sexta-feira, 29 de abril de 2011

Black Kashmir *

Voltando para casa. Uma reminiscência de álcool na boca, mas muito pouco, pois foi pouco o que bebera. E o sol. O sol e o céu e as nuvens cor-de-rosa e laranja.
O céu vai mudando. Vai do amarelo para o laranja, passa pra tons de rosa, fica roxo, e então frio e azul. Depois fica bem escuro, mas com pontinhos brancos brilhosos que, dizem, são as estrelas. Eu nem sei mais.
Como deveria ser o sabor daquelas nuvens? Seriam elas agridoces? Ou salgadas? Difícil pensar em nuvens salgadas...
O céu como uma tela. Uma tela negra. Feita de kashmir.
Tecido salpicado de brilho. O céu como uma tela. No caminho para Kashmir.
As coisas são puxadas e repuxadas como os fios da colcha de outrora. O novelo que dá voltas e nós, e nada é previsto, e se transforma nessa tela. O tempo se deforma, ele corre e se alarga e preenche tudo. O tempo me preenche. E ele não significa o que significou outrora, e nossa relação mudou gradualmente, mas eu senti a mudança como um soco na cara. Eu nunca tinha corrido. Eu nunca tinha tido que correr. E agora...
E tudo que precisa ser revelado parece estar lá na frente, em Kashmir.
Eu vislumbro o horizonte no meio do torpor e tudo que vejo é o limite entre areia infinita e céu.
O céu como uma tela. Uma tela negra. Feita de kashmir.
Pergunto-me se esta verdade me aguarda lá na frente. Ou se eu a perdi em algum lugar. Devo estar perdida no deserto, perdida no caminho... Meus pés descalços movem-se sobre o solo arenoso e seco. Não sei se chegam a sangrar porque minhas forças não permitem que eu olhe pra baixo. Se eu o fizer, eu caio, ou pior - desisto. Meus pés. Eles dóem e ardem. Posso sentir o sangue saindo deles, posso sentir a areia grudando nos ferimentos. Atrevo-me a olhá-los.
Tontura. Queda. E o céu logo acima. Tão perto...
Levanto. O sol escaldante me faz pingar de suor. Minha roupa em frangalhos se arrastando pelo chão rachado.
O chão e o céu tão perto. O céu. Como uma tela. Negra e de kashmir.
Voltando para casa. O céu como testemunha. Minha casa em Kashmir.
Eu estive cega por muito tempo. E o que ficou? Bombardeios de lembranças. Que diabos era aquilo? De que era feito? Não lembro. Sei o que era. Pulsante. Era pulsante.
E o céu gira. Brilho de estrelas no preto do além e um cataclismo. E gira, e a espiral, e gira, e, Deus!, eu vou ser sugada por isso tudo!
O que era? O que era aquilo? De que era feito? Tudo que eu pensava que era, e não foi, e foi tarde.
E o céu, ah! O céu como uma tela. Uma tela negra. Feita de kashmir.
Tecido salpicado de brilho. O céu como uma tela. No caminho para Kashmir.
Não deixou carta, não deixou mapa. Eu voei. Voamos. E fui largada aqui. No fim, meio ou começo do círculo, o círculo que é o caminho. E minhas mãos não me levam a lugar nenhum. Todas as imagens, todas perdidas. O céu negro derramou-se sobre elas. As imagens chovidas. Enxovalhadas, despidas, vomitadas.
O céu cospe em mim. Ele me machuca. As gotas caem e parecem as estrelas me queimando. Elas me castigam. As gotas querem me matar. Eu quero me matar. Tende piedade de mim! O céu derretendo! Onde estão vocês?
E meus pés, meus pés tocam o céu. Feito de kashmir.
Eu não consigo sentir. Nada. E eu chorei, como chorei. E as lágrimas se juntaram a isso, essas gotas, esses pingos, esses riscos de chuva. Chuva cuspida. Pingos-risco. Pingos-traço.
A tela. A tela cuspida. Respingada. Tudo que poderia ter sido. Tudo que foi. Tudo que não será.
A tela. Derramada. Negra. É o céu.
O céu como uma tela. Uma tela negra. Feita de kashmir.
Tecido salpicado de brilho. O céu como uma tela. No caminho para Kashmir.


* Duas músicas que amo. Kashmir (Led Zeppelin) e Black (Pearl Jam).

1 comentários:

Ana Melisa disse...

Das musicas...amo as duas.
Do texto...amo tudo. Amo vc.

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