sábado, 18 de junho de 2011

Trecho de "Pandora", Anne Rice

"Passei horas evitando Marius. Eu nunca seria perdoada! Então fui para o jardim.
Descobri que ele estava sofrendo, e quando ergueu os olhos, percebi que tinha certeza
absoluta de que eu pretendia partir com Flavius. Ao ver isso, abracei-o. Ele ficou todo
aliviado e amoroso; perdoou imediatamente aquela minha "impulsividade extrema".
— Não percebe — disse eu, dando-lhe a mão — que adoro você? Mas você não
pode mandar em mim! Não consegue enxergar dessa sua maneira racional que o principal
aspecto do nosso dom lhe escapa? É a libertação da prisão dos conceitos de masculino e
feminino!
— Você não pode me convencer nem por um minuto — disse ele — que não sente,
pensa e age como uma mulher. Nós dois amávamos Flavius. Mas por que mais um bebedor
de sangue?
— Não sei, a não ser pelo fato de que Flavius queria isso. Flavius sabia tudo a
respeito de nossos segredos, havia um... entendimento entre mim e Flavius! Ele foi leal nos
piores momentos de minha vida mortal. Ah, eu não sei explicar.
— Sentimentos de mulher, precisamente. E você lançou essa criatura na
eternidade.
— Ele se une à nossa busca — retruquei.
Em meados do século, quando a cidade estava riquíssima e a paz reinava no
Império como não voltaria a reinar nos próximos duzentos anos, o cristão Paulo chegou a
Antioquia.
Fui ouvi-lo falar uma noite e voltei para casa comentando que ele era capaz de
converter até as pedras à sua fé, tamanho era seu carisma.
— Como pode gastar o seu tempo com essas coisas! — indignou-se Marius. —
Cristãos. Eles nem chegam a ser um culto! Uns reverenciam João, outros Jesus. Vivem
brigando entre si! Não vê o que esse Paulo fez?
— Não, o quê? — perguntei. — Eu não disse que ia entrar para essa seita. Só que
parei para ouvi-lo. Quem sai prejudicado com isso?
— Você, sua cabeça, seu equilíbrio, seu bom senso. Tudo isso fica comprometido
por essas bobagens pelas quais você se interessa, e a verdade sai francamente
prejudicada! — Ele só estava começando.
— Deixe-me contar-lhe uma coisa sobre esse Paulo — disse Marius. — Ele não
conheceu nem o João Batista nem o Jesus da Galiléia. Os hebreus o expulsaram do grupo.
Jesus e João eram ambos hebreus! Então Paulo agora está se dirigindo a todo mundo.
Judeus e cristãos, gregos e romanos, e dizendo: "Vocês não precisam seguir as
prescrições hebraicas. Esqueçam as festas em Jerusalém. Esqueçam a circuncisão.
Tornem-se cristãos."
— Sim, é verdade — suspirei.
— Essa é uma religião facílima de se adotar — disse ele. — Não é nada. A pessoa
precisa acreditar que esse homem ressurgiu dos mortos. E por falar nisso, pesquisei os
textos disponíveis espalhados pelo mercado. Você pesquisou?
— Não. Para mim é uma surpresa o fato de você ter achado que valia a pena
gastar seu tempo com essa pesquisa.
— Nos escritos daqueles que conheceram João e Jesus, não vi Jesus nem João
dizendo que ressuscitarão dos mortos, ou que todos os que acreditarem neles viverão após
a morte. Paulo acrescentou tudo isso. Que promessa sedutora! E você devia ouvir o seu
amigo, Paulo, a respeito do Inferno! Que visão cruel — os mortais imperfeitos serem
capazes de cometer pecados tão deploráveis que os condenariam ao fogo por toda a
eternidade.
— Ele não é meu amigo. Você exagera os meus comentários. Por que isso o afeta
tanto?
— Já lhe disse, eu me importo com a verdade, com o que é racional!
— Bem, há uma característica desse grupo de cristãos que você não está
percebendo, um modo especial que eles têm, quando estão reunidos, de compartilhar um
amor eufórico e de acreditar numa generosidade maior...
— Ah, de novo não! E você vai me dizer que isso é bom?
Não respondi.
Ele voltava aos seus afazeres quando falei.
— Você tem medo de mim — eu lhe disse. — Tem medo de que eu perca a cabeça
por alguém de fé e abandone você. Não. Não, não é isso. Você tem medo de ser
arrebatado. De ser de alguma maneira seduzido a voltar para o mundo. Aí você não vai ficar
mais aqui comigo, a observadora romana superior reclusa, mas vai voltar, buscando os
confortos mortais do companheirismo, da convivência, da amizade com os mortais,
querendo que eles o reconheçam como sendo um deles quando você não é!
— Pandora, você não está dizendo coisa com coisa.
— Guarde seus segredos nobres — disse eu. — Mas receio por você, isso eu vou
confessar.
— Receia por mim? E por quê? — perguntou ele.
— Por que você não percebe que tudo morre, tudo é artifício! Que nem a lógica
nem a matemática nem a justiça têm um significado último!
— Isso não é verdade — disse ele.
— Ah, é, sim. Uma noite dessas você ainda vai ver o que eu vi, quando cheguei a
Antioquia, antes de você me encontrar, antes dessa transformação que deveria ter varrido
tudo que encontrasse pelo caminho.
"Você verá uma escuridão — prossegui —, uma escuridão tão completa como
nunca existiu nem existirá na natureza em nenhum lugar sobre a face da terra! Só a alma
humana é capaz de conhecê-la. E ela não tem fim. E faço votos para que quando afinal
você não conseguir fugir mais dela, quando perceber que ela o envolve completamente,
que a sua lógica e a sua razão o ajudem a enfrentá-la."
Ele me olhou com o máximo respeito. Mas ficou calado. Prossegui:
— Resignação não vai lhe fazer bem nenhum — disse eu — quando essa hora
chegar. Resignação exige vontade, e vontade exige decisão, e decisão exige fé, e a fé
exige que haja algo em que se tenha fé! E toda ação ou aceitação exige um conceito de
uma testemunha! Bem, não há nada, e não há testemunhas! Você ainda não sabe disso,
mas eu já sei. Espero que quando descobrir, alguém possa consolá-lo quando você estiver
vestindo e arrumando aquelas relíquias monstruosas lá embaixo! Quando você estiver lhes
trazendo flores!
Eu estava furiosa. Continuei:
— Lembre-se de mim quando chegar essa hora, se não para ser perdoado, pelo
menos para ter um modelo. Pois eu vi isso e sobrevivi. E pouco importa que eu tenha
parado para ouvir Paulo pregar sobre Cristo, ou que eu faça coroas de flores para a Rainha,
ou que eu fique dançando feito uma idiota ao luar no jardim antes de o dia raiar, ou que eu...
que eu ame você. Pouco importa. Porque não existe nada. E não há ninguém para ver.
Ninguém! -Suspirei. Estava na hora de terminar.
"Volte para a sua história, esse monte de mentiras que tenta associar os
acontecimentos a uma causa e um efeito, essa fé absurda que postula que uma coisa seja
conseqüência de outra. Vou lhe dizer, não é assim. Mas é muito romano de sua parte achar
que é."
Ele estava calado me olhando. Eu não sabia dizer o que lhe ia na cabeça nem no
coração. Então ele perguntou:
— O que quer que eu faça? — Ele jamais pareceu tão inocente.
Com amargura, eu ri. Não falávamos a mesma língua? Ele não ouvira nem uma
palavra que eu dissera. No entanto, não me deu uma resposta, apenas fez essa pergunta
simples.
— Está bem — eu disse. — Vou lhe dizer o que quero. Quero que você me ame,
Marius, que me ame, mas me deixe em paz! — protestei. Eu nem sequer refletira. As
palavras foram saindo. — Me deixe em paz, para que eu procure meus próprios confortos,
meus próprios meios de continuar viva, pouco importa o quanto esses confortos lhe
pareçam idiotas ou sem nexo. Me deixe em paz!
Ele estava ferido, tão perplexo, com um ar tão inocente apesar de tudo.
Tivemos muitas discussões semelhantes pelas décadas afora.
Algumas vezes, ele depois me procurava; começava a tecer longas considerações
sobre o que estava acontecendo com o Império, como os imperadores estavam
enlouquecendo e o Senado estava sem poder, como o próprio progresso do homem era
único na natureza e algo a ser acompanhado. Como ele precisava da vida, achava ele, até
a vida acabar.
— Mesmo que não reste nada a não ser um deserto desolado — disse ele -eu
quero estar lá, para ver aquelas dunas todas — prosseguiu. — Se só restasse uma única
lâmpada no mundo, eu haveria de querer ficar olhando para a chama dela. E você também.
Mas o teor e o calor das brigas nunca mudaram muito.
No fundo ele achava que eu o odiava por ter sido tão duro no dia em que recebi o
Sangue das Trevas. Eu lhe dizia que isso era infantilidade. Não conseguia convencê-lo de
que minha alma e minha inteligência eram muito grandes para um ressentimento desses, e
que eu não lhe devia explicação alguma a respeito de meus pensamentos, palavras e atos.
(...)
Às vezes passávamos noites a fio sem falar para não brigar. Entre nós sempre
houve uma afeição física — abraços, beijos, às vezes apenas o enlace silencioso de nossas
mãos."

RICE, Anne. Pandora. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. pp. 179-183

Identificação extrema.

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