sábado, 28 de maio de 2011

Da dança, da poeira e da encenação

Caiam, jovens - sua dança termina aqui!
Corre a donzela do caçador
Um vale denso e impenetrável à frente, algumas árvores -
e todas as folhas voam na mesma direção.

Pés descalços tomam consciência da madeira do chão
e os longos cabelos espalhados
na poeira se misturam e sujos se esparramam
Nós, loucos como aquele que lhe observa.

Olhares - que encontro!
"Mas é você?", eles parecem dizer
E com graça faz um gesto de pantomima
"Sim, nobre senhor, sou eu".

A natureza lá fora, as gramas e os tambores
E todo o céu que lhe sorri
e o vento que lhe canta novidades ainda ocultas
e os olhos deles sempre dizem algo.

E a dança...

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Filhos de Éris

Jura, e as palavras, belas,
Escorrem-lhe da boca.
Caem doces, escorrendo pelo queixo da amante,
Que o rapaz muito gosta de lamber.

Passa, o percurso molhado da palavra,
Percorre as d'antes doces frases ditas
Que agora desfalecem tão amargas,
Escorrendo do pescoço ao peito nu.

No colo delicado que se inunda,
Maculado pela dor do juramento quebrado,
Vê-se a cobertura enegrecida
Da fome, da dor e do engano.

Os fluidos dos belos verbos seguem
Pela boca em que foram ditos esquecidos
Mas no ventre onde já escorre o discurso
A desordem se alastra e se enraíza.

As raízes penetram a pele fatigada
Instalam-se fecundas em solo úmido
Emaranhadas, infeccionando a casta derme
Arranham e provocam superfícies intocadas.

Da flor branca o combate se apodera
Como fosse um campo de batalha
Na derrota o puro receptáculo se rompe
Massacradas pétalas disputam o chão.

Voltam doces as palavras graves,
De engano e pólen mesclam-se em frases.
Quentes gotejam dos lábios generosos
Que bruscos abocanham o seio despido.

Desprotegido colo, marcado pela dor do verbo
Torna à inércia fria da perjura
Da bela morte a vívida lembrança, enfim,
Seu corpo vira território da discórdia.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Canção às 10 da manhã

Ah, se eu pudesse mudar
O caminho do mundo
Meu caminho pro fundo
Profundo...

Ah, se eu pudesse fazer a saudade chover
Me fazer escorrer
Do céu

Vai, faz uma casa no vento
Pra mudar o meu tempo
Pra fugir do momento

Vai, faz uma casa de vento
sua casa
guardada do tempo que me deixou
no fundo






E eu vou gravar isso.
(E a letra tem continuação, mas ainda não sei qual.)

sábado, 14 de maio de 2011

Afrodite Urânia

Porque deuses também sabem fazer mal.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Entranhas

Chorando bêbado na rua
Cantando - "não me deixe agora*!"
Gritando para que o mundo saiba
que sua alma se quebrou e está nua.

Vou me virar do avesso.
Entranhas espalhadas pelo quarto.
Quem sabe assim aconteça alguma coisa.

Visceral. Intrínseco - vem do fundo.
Eu ouço as vozes
"E eu sei a verdade!", é só o que você diz.
Foda-se, você não sabe de nada.

Para em frente a um poste.
A luz jogada na cara dele;
as lágrimas jogadas de seus olhos
e ele todo jogado, correndo, caindo.

"E eu sei a verdade!",
e no entanto ela te faz beber tudo isso aí
tudo o que você encontra
e essa verdade te faz correr na rua
e cantar desafinado
e deixa tua alma toda nua.

E as minhas entranhas...


* Música "Don't leave me now", da banda Pink Floyd, em seu álbum intitulado "The Wall".

domingo, 8 de maio de 2011

Alemanhã

Olhos azuis muito brilhosos, óculos de lentes grossas e armação antiga. Uma camisa branca, sapatos marrons. Riso fácil e a palavra "humildade" escrita na testa enrugada.
Despeço-me daquela figura pura. Ele era puro, mesmo que os humanos nunca o sejam. Ele era, naturalmente, humano, mas contrariava a natureza original da espécie.
Rispidamente eu saio. E demoradamente penso.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O mudo nunca foi (per)feito.

Certo. São sete da manhã. E isso é bom.
O sono me deixou. O frio entra pela janela. E isso é bom.
O mudo nunca foi (per)feito. E isso é bom.
E tudo foi desfeito. E isso é bom,