sábado, 19 de novembro de 2011

Filhos de Eros

Uma teogonia se faz
nos braços desse amante.
O tecido que cobre os ossos
branco e sedoso
forma um painel a ser escrito.

Ela está hipnotizada, arrancando os cabelos.
Fiando com suas veias, a donzela abre o braço
Dele saem fios rubros de sangue e de flores.
Rosas gigantescas vão surgindo, brotando de sua pele.
Desafiando a paciência do Deus.

Pagão, ele nunca se cansa,
e volta para cantar com seus acordes divinos, diabólicos.
As ondas vêm de dentro.
Se apossam da donzela e seu pacato lago.
Urros!, são os deuses brincando.

Ela pega seus fios-de-veias, suas rosas caninas.
Ela late e uiva pra lua. Ela morre, com sangue no chão.
Acorda. Aguarda. Não está mais em sua cadeira, fiando.
Atordoada, permanece deitada, imóvel.
Aguarda. "Eu sei, eu sei."

O Deus finalmente acorda.
Observa a menina nua na pequena cama, os seios à mostra.
Dos cabelos espalhados e das rosas que outrora foram seu sangue
Todos os detalhes lhe caem sobre a mente com um baque
Atordoado ele se despe, e cai sobre ela.

Os devaneios que se seguiram fizeram-na quase sufocar.
A febre pingou-lhe da testa,
escorrendo lânguida e luxuriosa pelo pescoço e entre os seios
Dele também caíam gotas de precioso torpor
Colado em seu peito, fazendo-a gritar.

Foi pintando as costas dele de vermelho,
Com a boca aberta esperou que ele grudasse a língua ali.
E quando do silêncio dele brotou o êxtase,
Tão humano ele lhe pareceu, com mil palavras a gotejarem de seus lábios...
E ela calou-se pra ouvir ele lhe dizer dos segredos que, divinos, lhe envolviam.

Oníricas, as revelações nebulosas
De um homem que não era daquela terra
Fizeram-na compreender o mundo, a ele e a si mesma.
Ele se partiu em dois, fazendo dela mulher e louca.
Foi banido de sua casa teogônica.

Caído, o Deus não se importou.




Eu inventei palavras. Neologismo e liberdade poética, é essa a beleza.

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