra
As palavras todas que se despejam sobre ela.
Elas explodem sobre ela
E depois escorrem sobre seu rosto
Lânguidas, mas intensas.
Meu deus, eu vou morrer.
Por que não somos um?
Por que não posso me fundir com ele mais literalmente?
Assim mais...
De novo a linha do não saber descrever.
Os olhos.
Permanecem olhando-a.
Os olhos.
Concentre-se nos olhos.
Eles te amam tanto
Eles são tão brilhantes
Eles te idolatram
Mas não só eles.
As mãos e toda a extensão de sua pele.
A voz dele te ama, e os ouvidos dele também.
Mas os olhos, ah, os olhos...
Parecem lacrimejar.
O corpo dele chora.
Os lençóis ficam úmidos
De suor
Dele
Dela
Suores
Soam gritos – dela – agudos, trágicos.
O teto parece descer e depois ascender subitamente.
E então ele esconde o rosto no pescoço dela.
Como pode ainda estar viva?
Urgência.
Quase como fosse desespero.
E então o mundo acaba
Quando ele desaba sobre ela.
As pernas não se movimentam
Tampouco a boca
Que não fala nem beija
Que não lambe nem morde
Só se abre para puxar o ar.
Os olhos viram e procuram algo para focar
Debilmente e em vão.
Só mostram “prazer” e “eu te amo”.
“Eu te amo” é o mantra
Que no ar dentro do quarto ressoa,
Em silêncio.

sábado, 21 de julho de 2012

Janela

Dia claro põe o sol em cima d'água
joga sobre ela os raios suaves do sol da manhãzinha.
Devagar, a água, como janela,
iluminará o quarto.
A superfície da cama banhada em calor
transparente, brilhando com a luz 
onde pousam dois corpos, nus,
e a leve brisa que passa pela água
levanta os pelos da superfície branca e macia que jaz sobre os lençóis.
Ele acorda primeiro, embora,
no meio da noite,
várias vezes ela tenha acordado para observá-lo dormir
(no sono, as expressões dele somem
mas vez ou outra, um sorriso se esboça em seus lábios,
tênue, como nuvens reviradas pelo vento num céu de sol-se-por).
Quando acorda, observa-a.
E vê os olhos grandes repousando,
os cílios curtos com resquícios de maquiagem,
a cara de criança, os traços abobalhados do sono.
Como se parte de sua consciência sentisse o olhar nela pairando
mais o seu corpo que sente os raios do sol passando pela janela.
Ela sonhara que o vidro era água.
Acordou com ele observando
e instantaneamente sorriu a maior felicidade de sua vida.
O coração falhou como caixinha de música que precisasse de corda,
mas logo voltou a tocar sua música rápida e aguda.
Olhou pra ele de volta, com o mesmo olhar estupidamente apaixonado
e pareceram, por segundos, irmãos
(na verdade, sentia que já o tinham sido).
Vestiu a ambos com o cobertor
e ali, sob o sol que espiava pela janela,
abraçou-o como se ele pudesse lhe escapar, como água nas mãos em concha.
Com os olhos fechados, inspirou o ar sobre a pele do pescoço dele.
Abriu novamente as pestanas e, para seu alívio, ele ainda estava lá,
lindo.




- Eu planejava escrever sobre um gigante e uma montanha, mas olhe que rumo tomei...



terça-feira, 17 de julho de 2012

Pequenas considerações sobre como lidar com a nostalgia alheia

Quando a nostalgia chega, é melhor não interferir. Quando se puxa o fio da nostalgia, sabe-se, daqui a pouco o novelo dará em más lembranças - ou, às vezes, elas nem são más, mas dolorosas de certa forma. Ou lembram coisas que infelizmente vão embora, é a vida.
Quando a memória resolve se abrir, é melhor ficar longe, deixar que tudo se resolva em si mesmo. Nenhuma palavra ajuda nessas horas, ao contrário, palavras só atrapalham.
Só a segurança de um "eu te amo", como se fosse o cheiro de maçã e canela num forno, numa torta, enchendo o espaço de um xalé de madeira ou casa na árvore é o que pode ser feito. Um lugar pra onde se pode voltar, ainda que de vez em quando ele possa ser irrisível ou mesmo sufocante.
Paira no ar esse amor como uma promessa - ainda que promessas sejam, ao meu ver, perigosas - de felicidade. Pode-se chorar, odiar as circunstâncias, odiar uma ou outra pessoa. Podem os maus fazerem de tudo e tentar destruir pequenas alegrias que se acumulam e viram risco aos olhos de quem mal tem uma vida própria. Por mais imbecilidades que os outros façam, dentro desse lugar, lugar de sonho e de algo mais, nada pode ser mau.
 Uma hora, a memória se recolhe. Ela não vai embora, não, ela faz parte de uma pessoa. Mas, assim como ela se expandiu minutos ou horas atrás, no fim ela se recolhe em si mesma, e então a pessoa pode abrir os olhos e voltar ao mundo.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Não me lembre

Minha única certeza é a de que vou morrer.
Por esta hora me parece que poderia ser agora
ou em breve.
Em breve do verbo "nos próximos minutos".

Minha vida banal é tão incerta quanto eu mesma.
Minha estabilidade se foi há muito tempo - a pouca que eu tinha.
Chamas de vela, chamas em casas, sonhos estranhos
Qual é o meu problema?

Por que eu não posso simplesmente ignorar?
"Entregue e confie" disse ela uma vez,
a menina que me ampara.
Toda confiança se esfarela e eu ignoro os outros.

Hora de se fechar em si.
Quando as pessoas pararem de insistir
em lembrar a mim mesma
o que eu trago no fundo mais rejeitado da minha mente
eu vou parar de escrever coisas assim.

domingo, 1 de julho de 2012

Do pegar no sono

Quando botei a cabeça no travesseiro hoje
quase de manhãzinha
atordoada ainda pelos sons
de música eletrônica e banal
os sons da festa fazendo meus ouvidos zunirem
no silêncio escuro e quente do quarto.
A única coisa que me vinha à cabeça
era teu rosto.
Eu fechava os olhos, e lá estava você.
Abria, olhava pro lado
pros meus livros
pros meus desenhos
pro mural com fotos.
Mas quando fechava os olhos de novo,
teu rosto estava lá.
Comecei então a piscar
muito rápido
diversas vezes
e na fração de segundos em que meus olhos fechavam
teus olhos
teus traços
(teu nariz e tua sobrancelha,
tua testa com suas veias, tua boca amada)
estava tudo lá!,
piscando,
me deixando louca.
Resolvi então ficar de olhos fechados
na ilusão da tua companhia.
E acabei sonhando.

- Pra quem não sonhava...

Devaneios

Um daqueles dias abafados em que o tédio se apodera do organismo. Por mais que você faça coisas, 
dormir parece a única saída, mas quando você acorda, está pior do que quando colocou a cabeça sobre o travesseiro. 
Você sonhou com olhares de ódio que têm te perseguido. Você tem muita pena desse olhar e acorda angustiado. É triste ver que alguém não tem a menor intenção de sequer te cumprimentar porque quer te ver explodir e de repente ela está beijando o teu rosto porque, do contrário, seria considerada mal educada. 
É o tipo de coisa que me deprime. Essas banalidades todas, esses dias nada excepcionais, essas coisas que poderiam ser evitadas - não no sentido de serem ignoradas, mas no sentido de não precisarem existir mesmo. Eu fico muito deprimida quando me dou conta disso.
Meu estômago vai derreter, estou sentindo como se tivessem cimentado minhas têmporas. Minha cabeça vai pender a qualquer momento para o lado esquerdo e sair rolando pelo chão. Queria sonhar com meu quarto imerso em sangue. 

sábado, 30 de junho de 2012

Ponto de Partida

Pra que estragar o meu dia?
Ela vem falar de coisas banais.
Quando é que ela vai perceber que eu não faço por mal?
Quando é que meu jeito de pensar vai ficar claro na cabeça dela,
ainda que não possa fazer sentido em sua mente pobre?

Este poema é pra ofendê-la.
Embora eu não ache que ela vá ler,
embora eu ache que ela
não consegue verdadeiramente achar isso tudo bonito,
isso de eu gostar de versos, de escrevê-los.

Isso de eu gostar de desenhar
ou de cantar.
Ela não compreende, só gosta de mostrar pros outros.
Os outros.
Elas gosta de ajudá-los.

Passo anos precisando disso e estou aqui dentro.
Ela nunca vai me ajudar.
Ela só vai apontar.
Mas eu não vou me corrigir.
Agradeço por existir.

Mas minha origem não é,
absolutamente,
o que me faz feliz.
Por ela eu era comum.

A maior infelicidade dela
é que eu não sou.
E se pra ela eu poder viver um pouco,
viver o que eu não vivi por anos, me sentindo um lixo,
é o que ela pode chamar de vadia, bem,
acho que sou mesmo uma "dessas meninas aí".
Sinto muito.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Risco

Durante alguns minutos
volto a me sentir insegura.
Queria muito você no meu quarto onde eu não ouço nada.
Tem só um zunido na minha cabeça
Que me é familiar
Fazia tanto tempo que eu não me sentia assim
É ruim. A não ser pelo amor, é ruim.
Só que aí, tu vem.
Com palavras que eu nunca imaginei ler.
Se eu um dia pensei em ler,
certamente nunca pensei em ouvir.
Eu viro um clichê gigante e meloso.
Eu ouço as músicas e todas lembram você.
Barulho de trânsito caótico saindo das minhas orelhas.
Vem da minha cabeça, está só na minha cabeça...
Minha cabeça. Minha mente.
É minha mente que me persegue.
Quebro as unhas usando a faca,
quebro as unhas arranhando.
Quebro as unhas de raiva
quebro as unhas de...

Grito.
No quarto, o silêncio continua.
Na minha mente, continua o caos e o sangue e o desejo de ir pra lua -
de ir pra rua.
Não caibo em mim
Inquieta o suficiente para não saber o que fazer.
Inquieta o suficiente pra querer morrer;
mas só por um segundo.

Estática.
Olho pras cartas e não quero saber delas.
Da última vez que as li, elas só refletiram meu desespero.
Não quero saber do futuro.
Quero que ele aconteça.
Quero que as coisas venham,
e que vão, também.
Quero poder sentir as coisas mudando
evoluindo, revolucionando,
retrocedendo e surgindo, completamente surpreendentes.
Quero só ir sentindo.
Só pra ver o que acontece.
Botar a mão no fogo não dói.

sábado, 23 de junho de 2012

Sangue, sal e fome

Em meio a sons de carros e o vento nas árvores
perdidos em meio a lençóis brancos
em meio a palavras veladas e outras nem tanto.
Você sente, meu amor, os elos todos que nos unem?
Você os sentiu quando eu
cheguei perto de você a primeira vez,
como se fossem mágica ou maldição?

Eu senti teus olhos,
traço mentalmente teu desenho
dou milhões de traços equanto não atinjo minha meta
riscar no papel tudo que vejo em ti
em nós
no mundo que você despejou em meus olhos
Como uma caixa de Pandora
a esperança vale todos os horrores
Isso sem falar no amor.

As estrelas tímidas ficam mudas em meio às lágrimas.
Nós desfiamos nossas veias aos poucos
Músculo se desmanchando como se estivesse cozinhando,
Carne como que estivesse derretendo.
Em meio a contos macabros nós sentimos fome.

E quando suas costas ardem
e minhas unhas lascam porque minha força é grande,
e quando minha voz se exalta e nenhum verso nos traduz,
Somos a felicidade que nenhuma taça jamais conseguiu brindar.
Somos a parte do amor que nenhuma canção conseguiu cantar.



sábado, 16 de junho de 2012

Alice e as águas.

"E eu fique tão grande
E mastiguei meu coração." 

 Piscar o Olho, Tiê. 

Cresci demais.
Como uma Alice que se dá conta do quanto está grande,
e de que não consegue se mexer dentro desse espaço
E de repente chora lágrimas gigantes
E quando volta ao tamanho normal,
ela se afoga no seu próprio mar.

Essa sou eu, hoje.
Essa sou eu, sempre.
Todos os pássaros que ficam aqui comigo,
impossibilitados de voar porque estão encharcados,
parecem me olhar com reprovação, mas eu não ligo.
Escrevi certa vez que ia parar de ouvi-los.

Escrevi certa vez também sobre cordões
E eu disse, eu disse que não era o fim, mas um fim.
Ninguém me ouve, e no final eu estou (quase) sempre certa.
(E talvez isso te traga um sorriso irônico aos lábios.
Eu gostaria que você me confirmasse, nesse caso.)
Me dou o benefício da dúvida, sempre me dei.
E é isso, dentre outras coisas, que define quem sou.

Quando eu falei de bonecas e rostos frágeis
a metáfora era bem forte.
Não estava sendo leviana e nem brincando de ser coitada.
Eu estava admitindo e abrindo as veias.
E eu ainda penso assim, embora me pareça injusto.
Injusto eu dizer essas coisas,
injusto eu me sentir assim.

Está fora dos direitos de Alice
afogar qualquer um que não seja ela mesma.
Alice só pode nadar pra longe,
ou se afogar - Alice não sabe nadar.
O vestidinho amarelo com a larga faixa azul fica pesado.
As tiras que amarram o avental apertam em volta do pescoço.
Sem protesto, ela vai chegando ao fundo.

Lá ela fica, quieta,
esperando o pulmão parar de funcionar.
Daqui a alguns anos, seu cadáver permanecerá congelado nesse mar tão fundo.
O corpo de uma menina que não se sentia no direito de dizer nada,
que trancava tudo numa caixa e que, no fim,
virou fantasma.






  A água é um elemento muito perigoso.

terça-feira, 12 de junho de 2012

A prisão de Choro

Alguns lugares são de chorar.
Às vezes é a hora.
E em alguns tempos as lágrimas acertam tempo e lugar.

Essa santa trindade chama-se Choro.
Ela abençoa nas horas mais desesperadas
mas também nas mais bonitas.

(E às vezes, as horas mais desesperadas são as mais bonitas,
como quando aquele dia em que eu senti tua tristeza e corri pro teu abraço
desesperada, coração batendo
da mesma forma que ele bate quando eu, desesperada, cravo minhas unhas nas tuas costas.)

Suspirei o meu Choro e chamei-o sinfonia.
Toquei sua melodia dentro de meu cérebro e deixei-a fluir
lá dentro, escondida.

Fora, o vácuo.
Choro sentiu-se sufocado.
Sufoquei-o mais.

Tomo banhos desse Choro quando estou perto de casa.
Quando estou nela.
E então Choro corre solto, como menino perto do rio.

Fácil deixá-lo ir, livre.
Dói prendê-lo.
Porque quando eu o prendo é quando estou presa.

Casa-de-pessoa

Existe um lugar acima daquela costa
dizem que chama-se "casa".
Dizem até que é um lugar onde se sente bem;
onde se tem a liberdade de ser quem você é
porque é seu lar, é o lugar onde você pertence.
Mas pra mim a Casa não é um lugar.
Pra mim a casa é uma pessoa.

domingo, 10 de junho de 2012

Abandono

O homem que dá susto nas crianças do Trem Fantasma está na banca de jornal comprando cigarros. O medo sendo casual, o terror provando que é parte da banalidade. A noite é fria no parque de diversões que quase não é mais frequentado - apenas por alguns adolescentes que vão pra lá fumar, beber, e, com sorte, transar com as namoradas. O homem joga as cinzas no chão da rua suja.



(Continua.)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Casamento Celeste

O céu tomou o gosto pelo cinza ontem e se vestiu de nuvens escuras. Ao contrário do que as pessoas pensam, ele não estava de cara amarrada. Ela, na verdade. O céu é uma mulher - uma mulher que chove ou fica ensolarada.
Céu choveu porque estava se sentindo livre. Sentia-se como uma menina de cabelos soltos andando de bicicleta à beira-mar, com fitinhas no guidão amarradas (mas não o coração florido).
Chupou uma bala de hortelã e carinho, guardou o papelzinho no bolso e enviou um ou outro raio pra assustar gente humana. Riu-se das crianças que se esconderam debaixo dos seus cobertores, uma gargalhada pura e leve, solta. Céu não sabia se era menina ou mulher ainda, por isso aquelas crises de identidade a deixavam raivosa.
De repente Céu cansou de chover e se aquietou. Como guardasse a bicicleta, foi se deitar e escureceu. As crianças continuaram com medo debaixo de seus cobertores, mas Céu não percebeu. Tinha um drama maior. Céu não sabia se queria casar com a Lua ou com o Sol.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

E eu que achava que ia ter tempo pra tudo...

Agora que falei da história
e do que me deixa infeliz
pretendo vazar as cores
do que mais amo e quero perto.

Queria ter todos os meus amigos perto hoje.
Aqueles que realmente fazem bem.
Eles são legais e são inteligentes
mas melhor que isso, não disputam entre si.

Queria a risada das minhas meninas
queria um cachorrinho branco correndo às voltas com todos nós.
Queria uma cerveja e um amigo barbudo
aquele que leu todas as minhas provas e riu de muito do que falo.

Queria que os fins de semana fosse mais repletos dessa gente leve.
Queria sorver o céu azul e transformar em sorvete
(Não aquele que o Anselmo gosta que tem gosto de indústria,
mas o verdadeiro sabor do Céu Azul).

Queria os confeitos de chocolate e as casquinhas e os jogos de cartas.
Queria transitar de restaurante em restaurante
passar pela igreja e rir no parquinho
parar sentada na praia e rir de qualquer bobagem cibernética.

Queria muito aproveitar essas coisas
queria que essa gente nunca crescesse. Eles já cresceram o suficiente.
Queria eu poder parar de crescer. Estou ficando chata e ainda sou tão nova.
Mas dizem por aí que a gente é assim mesmo...

O Lugar onde tenho que conviver com as pessoas que mais odeio.

Estou me imaginando olhando pro mar.
Eu sempre falo dele embora morra de medo de me afogar.
Acho que o medo acaba nos atraindo.
Mas só um pouco.

Eu queria não ter medo de deixar fluírem as palavras da minha boca.
Quando elas saem dos dedos é tão mais fácil
Elas não machucam assim.
Quando eu falo elas cortam minha garganta.

Por que eu não consigo parar de chorar?
Está tudo bem, não está? Está?
O que está acontecendo com as plantas ao meu redor?
Elas não deveriam murchar se não estou no mundo.

Sinto como se os portais pras outras dimensões estivessem fechados.
Como se minha comunicação estivesse bloqueada.
E não consigo trazer palavras à forma de poesia.
E não consigo transmutar o que eu sinto em beleza.

Grande bosta essa vida de pretensiosa aspirante a poetisa.
Tanta gente passando por aí e comendo e indo pro trabalho
se parassem pra me ler iam dizer "ok, vai fazer algo da vida".
Talvez eu devesse mesmo, mas eu não sei o que.

Aí você vem e me diz "você já deveria estar com postura de historiador."
Oh, senhorita, desculpe, mas ser uma arrogante qualquer numa mesa de bar?
Ficar por aí estragando prazeres e discutindo filmes como se eles tivessem que ser documentários.
Que tipo de pessoa não consegue se desligar do que estuda por nem um segundo?

Aí você pode me dizer que isso é coisa de todo mundo das humanas.
Aí você pode me dizer que isso não é ruim.
Não é ruim se você ficar vivendo no mesmo mundinho.
A vida não é nenhum cabaré, como diria Amanda. Mas também não é um discurso acadêmico.

Então eu viro e explodo tudo isso.
Livros e mais livros destruídos e eu não me importo.
Eu acordo mais tarde do que deveria e tenho que correr.
Não posso chegar tarde no lugar que está me deixando infeliz.
Não posso chegar atrasada no lugar onde tenho que conviver com as pessoas que mais odeio.

Mas eu não sou louca e nem desleixada
Eu não odeio a história
Eu só acho que não sou
uma historiadora.

Dia de merda

Ando sumida.
Quis sumir da vida.
Tantas letras pra ler, tantas imagens pra ver
tantas que ficam revisitando a memória.

Acordei de um sonho ruim e me senti vazia.
Andei de um ladro pro outro do quarto
e quando abri a cortina
o céu não me trouxe resposta e não me tranquilizou.

Eu poderia fazer um casulo pra mim
e eu poderia não querer dinheiro.
Eu poderia não precisar de coisas tão humanas e estúpidas.
Mas eu sou humana. Hoje, não há poesia nisso.

As fumaças todas impregnaram-se no meu cabelo.
Ele ficou cinza e quando me olhei no espelho
eu vi uma velha amargurada.
Será que vou ser assim quando envelhecer?

De repente tive medo de morrer.
De repente eu pensei como é fácil perder a vida.
Desculpem se pareço frustrada
Desculpem se isso não é bonito.

Não vi borboletas, não reparei nas árvores.
Não senti nada hoje. No alarms and no surprises.
Triste não ter nada pra alegrar verdadeiramente o espírito.
Triste que eu tenha que ficar em suspenso.

- O pior de tudo é quando vem a raiva...

terça-feira, 22 de maio de 2012

Ser vivo (clichê cotidiano)

Algumas pessoas passam pela calçada como pétalas caídas
de uma flor que outrora foi alegre.
Como pode o milagre da vida passar despercebido em si mesmo nos corações de tanta gente?
Como pode alguém querer ser componente de uma massa que só existe?,
que balança na colina conforme fazem os outros, como o faz o capim.
A posto que se o capim tivesse escolha não agiria assim.
Não vejo qual a graça de ser aderência num fluxo idiota.

Então uma pétala surge, se colore
volta à vida, ainda que caída da flor.
Para além da conformidade capinzística,
esses seres deixam de existir,
eles verdadeiramente vivem.

Eles comem como todo mundo? Sim.
Eles dormem como todo mundo? Sim.
Eles fodem como todo mundo? Sim.
Banheiro, cozinha, sala de tv, computador.
Livro, revista, cadeira mesa, escritório.
Burocracia, atestado, doença.

Mas também poesia.
Mas também dor.
Mas também alegria, e sofrimento, e propósitos.
Comida não é só nutriente, é uma alegria profunda.
Dormir não é só sono, e sonho não é só ilusão.
Sonho é aquilo que se faz pra encontrar quem se ama mesmo dormindo.
A foda não é só sexo. É poesia também, é um campo com flores coloridas.
É também uma parede branca ou um teto.

E as coisas têm todas outros sabores.
Colina de chocolate e borboleta de bala de limão.
Batata, bolinho, cheiro de cigarro, criança correndo tem gosto de algodão-doce.
Chuva à noite e postes de luz, carro em movimento.
Cheiro de terra, cheiro de homem.
E é clichê, e é surpresa, e é ciclo e é hístórias-parecidas.

Meu celular tem um portal mágico.
Minhas caixas têm vórtex.
Minhas canetas são chaves e meus cadernos provas do crime.
Prendam-me: eu vivo.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

sonhos

te tenho no oculto
em meio à bruma
de onde viemos e onde nos abrigamos
eu faço isso pra lembrar
escrevo pra ser tua
te mando palavras aos ouvidos
à noite
enquanto dormes
quase posso sentir como
se estivesse no teu quarto
ao pé da tua cama
no sopé do teu ouvido
sussurrando para que durmas bem
para que sonhes comigo
torcendo para que, ao acordar,
eu possa ter lembranças de sonhos teus também


- Hoje eu toquei piano e lembrei de você - mas também, quando eu não lembro?

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Do tarô ao clichê

"Oh, wind and rain may haunt me
Look to the north and pray
Send me, please, his kisses
Send them home today" 
Send his love to me, Polly Jean Harvey 



Estranho o dia em que não te vejo.
O céu até se lavou de ontem,
quando ele choveu pra nós,
sentados observando a fonte.

Você disse uma vez que eu era ar.
Eu sorri internamente porque eu também me vejo assim.
Eu vento pra você criar,
mesmo quando você não fala de mim.

Eu paro e suspiro quando lembro
de um toque vívido que assalta minha memória
sempre que sinto ar frio na pele eu penso no Mundo.
Estrelas contam da gente. Pandora manda esperança.

O sonhos caminham junto com a poesia e a dança,
ora figurativa, ora real,
 nos conduz pra dentro de nós mesmos,
quando nos vemos um no outro.

- Rimas parecem uma coisa boba, mas coincidentemente eu as fiz. Perdão aos que não gostam delas. Eu compreendo.

domingo, 13 de maio de 2012

Sem sal

Uma coruja piou lá fora
eu sinto o frio ar típico
o som do pássaro dá o tom da infância
traz de volta os anos idos, iguais a agora:
sempre como se algo estivesse faltando;
sempre sozinha.

Sal no rosto branco e sem sal.
Algum tempero tinha que ter.
O espelho mostra o de sempre
as folhas nunca parecem estar cheias o suficiente de letras
que possam descrever a agonia.

Só vai andando e sorrindo
e acordando todo dia
tendo tudo o que precisa,
mas nem sempre o que se precisa é o que procura.
Algo mais abstrato sempre falta
e de tanto abstrair, as veias se esvaem.
Explosão.

Pretensão em se chamar de louco

Então minhas palavras se atropelam.
Como se furassem filas.
Eu escrevo assim, desse jeito, quando te amo demais.
Não há pássaros piando.

Sinto minha mente como um manicômio.
Em algum lugar aqui dentro, tem alguém no eletrochoque.
Se essa pessoa ainda liga, eu não sei.
Creio que sim, porque se rebela.
Noutro canto, alguém sofreu lobotomia.

Um dia chegou outro louco.
Vindo de fora, um completamente problemático
(veja seus pulsos atados! e seus tornozelos!, pensei: acho que ele é pior que eu.
resta saber quem sou.)

Ai ai, às vezes é bom ter essa cabeça de atropelo
Embora às vezes a gente chore muito,
pelo menos aprendemos a dar vazão.
Se vai fazer sentido não importa, é assim que se vive a loucura...

Oi, confusão

O sol, o céu - o frio que finalmente chega.
Um dia como outro qualquer - preciso pensar assim, preciso pensar assim, preciso...
Não dá, e eu me desfaço em vinte pra conseguir manter o equilíbrio.
(Ao menos o aparente.)

A vontade é de pegar as canetas e riscar toda a parede
como se fossem lâminas
e o tijolo epiderme derme exoderme (verme?)
Deixo as outras vontades ocultas porque não convém.

Aí vêm as lágrimas. É como se eu estivesse bêbada.
Num minuto estou rindo e conversando com ela e feliz por ser seu dia.
Depois eu lembro que tem gente que não tem a sua por perto.
Aí eu choro, desconsolada por não poder consolar.

Mas sempre quieta, sempre escondida.
Porque às vezes amar é muito e demais e pode ser que assuste ou invada.
Invadir é não ter cuidado, e aí amar é veneno.
Não se pode ser veneno sem antídoto.

E mais uma vez eu atropelei um sentimento com outro e mais outro e os versos ficaram mais confusos que a minha cabeça.
Acho que
nesse ponto (como em tantos outros)
A gente combina.

(Oi.)

domingo, 6 de maio de 2012

Tempo e Bailarina indecisos

Eu não sei o que dizer quando minha inspiração falha
É raro, mas às vezes não ficamos na mesma frequência
E eu não sei por que isso acontece
Talvez seja normal e eu só esteja desabituada.
Talvez essa sensação seja na verdade nós dois
confusos e venenosos ao mesmo tempo. Talvez.

Engraçado que a lua ri no céu e no tarô
Ela fez uma volta completa em torno do meu quarto,
mais uma em torno da minha cama
e saiu brilhando arco-íris, deixando um rastro colorido no céu
que depois a envolveu como os anéis de saturno.

Desenhei uma bailarina sob um céu com essa lua
que brinca sobre capim e algumas flores,
como naquele dia que sentamos sozinhos na grama e falei daquela senhora
a mesma do crucifixo dourado
que me protege tanto quanto você.

Chorei sem lágrimas ou gemidos agoniados
fiquei imóvel olhando pro teto esperando a vontade passar
várias vezes no dia essa cena se repetiu
e o céu estava indeciso como eu fui outrora.
Mas se hoje a chuva não vem, amanhã eu choverei.

Da rotação

As horas não passam, quando se espera um amanhã de abraços.
Um fim de semana sozinha, uma cama de solteiro
a janela conta o que a noite reserva pra poesia que está longe.
No sono se tem notícias daquele que se ama.

Um pássaro de papel colorido
picotado nas mãos do amante
o olhar fulmina pessoas odiosas atrás de mim
e embora eu não goste delas, fico com medo.

Perturbação - essa é a palavra! - e desconforto.
Acordo de testa franzida, a janela traz o frio.
Arrepio e fecho o vidro.
Volto a dormir sem sonhar.

As fotos de olhos fechados mostram uma das cenas que mais gosto de ver.
As horas se arrastam, lentas, e o amanhã acena desdenhoso.
Ao sol do meio-dia eu vou sair de casa
pra ir pra casa quando ele se pôr...

domingo, 8 de abril de 2012

Te quero livre

Chorando a tarde inteira aqui trancada
dando graças a deus por você não estar perto
assim você não vê.

Puxo as linhas descosturadas do meu peito
que se abre cada vez mais, do pior jeito possível
soluços inaudíveis mas atormentadores me perpassam
e no entanto eu não vou deixar você ver nada disso.

Porque não quero te prender com essas linhas
não quero traçar limites com pontilhados traços em giz branco
porque você é livre.



sábado, 7 de abril de 2012

Eu não sei esperar

Odeio esse isolamento e faço dele uma jaula
eu tranco meus pertences como eu na tua sala
te cubro de sorriso enquanto quero morrer
eu faço um manto de lágrima e um colchão de entristecer

Mas não, não vou embora
porque as coisas parecem ser como têm que ser.
Eu não vou embora
porque eu acho que é o único jeito de você compreender...

Que eu não sei jogar.
eu nunca soube o que fazer quando me sentia amada
as coisas podem parecer simples desse ângulo mergulhada nas almofadas
sentada no sofá aqui olhando pra você

É sempre muito fácil quando estamos juntos
e as coisas dão certo, e que se dane o mundo
e todos que olham torto mesmo que seja sem saber
que a parede chora com a gente.

Mas não, não vou embora,
eu nunca sei o que pensar enquanto você não chega
não, não é a hora
embora agora eu não queira ficar aguardando palavras tuas

Não, não vou embora,
porque as coisas parecem ser como têm que ser
Eu não vou agora
porque eu acho que é o único jeito de você compreender

Que eu não sei esperar.

domingo, 1 de abril de 2012

Som ligado

Era tão bom ouvir aquelas músicas. Parecia que poderia implodir com a emoção que elas lhe causavam. Chegava mesmo a sentir o nó no peito e que os olhos poderiam estar marejados - mas eles só choravam lágrimas invisíveis.
Mesmo que se esforçasse bem, não poderia achar no seu ser de onde vinham aquelas emoções quando ouvia aquelas canções anos atrás. Parecia chorar por coisas que nunca vivera, como se a música fosse uma premonição. E agora que os acordes tocavam suas vivências e os versos falavam se seus amores - amores reais, vívidos, ora coloridos, ora preto e branco -, o som a completava e preenchia de tal forma que ficava difícil falar. 
E quando se sentia deslocada, quando sabia que era uma intrusa, aquelas velhas companheiras sempre confortavam-na. Feliz era a menina quando ligava o som...

"Laying beside your bed waiting for the last breath
Can it be done, can it be saved 'till we apart
Slowly ran water down to fill you
Slowly turns tide for us to weep

For this I was given birth
For this I was given name
Slowly ran water down to reap."

Leppäluoto, House of the Silent.

sábado, 31 de março de 2012

That's it

Te sopro nos ouvidos que vou te seguir
acorrentada a ti, me sinto livre
porque eu sei que não preciso te dizer coisa alguma
quando vês o que está me machucando.

A dor de outrora se transmuta em coração líquido.
Meu cérebro colorido sai pelo ouvido
O músculo no meio de meus pulmões foge pela minha garganta
engulo palavra e cuspo canções
só pra te ouvir cantá-las aos sussurros,
numa varanda ou quarto escuro.

Te amo. Te amo. Te amo.
Te amo. Te amo. Te amo.
Te amo. Te amo. Te amo.
Te amo. Te amo. Te amo.

É, acho que é isso.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Questão de ângulo

As músicas que permaneceram renegadas
Por algum tempo, lindas de ouvir, dolorosas de entender
Voltaram como cardume de purpúreos peixes que vêm à superfície.
O mar sempre me serve quando falo
dele
Observo seus traços de todos os ângulos possíveis.

Tentar sumir por um tempo e deixar ele pra trás
Sempre obscuramente perto e fazendo parte
Não há como dissociar dois corpos assim
Dançando juntos com o árvores ao vento
E carinho em todos os ângulos possíveis.

O ar se movimenta: é o vento.
Aparece na hora exata de te querer.
Marca minha pele de arrepios, e eu finjo que é frio.
Eu canto junto com ele, guia dos nossos movimentos
E vontade em todos os ângulos possíveis.

Contorcida, retorcida, uma planta crescendo
Eu, despida de orgulhos, máscaras – roupas -,
Meus olhos se enchem de lágrimas
Os teus me olham direto
Um sobre o outro e ao contrário:
Ter você em todo os ângulos possíveis.

segunda-feira, 26 de março de 2012

boom.

Eu perco muito tempo "sendo eu" nos teus braços
ao invés de sorrir porque eu realmente fico feliz quando estou contigo
eu resolvo chorar
quando na verdade o mundo é que deveria sofrer com minha alma retardada
eu sou toda errada
eu sempre mando as pessoas fugirem
todos que chegam perto demais se machucam
eu não te afastei
eu deixei você perto
e a cada explosão eu me sinto horrível
porque você é o único que não deveria se machucar com os cacos
e quando eu me odeio sozinha você pelo menos não pode ver
você pelo menos pode estar feliz no teu apartamento
dentro das paredes que nos vêem felizes
com os carros todos zunindo na rua lá fora
eles não falam tão alto quanto minha alma quando digo que te amo
eu não quero perder minha voz
ainda que isso esteja acontecendo
estou me sentindo mutilada
mas o que posso fazer se isso me deixa feliz?
eu não tenho nenhuma rota de fuga.
é só eu e eu e mais eu, chorando e querendo que algumas pessoas morram.
como sempre foi.
até eu não aguentar mais.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Um clichê que nos perpassa e que sempre descrevemos

Você se senta numa almofada e obriga seus olhos a digerirem uma massa amorfa que não faz sentido, e ainda que seus globos oculares não possuam ácido estomacal, eles engolem direitinho. A montagem é perfeita, não há do que duvidar. Está tudo calmo.

Mas isso é a superfície do seu ser lutando pra que sua existência seja segura - e de fato o grupo assegura: ela é segura. Sua identidade depende deles. Mas por baixo dessa pele estúpida com quilos de cremes e outros artifícios, você sabe que nada disso faz sentido. Você só luta pra que faça, ou quem não faz sentido é você e, se você não faz sentido entre essas pessoas e para elas, você é louco. Ou, no mínimo, “do contra”. Nada mais inconveniente do que um idiota alardeando o fim próximo.

Você olha pro lado e se sente satisfeito porque não está fazendo nada anormal. Todos estão agindo assim. Ufa. É como se houvesse uma coreografia inconsciente que todos devem seguir. O mais irônico é que mesmo os que são contra isso seguem uma ou outra seqüência de passos de acordo com a vertente do Diferente a que se filiou. Cada um tem seu próprio jeito de viver tranqüilo. Viver tranqüilo significa deixar cada um seguir sua vida.

Se há algum alarde, é só chamar a autoridade responsável por esse setor. Seja a polícia, a professora, o padre ou a Mamãe. E de repente todos os problemas da vida se dissolvem como tempero artificial de macarrão industrializado e duvidoso.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Medusa

A guitarra e o vocalista gemem juntos na caixa de som
como uma caixa de Pandora cantando meu sofrimento pulsante
O som vem como miados agudos de gatos demoníacos.
Como uma gata ensandecida, eu vou arranhar alguns rostos.

Desapareço, e o que deixo no meu lugar é uma espessa fumaça venenosa
você respira, se inebria, mas é só isso.
Não pode tocar, não pode sequer ver,
porque quando olha tem que ser rápido.

Olhares são tão interpretáveis.
e o mínimo que alguém me olha
isso faz com que vire pedra em minha própria maneira
Cuidado ao olhar dentro do espelho.

Sempre fui nociva.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Só pra constar

Fazia tempo que o céu não mostrava suas estrelas
mesmo que a lua não tenha aparecido, não importa.
Ela não tem mais o mesmo sentido que antes
e a embriaguez entorpecedora e libertadora dos bares deprimentes
deixa na boca e na alma um gosto amargo;
no corpo um mal estar,
e eu esparramo o conteúdo no copo no frio cimento da calçada.
Sonhos que nunca me habitaram passam a frequentar minha cama.
A sorte que parecera me sorrir agora ri na minha cara - da minha cara.
As músicas silenciaram e eu não quero ouvi-las.
Os risos que outrora me contagiavam verdadeiramente
agora são superfície agitada de mar raso.
Fazia tempo que as coisas não ficavam desse jeito.


Hoje vi uma corujinha branca passar voando por mim. Mas isso não impediu que meu dia terminasse mal.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Atestado de Incapacidade Poética

Minha mãe chega em casa. Ela pega o bebê no colo e parece que todos os problemas do dia dela evanescem nesse simples gesto – mesmo que depois o bebê comece a chorar por um motivo qualquer.

E então eu sei que, meia hora depois, vou ouvir o barulho da caminhonete do meu pai, e ele estará chegando de um dia estressante de trabalho. E mesmo que as coisas estejam ruins em casa e o bebê esteja chorando, eu sei que ele está aliviado por finalmente estar entre estas paredes.

Meu irmão maior vai continuar jogando no computador, minha gatinha preta vai continuar andando por aí até que sinta fome, sono ou até que queira um carinho. Vou oferecer tudo isso a ela e depois vou subir as escadas, com o peso do mundo nas costas, arrastando meus chinelos até o quarto.

Dia desses eu resolvi olhar pela janela. Abri as cortinas verdes de meu quarto e deparei-me com uma lua tão grande e branca que me assustei. Ela parecia gritar pra mim: POR QUE PAROU DE ME OBSERVAR? Minhas cartas de tarô pareciam tremer dentro da caixa, mas não as peguei.

Minha poesia se personificou. Uma bela mulher curvilínea de sorriso misterioso. Um olhar que parecia passível de explodir de raiva se eu dissesse palavra errada. Era volúvel. Era meu lado negro.

“Você me deixou”, acusou ela, chorosa.

“Sim. Deixei.”

Ela pareceu fazer um esforço para controlar o semblante anuviado. Sentou-se na minha cama e ofereceu-me seu colo. Era muito alta e grande, e no entanto era delicada e quente. Seu colo era macio como o de uma mãe ou avó, só que ela era jovem, tão jovem quanto eu.

“Você não pode me ignorar, menininha. Uma hora eu vou sufocar você até que me escreva. Você sabe que não consegue.”

“É, eu sei, mas se eu te escrever, vou me sentir sufocada por memórias.”

A poesia me olhou com compaixão. Piscou, assentiu com a cabeça, e evanesceu. Foi voltar pra sua casa, a lua. Quis evanescer como ela, quis deixar de existir. Quis verdadeiramente morrer.

Ouvi o barulho da caminhonete do meu pai. A realidade me chamou. Desculpe, Poesia, mas eu preciso viver um pouco.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Manifestos de menina #10

Quebrei um copo na parede
na escuridão, a explosão do vidro virou luz.
Joguei uma tesoura em você
acertou seu coração
lugar onde não estou mais.
Nunca estive, pelo visto
e de onde você me expulsou injustamente.
Nunca, nunca compreendida
a menina chora lágrimas coloridas
A poesia que antes encantava
agora traz raiva e envenena
de verdade, não com tua força de expressão que te inebria.
Vinganças tolas em cima de pessoas burras.
Pobre da tola que pensou que poderia ser amada.
Não existe loucura em ti.
Só uma inconsequência amortecida pelos anos
substâncias que te inebriam e que te fazem ousar
No dia que a dor te partir no meio como me partiu tantas vezes
de novo, e de novo, e de novo
a dor de ser inocente, e de ver isso se perder.
Essa dor é a pior de todas. E você não a conhece.

Aparentemente não mereço algumas vidas
não mereço fazer parte de nada
Nunca me senti parte de alguma coisa.
Agora não seria diferente.
Quem dera tivesse eu o brilho eterno de uma mente sem lembranças.
Por enquanto vejo aqui apenas a nebulosidade de lembranças demais.
Ou vejo apenas o que minhas lágrimas permitem que eu veja.
Por que você tinha que me odiar tanto?
Essa sou eu, a criança abandonada
perdida entre sonhos e ilusões frustradas.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Motocicleta

Começou a carta como um manifesto, uma revolta:

Se vocês pudessem parar de mudar o que "seria melhor que você seguisse" eu ficaria grata. Canso de ouvir as mudanças de referenciais que todos vocês tem a me dar. É claro que vocês ficam pensando em como é ser eu e estar na minha situação. Só que vocês só resolvem pensar melhor depois que eu já fiz. SERÁ QUE DAVA PRA PARAR? Acho que vou fechar o casulo.

Deixou-me pasma com tanta raiva e na verdade eu achei que fazia sentido. Ela era sempre drástica e gostava de fins. Lembro do primeiro namoro dela, que ela terminou muito rápido porque começava a sufocá-la - a pressão de ter a melhor amiga apaixonada pelo namorado, treze anos de idade, um cara com quase dezoito, a inexperiência e o mesmo nome daquele que atualmente ela deixara ir embora. Ela fez novamente com que um homem com aquele nome se afastasse dela.

-Estou com sono, mas sabe quando tens coisas pendentes e parece que não vais conseguir dormir?

- Sei. Mas não tenho mais esse problema. - respondi, e sorri em seguida - a não ser meu quarto por arrumar. Mas acho que vou arrumá-lo antes de dormir.

- Essas coisas pendentes sempre aparecem... Talvez por que sempre estão pendentes. – e riu um sorriso irônico - Mas enfim... O que é a vida sem um incômodo?

- É, eu concordo plenamente. - disse eu, sorrindo largamente, satisfeita.

Minha vida estava uma completa bagunça, o furacão tinha passado, os entulhos estavam revirados nas ruas cinzentas e abarrotadas de gente confusa passando pela minha mente.

Ela estava sozinha, mas tinha visto uma lua tão bonita e realmente dourada no céu, e a moto corria tão rápido, e o vento jogava uma cor pálida na pele de seu rosto. Pensou se ele estava olhando pra lua e se estava se sentindo tão feliz e livre quanto ela.

A menininha dentro de mim sorriu com os cabelos ao vento.



Dia desses eu vi uma borboletinha amarela sobrevoando entulhos. Era um presságio e eu nem sabia...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Sem vento.

Hoje eu sonhei um sonho que nunca tive antes. Sonhei com um mundo mágico e secreto, com um olhar doce novamente. Acordei confusa e logo percebi o engano.
Quis dormir mais. Sem sonhos dessa vez.
O suor me afogou nos lençóis, o sol do meio dia acertou em cheio minha cabeça enjoada. Meu corpo idem. O calor me deixava sonolenta e esparramada na cama. As folhas nas árvores não se mexiam, nenhum sinal de vento. Pensei "é, acho que ele não vai dar as caras agora".
O que Ana Terra fará sem ventanias?



Só refletindo...

sábado, 28 de janeiro de 2012

Réquiem.

Essa sou eu
aquela que sai perdendo em qualquer situação
aquela que se sairia mal de qualquer jeito
porque os cordões arrebentam quando a marionete é pesada demais
e sempre na boneca com o rostinho mais frágil.

Saí correndo e quebrei a perna
vomitei meu estômago e fiquei jogada no chão de cimento
Onde está a mulher forte de que meus amigos falam?
Eu só vejo um fiapo de menina destruída,
no meio de uma poça vermelha grudenta.

Enquanto isso, na praia, palavras são escritas na areia.
Na cozinha uma garrafa de vinho, uma lâmina e um olhar
que reaparece no sonho, e que trás uma aura de arrependimento que já é conhecida
mas que outro rumo poderia tomar?
Você sempre sai perdendo, perdendo...

Só espera agora não perder parte mais bonita disso tudo
aquilo que não depende do que acabou
e espera que entendam isso.
Pra que ela possa sobreviver - por enquanto não pensa em "vida".

Esperando não ter mais que ter medo
não conseguirá nunca falar o que sente
Nunca conseguirá explicar
ninguém conseguirá entender
e vai acabar onde tem que estar.


No meu sonho, Galadriel disse "Esse será o único olhar que ele lançará pra você agora. Nunca mais nenhum outro." Só aquela raiva. Meus versos mais verdadeiros e os que mais fizeram sentido ecoam na minha cabeça como uma maldição:

Eu só queria um pouco de paz
Talvez a encontre
em algum lugar de mim mesma
sozinha de novo
onde tudo deve estar.

Tudo está em seu lugar quando não tenho ninguém.
Mas isso não significa felicidade.

Ainda não soa como fim.

Bom seria chorar até desidratar.

"Eu que não fumo, queria um cigarro..."

Uma menininha grita que não é justo.
Uma mulher agarra-lhe os cabelos
e joga a pequena num quarto escuro.
Nenhuma delas porém sente como se estivesse acabado
um olhar raivoso e um sonho horrível
é o que sobra de uma noite desgraçada
e o que sobra das poesias escritas
são novas poesias, separadas.






sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Sobrevida

Vou continuar num ritmo que seja pra você acompanhar
mas noutra dimensão
pra eu poder sobreviver...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Teatro Madrepérola

Djavan manda lembranças ao poeta reticente.
Que olhos!, guardando em si o que não se pode ver.
Enxergando o que?, se a vista que lhe concede a dama é parcial.
Ainda que isso seja injusto, ela se sente melhor assim;
ou pelo menos por enquanto, ou pelo menos é o que ela acha,
ou pelo menos é como ela fez a vida inteira,
porque acha que ninguém vai agüentar o que nem ela mesma aguenta.

Ela foi caminhando desviando das poças o mais que podia
e no entanto, num ataque de histeria,
começou a pisar nelas espalhando água pelos pés brancos e em volta.
Assim sujos ela pensava melhor na palavra "lama"
que ela nunca compreendera bem nos poemas de seus ídolos,
mas agora tinha certa noção do que significava.

Correu, enquanto se agasalhava em seu casulo de misérias e decepções.
Mas ele não deixou que ela se afastasse muito.
Agarrou-lhe os braços, e disse que ela não poderia se esconder dele por muito tempo
Porque ele não queria feri-la e ela sabia, e ela chorou por dentro,
Porque queria aquilo e queria não aparecer mais por entre cortinas vermelhas de veludo
Queria encerrar as apresentações no seu teatro de madrepérola
Os assentos portentosos ela queimaria todos
E expulsaria quem quisesse continuar vendo-a fingir
(o que faria com que somente uma pessoa lá permanecesse).
As lágrimas rolaram por dentro da pele, e ela, sobrancelhas franzidas,
correu num ritmo em eu ele pudesse acompanhá-la – mas ainda não deixara de correr.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A menina dançarina

Um belo poema feito pelo amigo Guilherme Wordell Oliveira. Obrigada, querido.

"A menina dançarina"

Sempre sorrindo. Dance.
Não perca o ritmo. Dance
Não se entregue. Dance
Apenas dance. Dance.

Se seu palco é seu mundo
Se sua dança é sua arma
Dance até morrer bailarina
E sua glória será sua história.

Do bailar se fez poemas
Das várias faces da menina
Brotou a grande obra prima.
O existir da garota vivida.

E a garota dona do mundo
Essa princesa nunca esquecida
A pequena dançarina sonhadora
É você, minha Ana, minha querida.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

X

Hemos perdido aún este crepúsculo.
Nadie nos vió esta tarde con las manos unidas
mientras la noche azul caía sobre el mundo.

He visto desde mi ventana
la fiesta del poniente en los cerros lejanos.

As veces como una moneda
se encendía un pedazo de sol entre mis manos.

Yo te recordaba con el alma apretada
de esa tristeza que tú me conoces.

Entonces dónde estabas?
Entre qué gentes?
diciendo que palabras?
Por qué se me vendrá todo el amor de golpe
cuando me siento triste, y te siento lejana?

Cayó el libro que siempre se toma en el crepúsculo,
y como un perro rodó a mis piés mi capa.

Siempre, siempre de alejas en las tardes
hacia donde el crepúsculo corre borrando estatuas.

Pablo Neruda em seu lindo livro Vinte poemas de amor e uma canção desesperada.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Devaneios

Quero sonhar com vermelho
com um rio viscoso e rubro
e acordar banhada em sangue
o lençol ensanguentado
como se uma faca tivesse transpassado meu ventre.

Quero levantar da cama, agonizante,
andar até o banheiro, cambaleante,
pra então me olhar no espelho
e constatar que estou morrendo
me esvaindo pelas veias,

Então vou me segurar firme no balcão da pia
vou me abaixar até deitar no chão,
gritando o primeiro nome que me vier à língua.
Vou rastejar até conseguir abrir o registro da banheira
enchê-la e nela mergulhar.

A água vai ficar vermelha.
Eu vou desmaiar, de dor e sem sangue
e quando você chegar
eu estarei azul, murcha e dura.
Deliciosamente morta.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Outra menina que dança

Quero saber dos teus sonhos,
das tuas vontades mais lindas.
Quero ler nesses olhos
um vislumbre do que é a vida.

A poesia escorre entre nós como relógio derretido
o tempo que ridicularizamos e desfazemos
só pra poder brincar
eu a menina, e eu danço.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Uma Nossa Canção

O mar vem dizer
coisas novas
coisas antigas que eu não lembrava
renovadas por um novo amor
um homem que esconde
e que não sente dor.

E me devora, demora e mantém
o meu pensamento tão longe do mar
o mar que eu preciso pra me afogar
e quando eu te falto você vem cantar
uma nossa canção, só pra eu lembrar
que você existe, na nossa lógica
Um mundo paralelo como uma corda
onde me equilibro e que me enforca.

E essas linhas,
canções de ninar,
monstros marinhos
que vêm te assustar
se desmancham em versos
em coisas pequenas
nos fazemos de tolos
pra ninguém notar.

E quem vai saber, se eu não lembrar?
E se eu morrer?
Tudo vai ficar morto como eu longe de você
onde a calma mora e me faz adoecer.

Por isso morrer
vai doer.
Se eu for, não existimos
e a não-existência* machuca.
Somos um vão,
uma fissura no tempo.
Somos o alento
pra fora do tédio.

*Compreendo perfeitamente que "inexistência" caberia muito bem aqui, mas eu achei que assim soa melhor.

Escrito em 8 de janeiro.

Ainda não me encontrei

Você me jogou no chão
caí nele como fosse um mar de fluorecentes cores
que me tragavam em si mesmas
e me puxavam pro fundo de um estranho prateado
de um mar louco e obscuro.

Parecia que eu tinha mergulhado em seus olhos
Que continham em si estrelas como grãos
com os quais alimentei pássaros imaginários
que sobrevoaram e *rasavam, rasgavam o ar à nossa volta.

Quando eu me encontrar, quero que esteja perto de você.



*rasar é o verbo cujo sentido alterei para "dar um vôo rasante."

sábado, 7 de janeiro de 2012

Visões de Tara

Da lama surgiu um monstro que correu atrás de uma frágil menininha. Embalada pela poesia, porém, ela se libertou.

Da lama surgiu uma lótus. Ela se abriu com Tara dentro dela, dançando sua compaixão para dentro da vida da menina amedrontada, ainda puxando o ar com dificuldade pelo medo que a encobriu como uma deusa maldita, praguejando a lama em seus sapatos de boneca, com a boca de botão em flor se abrindo em palavrões inocentes de não saber o que significa, os cabelos desgrenhados e os olhos lacrimejantes.

A menina parou. De onde tinha vindo a poesia? Tara lhe sorriu. A menina tinha pequenos espelhinhos colados na roupa colorida. Os cabelos, ainda que bagunçados, tinham em si amarradas fitas multicoloridas salpicadas de lama. Escondido num tronco, um duende se ria dessa desordem fascinante, saindo da sombra para observá-la melhor.

Tara voltou pra lótus, serena, calma e clemente, emanando amor. O duende parecia debochar disso, e, no entanto compreendia muito bem – o ar zombeteiro não era intencional. A menina virou-se para ele, pois sentia que era de lá que os versos vinham. Os versos eram ditos e algum lugar da sua cabeça, mas o duende não movia os lábios. Ele os estava colocando lá!

Sem perceber, a menina chegara mais perto. O sorriso do duende parecia mau. Mas ela sabia que não era. “Como se eu já o conhecesse...”

Algo a puxou pra fora d’água. O ar bateu em seus pulmões com força. Tossindo, ela virou na areia da praia vazia. Ou assim ela pensava. Alguém a tinha puxado pra fora do mar revolto e convidativo. Seus pequenos lábios tremiam, roxos, seu corpo estava muito gelado, e o vento açoitava tudo ao redor. Havia árvores e um caminho mais ao longe.

Havia um homem ali. Ele parecia exausto, e suas roupas e cabelos estavam encharcados como ela própria. Ele respirava ofegante – obviamente ele a tinha salvado. Ela o odiou. Odiou-o por tê-la tirado de seu devaneio pré-morte, por não ter deixado o duende falar com ela. E Tara, Tara lhe envolvera tão deliciosamente com seu amor...

Com os cabelos negros espalhados na areia, ela ficou imóvel, desejando morrer. A dor que sentia, a ardência nas mucosas do sistema respiratório eram insuportáveis, e sua alma parecia gritar. Por fim, ela própria gritou.


(Continua?)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Divagações

Sentei de frente pro mar num banco na grama. Se é que isso é possível, a grama estava suja de areia. É que os passantes limpavam os pés no verde pra não sujar o carro - e havia muitos passantes ali, que minha reflexão ignorava, ao mesmo tempo em que reparava em todo e qualquer detalhe deles.
Fiz cara de quem precisa de alguma coisa e não sabe o que é. Cara de quem sente falta de algo. Uma cara de quem entende porque não pode ter aquilo que quer mas que acha muito injusto - é normal acharmos que há injustiças sendo cometidas contra a gente -, embora meu lado racional soubesse ser aquilo perfeitamente aceitável e até justo. Mas minhas expressões nunca obedeceram qualquer lógica, elas só são o que são - expressões puras, reflexos instantâneos de meu sentir.
Abri meus olhos como gavetas, deixando que o mundo espiasse ali dentro. Eu esperava que o mundo pudesse ler meus pensamentos nos meus olhos como se eles fossem letreiros, que vissem ali dentro pássaros voando e lobos correndo, neve caindo - ainda que eu nunca tivesse visto esse espetáculo ao vivo - e ventos congelantes, em uma rodoviária, um terminal de ônibus, um lugar bem abandonado num dia nublado como minha cara blasé.
Matei uma abelha num reflexo que me puxou pra realidade, e me desculpei com ela, inutilmente - eu não queria matá-la, como quando damos um peteleco num inseto pra que elevá pra longe e no entanto a força mal calculada acaba matando-o, eu vi a abelhinha esmagada e me senti cruel, humana, nojenta. A abelha não me provocava asco.
Olhei pro mar, com seus banhistas, barcos turísticos, vi as crianças correndo à beira d'água, duplas jogando frescobol (odiava aquelas duplas!), senhoras exibindo corpos flácidos sem sequer se importar (afinal o que mais lhe restava?, passaram provavelmente a vida inteira se importando em ter o corpo perfeito e agora agradeciam por estarem vivas, a grande ironia da indústria da beleza, por fim derrotada na vida de cada mulher que no fim da vida resolve andar na praia ao lado de um marido barrigudo), e mães preocupadas dizendo pra que "filho, volte, aí é muito fundo, MARCELO VOCÊ VAI DEIXAR SEU FILHO SE AFOGAR?".
Sorri. O mar sorriu também, apesar de mudo, e os barcos deslizavam, os morros guardavam histórias de pedras e cavernas que serviam de abrigo pra bruxas de nomes exóticos, e eu ali sentada, só observando, observando, observando, a minha vida passando lentamente por segundos slow motion pra que depois eu sentisse que tudo tinha passado rápido demais. É a vida, dizem. É a vida.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Cegueira Vermelha

Enfiou-lhe uma vela para cada órbita dos olhos azuis do rosto que coroava aquele corpo magnífico, agora caído no chão. Chutou a cabeça que berrava de dor, e riu, quando percebeu que podia matá-lo, ali, indefeso. Mas não o fez.
De repente os gritos lhe pareceram insuportáveis, e só saiu correndo, deixando seu cheiro florido atrás de si na caverna maldita.
A idéia das velas ocorrera-lhe vinda de um livro, agora ela lembrava. Queria ver como era, se a coisa lhe pareceria tão poética quanto parecera nas páginas amareladas do velho livro que leu e releu tantas vezes, em tardes quentes ou frias, tanto fazia, era uma coisa a se tentar. E tentou. E a coisa pareceu-lhe muito melhor na vida real porque era de verdade e era ela e era ele.
Quando caiu em si, estava correndo há horas. Estava numa praia deserta de ventania, a areia lhe vinha aos olhos como que para beijar-lhe as pálpebras, mas de repente o vento ficou muito forte, e a areia a machucava. Abaixou-se no chão até sentar-se, e a ventaria de pronto parou. Foi aí que ela finalmente olhou pro mar. E ele parecia tão perfeito, esse mar, e ela pensou como era possível que aquela superfície uniforme guardasse tantos mistérios e espécies e embarcações, como aquele mar parecia gritar lá nas profundezas as histórias de piratas, viagens, pescadores. E no entanto, essas histórias estavam no fundo, e como uma pessoa que grita debaixo d'água, o mar era mudo. O mais que podia fazer era rugir com suas ondas. O mar rugia sua dor de ter visto tanto.
De repente o mar parecia a metáfora perfeita para seus olhos e para os olhos do rapaz. Talvez agora que ele era cego não pudesse mais ver a dor. Então ela voltou até a caverna, onde ele permanecia imóvel, desacordado, e arrancou os próprios olhos, em frente ao altar que fizera. Tateou o chão em busca do corpo inerte do homem, deitando-se ao seu lado. Ela sentiu que com seus movimentos ele acordava e tratou de sussurrar-lhe: "Calma, eu também não posso mais enxergar."

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Do infeliz querer

eu vou ficar nessa solidão fria
até a luz da sala explodir.
e então vou gritar no teu ouvido que estou morta,
enquanto permaneço viva na tua poesia e na tua pele,
destruída no entanto pelo fogo
de uma danação que me é merecidamente concedida
e então, ali, condenada e fria
eu vou arder como arderia nos teus braços
só que eu não vou sorrir
vai doer de outro jeito, e vou chorar
como já chorei e não dá mais
porque cansou e murchou
sou flor caída e verso pobre,
sou poetisa sem estrelas, destruída pela visão
de um futuro que se expõe para mim como mulher nua
esse futuro que me assola os dias, as manhãs de verão
novamente, tudo se aquieta em seu lugar costumeiro
de infeliz querer.