sábado, 19 de março de 2011

Epopéia Matrimonial

A luz fraca da lâmpada se despejava sobre seus cabelos soltos.

Eram sete da noite e ela estava grudenta com o suor. O calor a deixava enjoada. Sentou-se no chão frio e aproximou o ventilador de si. O ar estava imóvel lá fora. Seus braços nus pousaram no piso e um arrepio percorreu-lhe o corpo, e a penugem dourada de sua pele se eriçou.

Sentia-se cansada e ultrajada. O casamento valeria aquilo tudo? A velha quebrara a perna, pois bem. Tivera um acesso de raiva, contavam os vizinhos. Mas seus filhos acreditavam que ela caíra.

Sogra. Esta palavra por si só carregava uma aura agourenta. Ela só não imaginava, quando se apaixonou por ele, o marido, quando ele viajara para sua cidade e passara por ela na festa de São João, com suas barraquinhas de pipoca e maçã do amor, com suas danças, os vestidos e chapéus todos, as brincadeiras e os copos e bandeirolas de diferentes cores, que a mudança para outra cidade, numa região completamente diferente do país, faria dela uma mulher casada com uma filha linda - e uma sogra louca.

Era velha essa sogra, muito velha e maltrapilha. Tinha dinheiro suficiente para sustentar-se e ainda dava alguma ajuda financeira aos netos e a um dos filhos, que fora morar no Rio Grande do Sul, que pescava e mal podia sustentar-se. Religiosa fervorosa, mas cheia dos próprios dogmas ininteligíveis e inventados em sua mente doentia, ela atormentava todos a seu redor – filhos, netos e, principalmente, as noras, mesmo aquela que se recusava a falar-lhe um cumprimento que fosse.

Dava dinheiro a todos eles, isto era fato. Mas que era esta ajuda comparada ao dia que passara a nora, limpando a urina e o corpo daquela senhora maldosa?

Ela matara muitos gatos ao longo da vida. Cachorros também, por que não? Filha de um alemão violento, a única dentre as filhas e os filhos que era capaz de enfrentá-lo, a velha, quando ainda não o era, nadava até as pequenas ilhas que se via da areia da praia e voltava, Corria atrás de homens feitos de facão na mão, ameaçando-lhes de morte caso entrassem em seu terreno novamente. Desfazia negociações que o marido acertava sem consultar-lhe, e assim viviam pobres, os quatro filhos apanhando e sendo criados cheios de medos e inseguranças, vindo a se tornar maridos machistas, porém disfarçados de uma mansidão que por muito tempo enganou suas esposas – e a filha de um deles.

Deitada o chão de seu quarto, chorando baixinho, humilhada, cansada, uma mulher que estudara muito. Tinha um doutorado nas costas, mas e aí? Quando pensava no casamento, quando pensava naquela festa de São João, nos anos que passou em paixão, pensava “Deus, como eu era apaixonada” de uma forma tão surpresa... E a sobrinha ficava apavorada com o que aquela tia emprestada agüentava vindo daquela velha.

Ali deitada no chão do quarto, o ventilador rodando e fazendo barulho, pensava na filha e na própria mãe. Pensava se não voltaria à terra onde nasceu, a terra quente e seca do nordeste amarelo e laranja que amara um dia, mais do que amava seu marido agora. Onde era feliz e onde fora feliz com seu futuro marido. E agora...

1 comentários:

Tainah Lunge disse...

Maravilhoso, me apaixonei!

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