terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Gato

"Canalha já é demais", ele disse, e eu tive que concordar. Afinal, dizendo aquilo com aquela cara de ofendido, não tinha como discordar que, de fato, se ele se incomodava com o adjetivo, não tinha como chamá-lo assim. Então eu me virei e fui embora, pra outra fuga, em palavras, compulsiva por vírgulas.

Achei que aquilo nas nuvens éramos nós brincando, mas eram só os formatos me pregando peças de novo, como quando eu olhei pra lá e vi algodão pontilhado de estrelas... Mas era dia claro e não havia lua.

Virei-me novamente, e ele estava lá de novo, sorrindo. Era como o gato da Alice, mas ele aparecia quando eu queria, ao contrário do bichano da menina loira. E eu não era loira – ainda que fosse menina.

Meu corpo tremeu e eu acordei, e então eu passei pelos cômodos da casa, observando os que dormiam. Meus irmãos pareciam lindos no sono, e eu queria sair pra rua. Quando meus pés descalços tocaram a grama, uma percepção gigantesca de que eu fazia parte de algo tomou meu corpo, e eu saí dançando sob a lua e parecia que eu poderia tocá-la. Eu, que nunca fizera parte de nada. Eu, sempre alheia.

Acordei novamente. Já não tão plena, já não tão fazendo parte, já mais alheia, jamais a mesma. Voltei a dormir, pra ver se eu tinha a sorte de sonhar com algum gato.

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