domingo, 25 de setembro de 2011

Manifestos de Menina #7

Quando o amor rareava
eu me partia em duas
atravessava a ponte
a linha
e ficava imersa em água turva e fria
querendo que o sangue escorresse pra sempre.

Quando o amor rareava,
eu me refugiava
nos livros, nas palavras
que eram tão minhas
e de milhões de outros corações
solitários e fracassados.

Nunca lia poesia
porque preferia compô-la
e isso tudo parece estar tão distante no tempo
e no entanto
não faz nem um mês.

Mas parece ter sido noutra vida
que eu fiquei acorrentada naquela torre
uma torre caída sobre um lago
meu rosto pendendo da janela
meus cabelos irremediavelmente molhados pela água lodosa
minha cabeça jogada, eu afogada,
quando meu pescoço cansava.
Destino ditador. Torturador.

Isso tudo foi passando
algum sofrimento ainda assolava aqui
uma fome, um deserto
e agora é primavera,
luas, mil sóis.
Vento e folhas.

Só que de vez em quando
essa antiga personalidade
esse antigo eu, acorrentado nas frias pedras
me assalta
e todos à volta
estão correndo o risco
de ficarem tão perdidos quanto eu.

Quando o amor rareava
era em ti que eu pensava
As músicas que eu ouvia na torre
antes de te conhecer...
Eu sou tão menina!
E no entanto eu me sinto completa.
Ninguém quer entender isso.
Queriam ler meu sofrimento,
e agora só lêem amor correspondido.

E se faz aqui mais um de meus manifestos.
Desses tantos que são tão
"pensei e escrevi,
nem tem poesia aqui,
beijos."
Mas gosto de escrevê-los
dá bem a dimensão pequena
da minha cabeça oca
e do meu coração transbordante.

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