sábado, 29 de outubro de 2011

Franzir

Subiu no ônibus.

Tinha nas mãos máquina fotográfica, um livro do Rimbaud e um casaco fino e roxo.

A saia longa de tecido fino e amarelo deveria ser segurada, mas as mãos ocupadas não puderam dar conta do pano e ela quase tropeçou ao entrar no ônibus. "Típico", pensou, e ensaiou um sorriso e um "boa noite" ao motorista, que retribuiu grunhindo. O cobrador também não estava com boa cara, apesar do sorriso dela. Pegar ônibus era sempre uma merda, mas ela nem ligava. Pelo menos tinha o que observar.

Os minutos e placas passavam, e ela franzia cada vez mais o cenho. Cada vez mais deixava pra trás os momentos passados e as risadas, e cada segundo que se esvaía na ampulheta a aproximava de si mesma. Triste e intenso confronto.

De passar por ruas e lojas ela já conhecia bem os caminhos. De andar no famoso Largo ela passava pelo Mercado e sentia o cheiro do peixe fresco nas peixarias, via algumas índias vendendo artesanato estiradas em esteiras de palha de um jeito abandonado e indiferente, enquanto indiferentes as pessoas passam.

É sempre assim, essa indiferença. Essa apatia. Essa poeira, esses pombos dos infernos que não saem do caminho. E o tempo matando todo mundo aos poucos, o ônibus que nunca chega quando se está adiantado. O amor que nunca chega quando se está cansado.

Só lhe sobrara o Sebo. Com seu vendedor de cabelos compridos e cacheados, e os CDs baratos, os livros a um preço baixo, mas a ela muito caros, e ela queria todos. E o tempo matando todos, queimando todas as páginas.

Comprou um pouco de MPB, um rock clássico, um Best-seller australiano, e foi pro terminal costumeiro de quintas-feiras, esperar o ônibus que nunca chega, como metáfora pro amor que nunca aparece, talvez só muito tarde na vida, como aquela massa de metal maldita que sempre chega no último minuto.

Sentou-se no banco e começou a ler a história do Piano. E quando desceu do ônibus já era a mesma pessoa de sempre, e a máscara só caía quando ela entrava no ônibus no fim do dia, fechando o cenho.

Tatuagem

There's a lady down the road.
And she's humming words on the whispering wind.
'Cause, she knows, with a word she can get what she came for.
And when she gets there, the forests will echo with laughter.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Extra-G

Eu tenho um amor que não me cabe. Não me culpe se isso te assustar.


domingo, 23 de outubro de 2011

Parafraseando a mim mesma e me reformulando

"Eu só queria um pouco de paz
Talvez a encontre
em algum lugar de mim mesma
sozinha de novo
onde tudo deve estar.

Tudo está em seu lugar quando não tenho ninguém.
Mas isso não significa felicidade."

(18 de janeiro de 2011)

Eu ainda quero paz. E continuo sozinha.
Por escolha. Eu sabia que seria assim.
Eu sou menina mas não sou burra.
E eu prefiro ter ninguém e a mim mesma em pleno poder
do que ter pela metade.
Não é questão de ser extremista
é questão de ser bruxa.

Hécate, me guarde.

domingo, 16 de outubro de 2011

Manifestos de Menina #8

Às vezes queria ser louca de fato.
Num espasmo de raiva eu jogo longe o porta-canetas.
Volto a mim e percebo que está só na minha cabeça
as canetas estão todas no lugar.
Aí você me pergunta "o que fazer com essa loucura?"
e é justamente por isso que eu tenho essas vontades de arremessos.

Eu vou é correr até voar e afundar no sol
quem precisa de asas de pena e cera?
Eu posso ir até lá com os amores que carrego aqui dentro
vou chegar no Astro Rei e, antes de morrer queimada
vou insultá-lo e cuspir nele.
E de preferência eu pego o tempo de porrada no caminho.

Os físicos vão rir do meu manifesto
e os religiosos ficarão bravos com o próximo verso
se eu pudesse eu faria Deus sangrar
por todas as veias possíveis.
Talvez eu fizesse as veias dele implodirem.
Ele merecia morrer de overdose.

Oh, por favor, parem com isso.
Eu só queria viver. É só isso.
Mas acho que estão tentando me sacrificar.
Vou me fazer boneca de pano
recortada em lençol, encostada num travesseiro na sua cama
E eu vou ser uma daquelas bonequinhas que têm um cheiro bom.

Assim eu não vou me machucar, e vou ficar por ali por bastante tempo
que é mais do que eu posso ficar agora
é mais que eu poderia aguentar, de fato.
Ia ser uma overdose. E aí eu seria Deus, não?
E, se eu fosse, eu me jogaria contra o sol,
e certamente não precisaria de asas de cera e penas.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Pra começar a noite.

"Boa noite. Bons sonhos"
Amém.
Mas eu acho que não vou sonhar.
Acho que eu tô vazando.
Meu coração vaza tinta preta.
Eu não queria escrever.
Não assim.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Dias Ruins

Dias quentes de andar no asfalto
o sol marca a pele de vermelho.
Eu só quero chegar em casa,
eu só quero chegar em casa.

Nem teus beijos me salvariam
eu só queria um piano de notas fortes
uma canção melancólica
com um rancor profundo de fundo
e o resto em danação.

Só eu e a música juntas
"E elas que se entendam",
diria o mundo.

Olhos de Outono

Como as estações de Neruda
Sorrisos de primavera
Lágrimas de outono
Folhas transparentes que caem dos olhos
Da confusão que é esse gostar
E o desejo de verão
Quente de uma noite
De ventania e cabelos de terra.
O cheiro de madeira
E o molhado de um inverno interno
Que de tão glacial vontade
Torna-se o querer mais fervente
Como quente vinho aveludando a garganta.
Quero cravo e canela pra temperar
Regar a álcool e me embriagar
Nessas cores todas desse mundo louco
Na poesia de ter tantas palavras a dizer
E tão pouco tempo pra materializar
O que com olhos e mentes se faz.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Lua sorridente

Você me cobrou outra poesia
pois cá estou eu enlouquecida
escrevendo sobre você
de sapatilhas vermelhas e bolsa idem.

Quantas vezes mais sairão de mim
poesias que te digam
que te amo e que sempre vou voltar?

Quantos poetas mais
vão cantar em seus escritos
o que parece só haver entre eu e você?

E se o céu sem estrelas
se nubla e não mostra a lua
eu trago do fundo da minha cabeça o teu sorriso pra lembrar
do dia que você mandou eu olhar pra lá
e quando eu vi era a lua crescente ali pra nós

Eu voltei meu rosto pro teu
e era você que me sorria
imitando a lua.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Pr'onde vai tudo?

As caveiras e as argolas
são os grilhões simbólicos
de alguma ideologia ainda por ser descoberta.
Talvez a aliança represente a morte.
Talvez as moedas espalhadas em cima da mesa
não estejam mais aqui na noite que virá amanhã.
E a tesoura de cabo vermelho que corta papel e cabelo
dá idéias de morte e de feridas
e de sangue rubro inundando o chão.

Espelhos que refletem luz na parede
que me mostram olhos que eu reconheço muito bem
às vezes eu queria que só o espelho me reconhecesse
que outros não me vissem
mas eu acho que não dá.
Acho que é melhor ser feliz com outros olhares
do que desejar ser invisível.

As coisas não se encaixam, você não prevê.
A vida. Novelo de lã. Novelo de lá.
Lá onde eu não mando, onde é mistério.
Onde é tudo o universo e o nada.
E alguma coisa e coisa alguma nos aguarda.
Pra onde vai todo o poema?


Sapatilhas Vermelhas

Uma menininha ficava ali em pé na varanda
ela olhava lá pro céu e via a lua que refletia a carinha dela
e quando a gata preta que ela tinha vinha miar nos pés dela
se esfregando daquele jeito lânguido que só os gatos têm
ela era toda poesia indo alimentar o animalzinho
e aí ela ia deitar na cama com a colcha de retalhos
e dormia seu sono sem sonhos no seu travesseiro amarelo
e quando o sol brilhava da mesma cor no rosto dela de manhã
a cortina se desfazia e ela caía pro andar de baixo e tomava um café
e saía pro mundo ver
que ela tinha covinhas no sorriso e sapatilhas vermelhas.

Pela Sombra

Eu tava ali dançando no asfalto
Conexão Lago dos Cisnes
Enquanto no morro as pessoas continuam vivendo
e algumas pipas se soltando
se desprendendo de mãozinhas brincalhonas
e quando elas passam na frente do sol
meus olhos doem
porque a luz é tanta!, é como amor que transborda da boca,
como fumaça que se enrola na mão.

As xícaras ostentam café
e os olhos retém as letras
a mente trabalha sob pressão,
lê frases sem sentido de gente que já morreu e que não vão me salvar
aqui em vida, na Terra onde eu caminho
e danço sobre o asfalto, coisa feia dos homens
Os anjos sabem a desgraça que isso é
Todo esse metal retorcido que se movimenta sobre rodas
essas coisas modeladas pra fazer a vida mais truncada
trancada.

As coisas mais óbvias permanecem obscuras
nessa dinâmica estúpida em que vivemos
que faz com que amores sejam reprimidos
risos sejam condenados
e palavras escolhidas demais, sem serem sentidas
só pensadas e caídas no vazio
jogadas num chão transparente e frio de gelo e poeira
sujeira.
Nada de pó de estrelas, só pó.
O pó pelo pó.

Reduzidos a isso nós nos fazemos gente
E a gente finge que tá tudo bem e que tá feliz
E andam bicicletas, motocicletas
E caminhões caminham e você corre
E nada de voar, porque aí você cai.
É melhor tomar cuidado por onde você vai.



(Vai pela sombra, rapaz.)

Citando

"Vem, te faço um carinho, te toco mansinho,
Te conto um segredo ou te encho de beijo
Depois vou descansar, não vou te acompanhar
Espero que entenda e volte pra cá"

Te Valorizo, Tiê