quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Alice

"In this world nothing's real
All you see just happens in your head
Just like a dream
A very long night (...)"

Emilie Simon.



E eu pensei que as bolhas e as colheres
que voavam ao meu redor eram de verdade
mas o que elas eram era só poeira e moscas,
e havia gente morta na mesa de chá.

Olhei pras minhas mãos cheias de sangue
corri em círculos a sala toda
"Mas que sala?, isso é um bosque!",
a lua veio me dizer sorrindo,
uma boca pairando no ar a me sussurrar verdades ameaçadoras
suprimindo minha bondade.

O morte veio se despedir de mim de novo
eu pintei a boca dele de vermelho, mas não com batom.
Passei o mesmo sangue nas minhas bochechas, aquilo não era blush
e nem tampouco meu sangue por baixo da pele me enrubescendo.
Era o sangue deles ali na minha cara.

Eu fiz uma trouxa com a toalha de mesa e todas as xícaras
o que sobrou dos bolos e as sobras de cigarros.
Eu amarrei forte e pisei bem em tudo, numa dança macabra.
Eu joguei tudo próximo a uma árvore, junto com os corpos.
As almas já estavam amarradas ao morte, que me observava, paternal.

O fogo lambeu pernas, xícaras, veneno, facas.
As chamas consumiram farelos, migalhas e restos.
Eu peguei uma fruta de uma árvore qualquer
e me sentei numa cadeira, assistindo o fogo dançante tamborilar sons na madeira
e eu me transformei em pássaro pra procurar mais convidados
pro chá das cinco nos meus domínios.

Caminho tresloucado

Pior que amar e não ser amado
é ser amado e não amar
alguém que sabemos ser
mais que um gigante no campo florido.

Aí nos pegamos pensando
Nas vezes que choramos e que as estrelas pareciam nos oprimir
E agora as portas se materializam abertas nos lados do caminho
Te desviando, te dando mil chances de se redimir.

O caminho ladeado pelo campo florido
As pedras doces de uma terra de sonhos
Os mundos paralelos ao alcance da mão
Mas a única coisa que se vê são versos lá no final.

Sua maior pretensão e seu maior objeto de desejo
A poesia supera tudo, mesmo a sua vida
E parece que esta só vale a pena se for feita de elegias,
Sonetos e pequenas rimas,
Todos juntos compondo afinal o épico do nascimento até a morte

De uma poetisa que era só uma menina
Com mil demônios correndo atrás
Com mil folhas voando
Com o cabelo bagunçado, a expressão tresloucada.

E ela se vai e se embaraça nos fios que ela própria tece
Pra depois queimar tudo, ensandecida
Pra depois ficar tudo branco, uma cegueira,
Chegando perto de onde brota a cerejeira
E caindo cada vez mais no buraco que é esse caminho
Por alguns versos, e um ou dois copos de vinho.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Gato

"Canalha já é demais", ele disse, e eu tive que concordar. Afinal, dizendo aquilo com aquela cara de ofendido, não tinha como discordar que, de fato, se ele se incomodava com o adjetivo, não tinha como chamá-lo assim. Então eu me virei e fui embora, pra outra fuga, em palavras, compulsiva por vírgulas.

Achei que aquilo nas nuvens éramos nós brincando, mas eram só os formatos me pregando peças de novo, como quando eu olhei pra lá e vi algodão pontilhado de estrelas... Mas era dia claro e não havia lua.

Virei-me novamente, e ele estava lá de novo, sorrindo. Era como o gato da Alice, mas ele aparecia quando eu queria, ao contrário do bichano da menina loira. E eu não era loira – ainda que fosse menina.

Meu corpo tremeu e eu acordei, e então eu passei pelos cômodos da casa, observando os que dormiam. Meus irmãos pareciam lindos no sono, e eu queria sair pra rua. Quando meus pés descalços tocaram a grama, uma percepção gigantesca de que eu fazia parte de algo tomou meu corpo, e eu saí dançando sob a lua e parecia que eu poderia tocá-la. Eu, que nunca fizera parte de nada. Eu, sempre alheia.

Acordei novamente. Já não tão plena, já não tão fazendo parte, já mais alheia, jamais a mesma. Voltei a dormir, pra ver se eu tinha a sorte de sonhar com algum gato.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

"Cuidado com a mulher de Escorpião."
Ora, pra ser perigoso basta ser humano.

Eu, pequena

O céu não mostra a lua
poucas estrelas aparecem
mas eu estou tão assustada
que eu mal poderia olhar pro céu por muito tempo.
Olhar tão pro alto me dá uma vertigem invertida,
como se doesse pensar em ter o alto,
como se eu tivesse medo de uma queda ao contrário.
Eu, sugada pelo céu.

"Lost but now I am found",
não faz sentido pra mim.
E não estou falando de me perder
em beijos e abraços, ou nas palavras.
Estou falando de me perder em mim mesma.
Sou um furacão sem olho.

Parei.
De repente eu me senti sã.
De repente eu me senti vazia.
Fiquei pensando então nas notas e palavras
que não soam corretamente.
Pensei em todas as coisas que já ouvi
e que prefiro ignorar.

Eu chego ao fim da linha várias vezes ao dia.
Eu mal me levanto da cama,
palavras giram ao meu redor.
Minha cabeça dói, eu vou só ficar aqui
e pensar em como eu sou pequena.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Pequena oração pela chuva

Chuva, venha me lavar.
Todo esse céu azul de calor abafado
estava me sujando.
Leve embora minhas idéias.
Deixe só o que for bom.
Amém.

sábado, 10 de dezembro de 2011

do pensar

Às vezes eu fico pensando
Se às vezes eu não penso demais
Mas é só porque eu sinto e porque não quero sentir.
Às vezes eu não quero pensar,
E sentir apenas.
Porque isso me deixa leve,
Mas não se pode ser leve o tempo todo.
Às vezes o peso é sanidade.
Mas eu queria tanto ser louca...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Rosa a salvo

Qual é a tua paranóia?
Saia, SAIA, saia correndo daqui!
Qual é teu tique nervoso?
Uma piscada bruta e uma virada de pescoço.
O céu é vermelho, o céu é vermelho!
E está caindo.

Nuvens gotejando sombras sobre nós e nosso caminho.
Não são árvores lá ao fundo?
São elas prisões bonitas para espíritos que passam pela floresta
sem nunca serem convidados, eles não são daqui.
Eles passam por aqui e ficam grudados na seiva
e os galhos são como celas.

Eu fico aqui enraizada
uma rosa que floresce só uma vez ao ano.
Ninguém dá nada por mim, galhos finos,
e quando surjo, vermelha e gigantesca, grotesca,
faço caírem borboletas ao meu redor.
É um duende que me mantém a salvo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Narcisismo

Depois de um tempo dormindo, acordou com pensamentos diversos vagando na mente pesada. Entre um "foda-se" e um "puta que o pariu" aqui e ali, de repente achou todo mundo deprimente, e, olhando pra si mesma, quis ter certeza de que não estava parecendo amarga ou deprimida. Olhou no espelho. Gostou do que viu. Sorriu pra moça ali espelhada, tentando seduzir o reflexo. Se não fosse ela mesma, teria se beijado, "na boa". O próximo passo era sentir nojo da própria audácia, e o terceiro era socar a parte de si mesma que tinha esse nojo. (E Bob Dylan continuava cantando nas caixas de som, falando sobre respostas ao vento...)

Quando se deu conta de que eram duas e vinte da manhã e que o sono que sentia não era suficiente pra fazê-la voltar pra cama, tentou fazer a retrospectiva do dia. Coçou o braço e sentiu uma dor estranha ali, dor de hematoma. Tocou novamente pra ter certeza. Definitivamente, devia haver alguma marca ali. Uma leve marquinha de dentes. Ela sabia exatamente quem tinha feito aquilo, só não lembrava em que momento da tarde.

Horas antes, tinha estado no mesmo bar de sempre com os mesmos amigos de sempre e a mesma bebida de sempre - a não ser por um copo diferente naquele dia. Mas ok, nada de estragos, só o costumeiro estado "off" do qual ninguém tomava conhecimento porque ela o dissimulava bem com risadas escandalosas.

Ficou imaginando como seria bonito se existissem peixes de lantejoulas e como bolhas eram bonitas. Não sabia por que lembrara-se das bolhas, o fato é que elas estavam em sua mente. Talvez fossem as bolas de sinuca. Ela gostava mais das claras. As cores. O verde manchado da mesa, um corpo em seu colo. Ela o conhecia bem. Uma ou duas mordidas naquele corpo. Será que a mensagem teria sido passada? Ele foi embora pouco depois.

Ficou tentando achar qual era a palavra praquele amor próprio exacerbado que a fizera se encontrar consigo mesma no espelho, e, ao lembrar-se dele, deu título ao presente texto. O referido texto foi postado sem nenhuma vergonha de ser o que se dignou a ser no momento em que ela começou a falar de si mesma: um manifesto de auto-confiança - e quem quiser chamar de auto-afirmação, fique à vontade.

domingo, 27 de novembro de 2011

Tédio blue de imaginação.

Ela acordou blue, numa chata marola mental. Não chegava nem mesmo a se sentir irritada, apenas insatisfeita consigo mesma naquele dia blasé. Ela estava blasé. Blue blasé. Très sombre, très sombre.

Ela era a única pessoa que ela mesma conhecia que não queria um carro, a única que se sentia assim naquele dia, "aparentemente sem motivo", diriam os que a vissem daquele jeito. "Tão deprimida, tão pra baixo...", que mentira!, ninguém a via assim. Ela já era automaticamente uma máscara ambulante.

Nenhum livro na estante parecia interessante, nenhum filme em cartaz a faria se distrair, nenhum trabalho da faculdade lhe captaria a atenção. Ela estava quase entrando em colapso. Neste momento, a indiferente expressão de tédio dava lugar ao mau humor que lhe retorcia a testa. De sobrancelhas franzidas, não poderia escrever nenhum poema.

Então se ateve aos fatos. “Ok, você não pode mudar nada. Mude você, então.” Com uma flauta tocando, seu som doce e magnético saindo pelas caixas de som do frio computador tecnológico, um som quente e mágico, como brumas, como bruxas, como magia.

Imaginou pois um cenário, e compôs músicas na sua cabeça imaginativa. Viu em seu cérebro ela mesma sentada ao piano, os dedos tocando as teclas, primeiro sem produzir som algum, apenas sentindo a textura das teclas de madeira sob a pele – achava crueldade teclas de marfim -, chegava mesmo a sentir o cheiro da madeira. Não só a do piano, mas do cômodo onde ele ficava.

Sorrindo, imaginou o sonho que lhe tecera certa vez em comentários certo amigo, e pôs-se então a tocar, em sua mente, uma doce melodia motivada por paixões internas e longa melancolia que desabrochava como flor de cerejeira em seus olhos.

Voltou do devaneio perturbada, ouvindo a mesma flauta que a fizera pensar no sonho. Um sonho que ela mesa não podia ter. Ela, bruxa renegada das visões do sono, apenas podendo ver o que sua imaginação lhe contava. Era como se essa imaginação tivesse vida própria, influenciando seus dedos, seus olhos, seus ouvidos – sua pele, quando ele a tocava. Aquilo não poderia de fato existir, ela estava sonhando, sonhando, sonhando...

Caiu novamente do devaneio. Imaginou-se na presença de um fantasma, um espírito, um duende, talvez. Como se estivesse tentando fazê-la louca, mas ela estava ali, ali!, sentada em sua cadeira em frente à fria tecnologia séculovinteeumana do computador que a aproximava e a sua poesia do mundo que nunca poderia entendê-la.

O tédio se dissipou.

sábado, 26 de novembro de 2011

Casulo.

Minha face enrubescida,
eu, um ponto de (des)equilibrio.
Eu, um ponto-centro-de-espiral,
uma pequena célula nesse tecido.
Teço as grandes e finas linhas
até formar esse casulo estranho e nebuloso
ele brilha e pulsa e me faz criar.
Crio, e então as palavras pulam de minha boca
sem que eu as fale, na verdade
porque eu perco todas elas e minha voz se rompe
irrompe, em gritos lancinantes
de fascinante êxtase que se eleva
aos céus - ou é só o teto? - deus!, ele está me observando.
Quando eu me vi
eu tava ali, sentindo-o.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

#rascunhos (1)

Eu vejo esses beijos todos, mal saindo do mundo paralelo. Ainda inebriada, como tivesse bebido um feitiço, ando no limiar entre este mundo e o mundo das fadas. O beijo me traz para o mundo humano.
Minha visão como que perpassada de neblina - eu vejo um quadro embaçado. Já estou tão acostumada que eu sito como se uma agulha de anestésico se infiltrasse no meu braço: eu não sinto mais. Não sinto mais a quebra brusca de atmosfera. Não sinto mais o puxão da terra, sua trágica gravidade. O que antes me atingia em cheio no peito começou a não mais doer. Eu não sinto mais. O baque é surdo. O baque não me derruba mais. Eu sinto quando ele vem, e penso "isso deveria ter-me feito cair", mas eu não caio.
(...)

sábado, 19 de novembro de 2011

Filhos de Eros

Uma teogonia se faz
nos braços desse amante.
O tecido que cobre os ossos
branco e sedoso
forma um painel a ser escrito.

Ela está hipnotizada, arrancando os cabelos.
Fiando com suas veias, a donzela abre o braço
Dele saem fios rubros de sangue e de flores.
Rosas gigantescas vão surgindo, brotando de sua pele.
Desafiando a paciência do Deus.

Pagão, ele nunca se cansa,
e volta para cantar com seus acordes divinos, diabólicos.
As ondas vêm de dentro.
Se apossam da donzela e seu pacato lago.
Urros!, são os deuses brincando.

Ela pega seus fios-de-veias, suas rosas caninas.
Ela late e uiva pra lua. Ela morre, com sangue no chão.
Acorda. Aguarda. Não está mais em sua cadeira, fiando.
Atordoada, permanece deitada, imóvel.
Aguarda. "Eu sei, eu sei."

O Deus finalmente acorda.
Observa a menina nua na pequena cama, os seios à mostra.
Dos cabelos espalhados e das rosas que outrora foram seu sangue
Todos os detalhes lhe caem sobre a mente com um baque
Atordoado ele se despe, e cai sobre ela.

Os devaneios que se seguiram fizeram-na quase sufocar.
A febre pingou-lhe da testa,
escorrendo lânguida e luxuriosa pelo pescoço e entre os seios
Dele também caíam gotas de precioso torpor
Colado em seu peito, fazendo-a gritar.

Foi pintando as costas dele de vermelho,
Com a boca aberta esperou que ele grudasse a língua ali.
E quando do silêncio dele brotou o êxtase,
Tão humano ele lhe pareceu, com mil palavras a gotejarem de seus lábios...
E ela calou-se pra ouvir ele lhe dizer dos segredos que, divinos, lhe envolviam.

Oníricas, as revelações nebulosas
De um homem que não era daquela terra
Fizeram-na compreender o mundo, a ele e a si mesma.
Ele se partiu em dois, fazendo dela mulher e louca.
Foi banido de sua casa teogônica.

Caído, o Deus não se importou.




Eu inventei palavras. Neologismo e liberdade poética, é essa a beleza.

Idiota.

Começou a chover fino na praia, e a areia aos poucos foi ficando manchada com as gotas, até que estava inteira escura. Eu via os raios, era como se eles estivessem encontrando o mar. Queria que eles me encontrassem. Eu não tinha essa sorte.

Eu fui ficando cada vez mais molhada da chuva, meus braços nus arrepiados, meu queixo batendo, e, no entanto eu não parava de andar, andar, andar... Na beira do mar horroroso, amedrontador. Eu odiava aquele mar, eu o amava, eu o temia.

Minha memória estava começando a me dar nos nervos. Eu fui à praia pra esquecer por algumas horas daquele cheiro. Eu vinha sendo uma inútil idiota e nada compreensiva nos últimos dias, uma vítima incompleta e amargurada das circunstâncias, uma garota estúpida.

Ser consolada. Eu não merecia aquilo. Eu não merecia nada.

Então eu fui praquela praia. Eu cheguei às pedras. Eu me atirei ao mar. Estava frio, revoltoso. Na minha mente, a revolta é quente. E, no entanto, aquela água horrorosa era a analogia perfeita à minha mente. Eu estava completamente amargurada. E a amargura se fazia em mim como uma fria revolta.

De repente eu me dei conta. Não sei nadar. Fiquei com medo de não sentir mais aquele cheiro.


É só que tem coisas que eu não vou falar.
Por que justo esse tipo de coisa eu tenho que ter em comum com outros? Queria não ser parecida com algumas pessoas. Eu vou enlouquecer, enlouquecer, enlouquecer...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Hoje (18/11/2011)

Tem uma toalha em cima da mesa
Tem um véu sobre um corpo morto
Tem eu no rigor mortis
Tem pele gélida.

Tem uma infinidade de cheiros
Tem um monte de roupa jogada
no chão, no colchão, na grama.
Tem grama, muita grama.

O dia começou com um som triste
e minhas notas soaram todas muito cansadas,
quase sussurrantes por cima do ar embaçado.

Um quarto pesado
Livre de nós, pesado de mim,
de minha tristeza e da minha bagunça.
Abri a janela.

Entrou no quarto um silêncio opressivo.
Deixei as coisas atrás de mim
da mesma forma como as encontrei.
Depois de meu sono sem sonhos, desordem.

(Eu não queria escrever tão inexpressiva.
Mas tem algo que ainda não engoli.
Alguma coisa ainda não se encaixa ainda.)

Triana, a mulher que assombrou um fantasma

- Diga o que está querendo - falei. - Você disse que queria me enlouquecer. Por que razão?
- Bem, você sabe - respondeu rapidamente, embora suas palavras fossem lentas -, estou confuso. - Falava com as sobrancelhas erguidas e um ar de fraqueza; era um jeito indeciso, mas calmo. - Já não sei mais o que quero! Enlouquecer você? - Abanou os ombros. - Agora que sei como você é, como você é forte, já não encontro as palavras certas. Talvez haja alguma coisa melhor a fazer aqui do que meramente fazê-la perder a cabeça, presumindo, é claro, que eu pudesse mesmo fazer isso. Sei que se sente superior a esse respeito, pois já segurou a mão de muita gente no leito de morte e viu Lev, seu antigo, seu jovem marido, viajar com as drogas acompanhado dos amigos dele quando você meramente bebia goles do vinho. Tinha medo das drogas, tinha medo das visões! Visões como eu! Você me assombra.

Trecho de "Violino", Anne Rice. (página 71)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Sorte

Eu cortei um ramo de uma árvore bem fininha
e prendi na ponta dos meus cabelos.
Nos meus sonhos, eles ainda são compridos
porque compridos eles revelam meu verdadeiro eu,
aquele que somente eu e você vemos;
uma pessoa de fortes expressões e olhos,
palavras que expressam tudo,
e no entanto uma fragilidade de ramo ao vento.

Cortei um pedaço de papel.
Eu escrevi nele um segredo, em um pequeno verso.
E eu o coloquei num receptáculo com algumas outras palavras.
O fogo lambeu as letras, e eu observei o fogo.
As cinzas eu joguei ao vento, e o ramo preso no meu cabelo se soltou.
Foi junto com nossas palavras ver o mar de perto
e eu me voltei de costas e fui descer as escadas do meu covil.

Cortei um pedaço do meu cabelo e pano vermelho.
Fiz cabelos e roupas pra uma boneca com que montei um cenário.
De uma caixinha pequena brotam libélulas de papelão colorido;
borboletas, grilos, coelhos e toda uma sorte cintilante de animaizinhos multicor.
Grudei num papel bem grande e deixei na parede.
Quando eu acendo o caldeirão, a luz bruxólica brinca sobre esses desenhos todos.
É quase tão bonito de ver
quanto teus olhos assim, deixando escapar por segundos
um menino que corre em campos verdes.

Saia Amarela

Hoje é dia de sol,
de saia amarela -
de se tornar obstinada.

Apego-me ao doce sabor da memória
ela que me é tão preciosa
e que me mantém viva, como fluido vital.

Tempo, está na minha cabeça.
Remodelo a vida, retraço o futuro,
leio as cartas. Eu sou as cartas.

Eu escrevo, eu traço linhas de fantasia e assim eu não me perco.
E pra todos aqueles que acharam que eu poderia me perder
o meu mais sincero "obrigada, idiotas".

Não teço a teia, mas tampouco vocês o farão.
E quando eu chegar com a minha saia amarela
é pela memória que eu estarei viva.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sonhos

Gelo, gelo, gelo.
Bailarina no gelo, um pescoço cortado,
a cabeça pendendo idiotamente pro lado.
Gire agora, desgraçada!
Quero ver você dançar.

Abro os olhos.
É o terceiro sonho macabro essa semana.
Que dia é hoje?
Passou-se uma semana?
Tem um homem no escuro.
Quem é você?
Você está me seguindo!

Eu sou sua irmã!
Pode sorrir agora.
Estúpido, esses olhos que me encaram...
Estúpido você!
Te odeio, te quero,
Te dou vida.
Te mato, diversas vezes.

A bailarina ensanguentada cai no chão.
Percebo que ela sou eu
Nunca confie em pesadelos.
A menina no corredor
também ela era eu.
E atrás dela, era a minha própria figura que gritava:
CUIDADO, CUIDADO! NÃO CHEGUE PERTO DA LOUCA!

domingo, 13 de novembro de 2011

Das cordas, da morte e do que eu era e sou.

As cordas amarradas em âncoras
gostaria que tivesse uma dessas nos meus pés.
Eu queria sentir a água machucando meus pulmões
queria sentir o sal me queimando as mucosas...

Eu morreria. Ou não.
Lutaria para viver com as chagas internas
por três dias agonizaria, e ia recusar toda a ajuda que me oferecessem.
Morreria sozinha. Já estou sozinha.
Está fazendo frio.

As flores todas morrem sozinhas em caixas com poemas.
E folhas cairiam sobre uma pedra fria.
O mar, o mar... Nunca antes me atraiu.
Nem ele, nem o tempo.
Estou louca. Estou... morta.

sábado, 12 de novembro de 2011

Haniat

Eu teci outro dos meus inúmeros mantos.
Peguei nuvens de algodão agridoce
e fiz linhas e mais linhas de amor e amizade.
Abracei você com meus braços grandes e fofos de massa de pão.
Você sorriu com dentes e metal,
esse sorriso de criança, e cantou comigo
que havia uísque na jarra.
Nós passamos por aventuras de imperadores e guerreiros,
lemos sobre trilhas de lágrimas e reinos destruídos.
Choramos interna e externamente
por almas perdidas há séculos,
e eu já ri de você e tu ristes do meu espanhol arranhado.
Na tua casa a gente comeu maçãs,
interpretando poemas mais velhos que nossos avós,
e depois disso continuou lendo histórias
e mais histórias sobre mulheres
cortejadas na Roma de Ovídio.
"Perfeito, meninas, perfeito."
O vento soprou sobre nossas cabeças diversas vezes
quando o silêncio se fazia
entre nossos papos sobre amores e poetas e desenhos.
Nossas mãos desenharam e traçaram muitos céus e palavras de estrelas.
Algumas confidências e pioneirismos compartilhados,
E o mesmo gosto por tatuagem e arte.
Você me entendeu quando precisei,
Te acolhi quando, naquele dia, você chorou pelo homem colocando calçamento.
És uma nobre mulher, e eu me constranjo, às vezes, por ser má.
Me sinto uma intrusa no teu céu de nuvens coloridas
E quando eu soube do teu dia de cobertores de lã e menta
Te apertei como se você fosse uma menina
que tivesse pulado pra ser mulher em segundos.
Mas você permaneceu menina. Linda como sempre.
Afinal, mujer, você não é tão pequena assim.

Da cidade, das famílias, da arte etc.

De inconstante e imprevisível
todo mundo tem um pouco.
Entre fotos de família e passeios à praia
a cidade vai crescendo pra dentro, a ponto de explodir.
Entre fotos de famílias de pais que tudo proporcionam,
a não ser caráter e poesia.

Arte. Eu nem sei mais o que é.
E se eu achar uma definição, ela vai acabar na minha vida.
Deixem que ela continue mágica,
sem academias a interferirem;
é só a alma que exala pelos poros do artista.
Compositor, poeta, desenhista, músico, que seja - todos gritam espíritos.

Entre pais sem paz e famílias destruídas,
que se dane o sangue, o coração não é feito só disso.
Esse coração que pulsa, eu pulsando sem veias
Eu pulso. Sem repulsa.
Que desgraça!, é um amor tão grande...!

Pela vida, certamente.
Pela arte, sem dúvidas.
Histórias contadas e recontadas, refeitas e destruídas.
Vou mastigar a História.
Vou comê-la no jantar e afogá-la com vinho.
Tem um Satã dançando no lustre.

Caímos.
Círculos com dedos, dedos circulando, traçando.
Sou recriada, o trabalho de Deus refeito em voltas,
meus traços redesenhados por ti.
Suspiro. Olhos fechados, corpo deitado.
Lágrimas aprisionadas.
Riso.

Que caia sobre nós a lua
Que se desfaçam as nuvens e ela venha zunindo.
Quando chegar aqui seremos absorvidos por ela.
Seremos a lua, querido, a lua!
A cidade... por ela iluminada, e nós aqui reclusos.

Aqui eu pulso.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Defeito de fábrica

De repente eu me senti forçada a escrever. De repente eu senti que poderia chorar. E não chorei.
Que bom. Nada de errado, então - a boneca não veio com defeitos.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Minha oração de estrelas

Caber e descaber de gostar descabido.
Cabide pra uma alma lavada
como roupa muito usada e esfarrapada
que precisa de remendo.

A vida vai retalhar teu espírito
e vai te fazer perder agulhas.
Você não vai conseguir amarrar nada
e as coisas vão ficar soltas pelo chão.

Quando a vida passar, vai dar a impressão de ser
uma colcha de retalhos
e vai ser tão bonita, e tão brilhante!
Tão colorida, e tão cheia de si mesma - cheia de vida -
e vamos estar todos juntos, chorando por nós mesmos
por nossas existências
tecendo um réquiem com nossas límpidas vozes

E eu vou cantar pra você
e pra quem mais quiser ouvir
Tudo o que eu tinha que dizer e não disse
e é tanta coisa, tantas notas e acordes pra me acompanhar...

Eu sou bruxa. E teci com meu tear um manto mágico.
Eu não vou estender ele a ninguém, a não ser que mereça.
E por enquanto só eu e minha loucura estamos aqui embaixo, protegidas.
E quando minha vida passar e for uma colcha
Alguém vai fazer com ela e meu manto uma sobreposição
e as fadas dos meus sonhos pregarão isso no céu, em algum lugar.

Serei muitas estrelas muito bonitas e brilhantes,
e vou iluminar os caminhos de quem quer que tenha palavras a dizer sobre mim.
Vou proteger aqueles que me deram pedaços de vida
pro resto da vida.

(Amém.)

Teclas Abandonadas

Muitas vezes ouvi falar no filme "O Piano". Minha própria mãe me falou muitas vezes dele, e eu sempre tive a curiosidade de assistir.
Um dia, no sebo, procurando livros da Marion Zimmer Bradley e maravilhada com os CDs de Pink Floyd a preços mínimos, um livro me chamou atenção. Era "O Piano", de Jane Campion e Kate Pullinger.
Coloquei na minha cabeça que aquele livro seria meu, mas por muitas vezes eu o deixei de lado, comprando outras coisas. Mas o livro permaneceu lá.
Um dia eu resolvi que o levaria pra casa, junto com o terceiro álbum de Led, um cd do Djavan e outro da Marisa.
Quando abri o livro e comecei a ler, indo pra faculdade, eu me senti tão identificada e tão plena ao ler aquela história, a história de uma mulher muda que sai da Escócia e vai para a Nova Zelândia com sua filha, para se casar com um estranho que abandona seu piano na praia, o piano que era sua voz, eu imaginei a devoção daquela mulher, sua tristeza e a música dela. Lacrimejei.
E hoje, lendo a página 91, encontrei o seguinte:

Naquela noite Alisdair estava em casa, lendo no quarto ao lado, enquanto Ada punha Flora na cama. Flora queria ouvir uma história, ela queria mais uma vez que Ada lhe falasse de seu pai.
"Eu lhe contei a história de seu pai muitas vezes", sinalizou Ada, sorrindo.
Flora nunca se cansava de ouvir o relato. A própria Ada não se incomodava de repeti-lo mesmo após tantos anos e um sem-número de razões, uma teia delas, para não fazê-lo. Ela jamais lhe revelara a história completa, mas criara algumas versões simples e reconfortadoras.
- Conte-me novamente - insistia Flora, acariciando o rosto da mãe, aproximando-a ainda mais perto da luz quente e dourada da vela. - Ele era um professor? - Ada concordou com a cabeça. - Como falava com ele?
"Eu nunca precisei falar", Ada sinalizou. "Eu escrevia meus pensamentos na mente dele, como se ela fosse um papel", suas mãos riscaram o ar.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Manifestos de Menina #9

The more you get, the more you need.

Pra ler o poema abaixo, sugiro que antes leiam esta letra: Ampersand - Amanda Palmer (com tradução)
e de preferência, ouçam: Ampersand - "Who Killed Amanda Palmer" Video Series: Part 3
Pra compreender a alma do texto (:





Eu sou de estrelas
e eu me coloquei num potinho de confeitos
Coloridas estrelas de pôr em cima do bolo de aniversário
doces e enjoativas
daquelas que não gosto de comer.

E eu estou ouvindo a mesma música vinte vezes,
mesmo que ela não diga exatamente como me sinto,
porque a alma dela é tão parecida com a minha
e eu realmente digo meu nome por aí.

E naquele dia quando eu fui embora e entrei no ônibus
tinha uns caras lá dentro mexendo comigo
e eu estava tão em outro mundo
que eu nem liguei pra qualquer contato físico.
Eu não sei se sou daqui.
E eu disse qual era meu nome.

E quando eu olhei pro céu a lua estava sorrindo.
Eu quis tanto chorar, e eu me senti como se precisasse de perdão.
É triste não saber o que fazer
mas agora estou mais calma, se quer mesmo saber
e eu começo a me repetir, meus temas são sempre os mesmos
me admira que alguém ainda queira ouvir o que tenho a dizer.
Mas agradeço, sempre, e sempre que posso sorrio
ainda que não seja minha maior vontade na maior parte do tempo.
Em alguns mundos eu posso sorrir mais verdadeiramente que noutros.

"Deitada na minha cama
Eu lembro o que você disse"
e eu sei que isso tudo não é uma farsa, sei que é real.
Meus problemas são reais dessa vez,
minha loucura parece estar se tornando também.
Eu andei desleixada. E desacreditada.
E eu fiz o que devia ser feito, me desculpe, eu fiz.
E eu preciso olhar pro céu e lembrar que hoje é primavera.
E que as flores ali fora cantam hoje.

Tem um pé de jasmim no jardim do vizinho.


(Por que eu ainda uso estrofes?)

sábado, 29 de outubro de 2011

Franzir

Subiu no ônibus.

Tinha nas mãos máquina fotográfica, um livro do Rimbaud e um casaco fino e roxo.

A saia longa de tecido fino e amarelo deveria ser segurada, mas as mãos ocupadas não puderam dar conta do pano e ela quase tropeçou ao entrar no ônibus. "Típico", pensou, e ensaiou um sorriso e um "boa noite" ao motorista, que retribuiu grunhindo. O cobrador também não estava com boa cara, apesar do sorriso dela. Pegar ônibus era sempre uma merda, mas ela nem ligava. Pelo menos tinha o que observar.

Os minutos e placas passavam, e ela franzia cada vez mais o cenho. Cada vez mais deixava pra trás os momentos passados e as risadas, e cada segundo que se esvaía na ampulheta a aproximava de si mesma. Triste e intenso confronto.

De passar por ruas e lojas ela já conhecia bem os caminhos. De andar no famoso Largo ela passava pelo Mercado e sentia o cheiro do peixe fresco nas peixarias, via algumas índias vendendo artesanato estiradas em esteiras de palha de um jeito abandonado e indiferente, enquanto indiferentes as pessoas passam.

É sempre assim, essa indiferença. Essa apatia. Essa poeira, esses pombos dos infernos que não saem do caminho. E o tempo matando todo mundo aos poucos, o ônibus que nunca chega quando se está adiantado. O amor que nunca chega quando se está cansado.

Só lhe sobrara o Sebo. Com seu vendedor de cabelos compridos e cacheados, e os CDs baratos, os livros a um preço baixo, mas a ela muito caros, e ela queria todos. E o tempo matando todos, queimando todas as páginas.

Comprou um pouco de MPB, um rock clássico, um Best-seller australiano, e foi pro terminal costumeiro de quintas-feiras, esperar o ônibus que nunca chega, como metáfora pro amor que nunca aparece, talvez só muito tarde na vida, como aquela massa de metal maldita que sempre chega no último minuto.

Sentou-se no banco e começou a ler a história do Piano. E quando desceu do ônibus já era a mesma pessoa de sempre, e a máscara só caía quando ela entrava no ônibus no fim do dia, fechando o cenho.

Tatuagem

There's a lady down the road.
And she's humming words on the whispering wind.
'Cause, she knows, with a word she can get what she came for.
And when she gets there, the forests will echo with laughter.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Extra-G

Eu tenho um amor que não me cabe. Não me culpe se isso te assustar.


domingo, 23 de outubro de 2011

Parafraseando a mim mesma e me reformulando

"Eu só queria um pouco de paz
Talvez a encontre
em algum lugar de mim mesma
sozinha de novo
onde tudo deve estar.

Tudo está em seu lugar quando não tenho ninguém.
Mas isso não significa felicidade."

(18 de janeiro de 2011)

Eu ainda quero paz. E continuo sozinha.
Por escolha. Eu sabia que seria assim.
Eu sou menina mas não sou burra.
E eu prefiro ter ninguém e a mim mesma em pleno poder
do que ter pela metade.
Não é questão de ser extremista
é questão de ser bruxa.

Hécate, me guarde.

domingo, 16 de outubro de 2011

Manifestos de Menina #8

Às vezes queria ser louca de fato.
Num espasmo de raiva eu jogo longe o porta-canetas.
Volto a mim e percebo que está só na minha cabeça
as canetas estão todas no lugar.
Aí você me pergunta "o que fazer com essa loucura?"
e é justamente por isso que eu tenho essas vontades de arremessos.

Eu vou é correr até voar e afundar no sol
quem precisa de asas de pena e cera?
Eu posso ir até lá com os amores que carrego aqui dentro
vou chegar no Astro Rei e, antes de morrer queimada
vou insultá-lo e cuspir nele.
E de preferência eu pego o tempo de porrada no caminho.

Os físicos vão rir do meu manifesto
e os religiosos ficarão bravos com o próximo verso
se eu pudesse eu faria Deus sangrar
por todas as veias possíveis.
Talvez eu fizesse as veias dele implodirem.
Ele merecia morrer de overdose.

Oh, por favor, parem com isso.
Eu só queria viver. É só isso.
Mas acho que estão tentando me sacrificar.
Vou me fazer boneca de pano
recortada em lençol, encostada num travesseiro na sua cama
E eu vou ser uma daquelas bonequinhas que têm um cheiro bom.

Assim eu não vou me machucar, e vou ficar por ali por bastante tempo
que é mais do que eu posso ficar agora
é mais que eu poderia aguentar, de fato.
Ia ser uma overdose. E aí eu seria Deus, não?
E, se eu fosse, eu me jogaria contra o sol,
e certamente não precisaria de asas de cera e penas.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Pra começar a noite.

"Boa noite. Bons sonhos"
Amém.
Mas eu acho que não vou sonhar.
Acho que eu tô vazando.
Meu coração vaza tinta preta.
Eu não queria escrever.
Não assim.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Dias Ruins

Dias quentes de andar no asfalto
o sol marca a pele de vermelho.
Eu só quero chegar em casa,
eu só quero chegar em casa.

Nem teus beijos me salvariam
eu só queria um piano de notas fortes
uma canção melancólica
com um rancor profundo de fundo
e o resto em danação.

Só eu e a música juntas
"E elas que se entendam",
diria o mundo.

Olhos de Outono

Como as estações de Neruda
Sorrisos de primavera
Lágrimas de outono
Folhas transparentes que caem dos olhos
Da confusão que é esse gostar
E o desejo de verão
Quente de uma noite
De ventania e cabelos de terra.
O cheiro de madeira
E o molhado de um inverno interno
Que de tão glacial vontade
Torna-se o querer mais fervente
Como quente vinho aveludando a garganta.
Quero cravo e canela pra temperar
Regar a álcool e me embriagar
Nessas cores todas desse mundo louco
Na poesia de ter tantas palavras a dizer
E tão pouco tempo pra materializar
O que com olhos e mentes se faz.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Lua sorridente

Você me cobrou outra poesia
pois cá estou eu enlouquecida
escrevendo sobre você
de sapatilhas vermelhas e bolsa idem.

Quantas vezes mais sairão de mim
poesias que te digam
que te amo e que sempre vou voltar?

Quantos poetas mais
vão cantar em seus escritos
o que parece só haver entre eu e você?

E se o céu sem estrelas
se nubla e não mostra a lua
eu trago do fundo da minha cabeça o teu sorriso pra lembrar
do dia que você mandou eu olhar pra lá
e quando eu vi era a lua crescente ali pra nós

Eu voltei meu rosto pro teu
e era você que me sorria
imitando a lua.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Pr'onde vai tudo?

As caveiras e as argolas
são os grilhões simbólicos
de alguma ideologia ainda por ser descoberta.
Talvez a aliança represente a morte.
Talvez as moedas espalhadas em cima da mesa
não estejam mais aqui na noite que virá amanhã.
E a tesoura de cabo vermelho que corta papel e cabelo
dá idéias de morte e de feridas
e de sangue rubro inundando o chão.

Espelhos que refletem luz na parede
que me mostram olhos que eu reconheço muito bem
às vezes eu queria que só o espelho me reconhecesse
que outros não me vissem
mas eu acho que não dá.
Acho que é melhor ser feliz com outros olhares
do que desejar ser invisível.

As coisas não se encaixam, você não prevê.
A vida. Novelo de lã. Novelo de lá.
Lá onde eu não mando, onde é mistério.
Onde é tudo o universo e o nada.
E alguma coisa e coisa alguma nos aguarda.
Pra onde vai todo o poema?


Sapatilhas Vermelhas

Uma menininha ficava ali em pé na varanda
ela olhava lá pro céu e via a lua que refletia a carinha dela
e quando a gata preta que ela tinha vinha miar nos pés dela
se esfregando daquele jeito lânguido que só os gatos têm
ela era toda poesia indo alimentar o animalzinho
e aí ela ia deitar na cama com a colcha de retalhos
e dormia seu sono sem sonhos no seu travesseiro amarelo
e quando o sol brilhava da mesma cor no rosto dela de manhã
a cortina se desfazia e ela caía pro andar de baixo e tomava um café
e saía pro mundo ver
que ela tinha covinhas no sorriso e sapatilhas vermelhas.

Pela Sombra

Eu tava ali dançando no asfalto
Conexão Lago dos Cisnes
Enquanto no morro as pessoas continuam vivendo
e algumas pipas se soltando
se desprendendo de mãozinhas brincalhonas
e quando elas passam na frente do sol
meus olhos doem
porque a luz é tanta!, é como amor que transborda da boca,
como fumaça que se enrola na mão.

As xícaras ostentam café
e os olhos retém as letras
a mente trabalha sob pressão,
lê frases sem sentido de gente que já morreu e que não vão me salvar
aqui em vida, na Terra onde eu caminho
e danço sobre o asfalto, coisa feia dos homens
Os anjos sabem a desgraça que isso é
Todo esse metal retorcido que se movimenta sobre rodas
essas coisas modeladas pra fazer a vida mais truncada
trancada.

As coisas mais óbvias permanecem obscuras
nessa dinâmica estúpida em que vivemos
que faz com que amores sejam reprimidos
risos sejam condenados
e palavras escolhidas demais, sem serem sentidas
só pensadas e caídas no vazio
jogadas num chão transparente e frio de gelo e poeira
sujeira.
Nada de pó de estrelas, só pó.
O pó pelo pó.

Reduzidos a isso nós nos fazemos gente
E a gente finge que tá tudo bem e que tá feliz
E andam bicicletas, motocicletas
E caminhões caminham e você corre
E nada de voar, porque aí você cai.
É melhor tomar cuidado por onde você vai.



(Vai pela sombra, rapaz.)

Citando

"Vem, te faço um carinho, te toco mansinho,
Te conto um segredo ou te encho de beijo
Depois vou descansar, não vou te acompanhar
Espero que entenda e volte pra cá"

Te Valorizo, Tiê

domingo, 25 de setembro de 2011

Manifestos de Menina #7

Quando o amor rareava
eu me partia em duas
atravessava a ponte
a linha
e ficava imersa em água turva e fria
querendo que o sangue escorresse pra sempre.

Quando o amor rareava,
eu me refugiava
nos livros, nas palavras
que eram tão minhas
e de milhões de outros corações
solitários e fracassados.

Nunca lia poesia
porque preferia compô-la
e isso tudo parece estar tão distante no tempo
e no entanto
não faz nem um mês.

Mas parece ter sido noutra vida
que eu fiquei acorrentada naquela torre
uma torre caída sobre um lago
meu rosto pendendo da janela
meus cabelos irremediavelmente molhados pela água lodosa
minha cabeça jogada, eu afogada,
quando meu pescoço cansava.
Destino ditador. Torturador.

Isso tudo foi passando
algum sofrimento ainda assolava aqui
uma fome, um deserto
e agora é primavera,
luas, mil sóis.
Vento e folhas.

Só que de vez em quando
essa antiga personalidade
esse antigo eu, acorrentado nas frias pedras
me assalta
e todos à volta
estão correndo o risco
de ficarem tão perdidos quanto eu.

Quando o amor rareava
era em ti que eu pensava
As músicas que eu ouvia na torre
antes de te conhecer...
Eu sou tão menina!
E no entanto eu me sinto completa.
Ninguém quer entender isso.
Queriam ler meu sofrimento,
e agora só lêem amor correspondido.

E se faz aqui mais um de meus manifestos.
Desses tantos que são tão
"pensei e escrevi,
nem tem poesia aqui,
beijos."
Mas gosto de escrevê-los
dá bem a dimensão pequena
da minha cabeça oca
e do meu coração transbordante.

Lágrimas de Madrugada

20/08/2011
Os braços
onde se escondem
os olhos vermelhos e cerrados
Teus cachos
teus cílios como que cerrados
será que um dia eu
verei-os molhados, Eron?
Você não deveria ter me deixado
Eu estou exausta
As cobertas me envolvem
nenhum abraço
estou só.
Sem poeta.
Sem musa.
Sem você, meu inferno lindo.
Eron, heróico.
Você que se fecha na sua fumaça
eu não consigo ler nada
e um dia eu pensei que éramos nossos
Não sei mais quantas vezes eu vou ficar vazia
vazia de lágrimas
fingindo
rasgando meu rosto com sorrisos
forjados
só pra dizer que estou bem.
Eu queria que você pudesse me salvar.
Eron, heróico.


(Poema escrito no dia 20 de agosto desse ano, de madrugada, na casa da amiga Marcella Meine. Quando eu não sabia que estaria com você de novo. A parte que não está em itálico foi modificada hoje, mas, a não ser pelo amor - que é o mesmo -, o poema não faz mais sentido.)

sábado, 24 de setembro de 2011

Nós

Eu sou tua.
Nas folhas,no vento que dissipa meus suspiros
meus gemidos.
Todos teus.
De repente eu quis isso pra sempre
de repente...
eu me embrenho cada vez mais nisso
nessas árvores que nos vêem,
e só elas.
Elas que sabem o que me faz
o amor e o mistério.
O segredo de ser nós.

domingo, 18 de setembro de 2011

Manifestos de Menina #6

E eu gritava que te amo
e eu dançava na calçada
e quando os carros passavam e buzinavam
eram beijos o que eu mandava
mas nem de longe eram aqueles
que eu mando pra você.

sábado, 10 de setembro de 2011

Namoro de folhas

"Agora eu me pergunto,
se tem coisa melhor
do que acordar e você já estar aqui."
É o que me dizes quando eu me ponho
em frente à tela que nos separa.

E eu logo penso que melhor seria
se eu não tivesse que ser intermediada por monitores
no máximo alguns centímetros de lençol
ou mesmo os ares úmidos de um bosque
daqueles cheios de névoa.

E enquanto teus olhos se avermelham, longe de mim,
o que eu só imagino - porque não estás aqui perto -
eu fico me perguntando se já olhaste pra lua hoje
se a viu entre as árvores, linda e cheia,
e se isso de alguma forma te interessa.

Senti um aperto no peito, um sopro frio
daqueles que me dão vontade de te abraçar
daqueles que fazem minha expressão se anuviar
pra então tu perguntares "O que foi?"
como se fosse assim tão simples.

E na verdade é
porque com os minutos que passo do teu lado
Esse sopro frio se esvai
e o que sobra é a minha língua no teu pescoço
um consolo sórdido pro meu amor.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Do teu cigarro que vejo de longe

As palavras estão brotando dos meus dedos desde ontem
e faz tempo que não escrevo sobre você
seja nos poemas ou nos meus incontáveis cadernos.
Que descaso!
(Mas saiba que o tempo é relativo...)

Eu sei que aprisionas um poeta
aí e algum lugar
E eu sei que não vais mostrar
Eu não quero mais de difamar
mas isso não é uma promessa.

Eu fico triste quando seu time perde
e quando você fica pensativo;
E nas vezes em que você fica deprimido
eu me parto ao meio por não ser o suficiente pra te confortar.

Eu não sei se você percebe isso
Talvez eu seja meio reticente
e complicada, e chata
mas eu gosto do silêncio que fica entre a gente
quando saímos junto e fica meio sem assunto.

Quando estou olhando pela janela do ônibus
E eu faço aquelas expressões múltiplas
porque estou pensando mil coisas
sinto teus olhos pequenos observando
com teus assaltos momentâneos às minhas pulseiras
e a nossa implicância eterna.

Tu sopras a fumaça do teu cigarro na minha cara
E fica por isso mesmo
porque antes eu tossia e agora eu até gosto
desse cheiro que se mistura ao teu.

Eu vejo os teus cachos de longe
Te vejo rindo com teus amigos
Enquanto os ônibus verdes – horrorosos! –
Passam indiferentes.

Talvez algumas senhoras
Pensem que e uma pena que um menino tão novo
Tão lindo
Esteja lá com um cigarro entre os dedos
Soltando aquela fumaça.

Mas o teu rosto expressa a tua indiferença
E eu te sigo com os olhos e sorrio pra ti
Sem resposta
Porque sabe-se lá o que está se passando na tua cabeça
Nestes momentos únicos
Rápidos
Singulares
Que são te observar
do meu banco no ônibus
O teu singelo ato de fumar.

(Outro da série "Viu Como eu Escrevo Sobre Ti?")

Na caixa de papelão

Debaixo do viaduto
o veículo passa
Debaixo do viaduto
onde meu coração mora
abrigado numa caixa de papelão
de um produto qualquer.

Ao lado dele a morte
brincando às margens do rio
nos contos dos escritores
nos versos dos poetas
ela pretende ser bonita;
E no coração dos loucos
aqueles que amam demais
ela é a satisfação
e a eterna busca.

Estado Original

(As gotas batendo na janela
do ônibus de andas atravancado
me dão a inspiração
E o desafio de escrever
muitos poemas em pouco tempo
o que o amor aos amigos não faz?)

A vida se desenrola
novelo de lã
Sem nenhuma estrela que possa guiar
vou escrevendo poesias jamaicanas
peço emprestado o estilo do amigo
(na verdade
o estilo inicial
minha poesia
em seu estado original:
algumas rimas
entremeadas de cacofonia)
Depois de tanto tempo
tendo sublimado palavras
em rimas e versos
Retorno ao estado mais puro
que a poesia pode assumir.
O sentimento cru
nu
Diante dos teus olhos.

Manifestos de Menina #5

O que me preocupa
é muito mais uma impossibilidade
de falar
que a perspectiva da fala.
As pessoas nunca parecem estar
preparadas pro que tenho a dizer
um sem-número de palavras é despejada
indesejavelmente
nos ouvidos deles
palavras eletrônicas
cacofônicas
feias e perturbadoras.
palavras que enquadram.
Mas são as minhas
- amorosas -
que eles se recusam a aceitar
por certo meus sentimentos
(por serem demasiado intensos)
matizam de roxo
os pensamentos
em tons pastéis.
(Decidi.
Vou emudecer.)
Talvez eu devesse falar
Talvez eu devesse mostrar
que sou dramática.
Mas o mundo não entende...
As pessoas só admiram
os artistas
os poetas
os loucos.
De longe.

domingo, 28 de agosto de 2011

Dos becos de sextas à noite


As danças e as bailarinas
chapinhando as sapatilhas nas poças
de água são feitas
e distribuem-se pela calçada.

A dançarina atravessa a rua
o ponto de ônibus está vazio
os carros passam indiferentes
buzinas tocam
dióxidos, monóxidos
carbono.

As placas indicam lugares
mas as direções são múltiplas
e multifacetada é a pedra que brilha em seu pescoço
O vento brinca nos cabelos
e os olhos estão arregalados
procurando o caminho no escuro do beco.

Tem amigos voltando na contramão
ela não se importa porque não é por eles que procura
Segue seu rumo e acha enfim o que seus olhos pediam
uma visão que inspira
olhos que fitam
decifram
e que depois descrevem.


sábado, 27 de agosto de 2011

Um poema direto pra você entender bem

Reclamaste um poema
E eu nunca pensei
que isso importasse pra ti.

Eu que nunca tirei uma foto tua,
eu que nunca desenhei pra ti.
Eu que nunca te desenhei
Embora os teus traços eu conheça bem.

E tu me conheces tanto!
Até sabes que eu não tenho cheiro
E o gosto do meu pescoço
E o do meu coração
dentre tantos outros gostos.

Eu sempre te vejo de longe,
e às vezes tu nem olhas pra cá
E eu te vejo errado às vezes
e tu me imitas nisso.

Entristece-me ver
Que poucos compreendem
Que tu és tão grande
E que és tão profundo.

E que às vezes eu me assusto
Por não poder te abraçar
E que às vezes eu me frustro
Por não ter como te proteger

E você não acha que tenha que ser protegido
E esse teu orgulho é tão bonito
Eu escrevo e vou ficando desesperada
Porque vêm as palavras me atropelar
Como sempre o é quando o assunto é você.

Essas palavras que precisavam ser escritas
Pra que aquelas que você merece
Possam ser ditas.


(Quer que eu desenhe? Te amo.)

Perdoa-me

Reclamaste uma poesia
Se é poesia que quer...

Pode parecer
que nunca escrevo poemas pra você
e que os que existem
falam mal de quem tu és.

Eu te expliquei que isso é fruto do conflito
Mas acho que isso não bastaria mesmo pra mim.
E eu começo com esse pedido de desculpas
porque lendo novamente meus poemas...
Acho que tens razão.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Sol furtivo

Eu falei que
"Amanhã eu acordo melhor".
Eu acordei, e o sol também
como há dias não acordava.
Como brindasse uma decisão -
a de melhor acordar.


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

E agora eu me sinto culpada.

Manifestos de Menina #4

Depois de noites insones pensando nas tuas palavras
sempre elas, as que mais me marcam
e sempre elas que me choram no peito
a amarga dor, como derrota.

Por mais que outros lábios e outras mãos
digam e digitem palavras sobre mim
nestes últimos dias elas só me fazem esquecer.

O dia passou com chuva
há dias que meu quarto está uma bagunça
até o ar aqui está parado
e eu não me importo de não respirar direito.

Eu vou dormir e só vou acordar
quando tiver que sair de casa
e aí vai ser outro dia
em que eu vou te esquecer por umas horas
pra depois chegar em casa e você estar lá
você que era meu refúgio e que agora me faz mal...

domingo, 21 de agosto de 2011

A Menina que não tinha Cheiro

Ana, Ana
você sabe que eu vou te deixar
e eu sei que tu não vais chorar
Por sentir tudo, não sentes nada

Ana, Ana
essa canção é pra você lembrar
pra si mesma que o amor
pode não ser nada

Ana,
Teus poemas se murcham em flor
folhas cobrem o teu cobertor
sem abraço que possa acalmar

Tua alma, teu corpo, menina,
mesmo amigos, piano ou morfina
Nenhum livro te conta uma história
pra te confortar

Ana, Ana
Histórias te esperam no bar
apesar disso não vais evitar
que mágoa te devore

Ana, Ana
Se tu escreves é pra te lembrar
que um dia pode sofrer
sempre por bobagens

Ana,
A vida é mais que lamentar,
que sorrir ou fingir se agradar
com as coisas que fazem os outros

Se já não consegue escrever
explicar e até mesmo prever
as cartas não te dizem...
O tarô te falha,
o riso te falta...
Ana.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Para ti

Vais andando pela rua cabisbaixa
Teus olhos azuis fitam a calçada
Acompanho com os meus a tua marcha
Castanhos, eles se derretem sobre tua caminhada

Às vezes tu te sentes tão sozinha!
Eu não sou o suficiente para salvá-la
Tu odeias que te vejam como menina
És complexa e volúvel como a água.

Esta água transparecida em teus olhos,
Esta fluidez que ora é límpida, ora é turva
Me confunde e me convida a me afogar.

E eu queria estender meus braços e ampará-la
Gostaria de poder compreendê-la
Mas não consigo proteger nem a mim mesma
Desse amor que começa a me artomentar.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Cocotes.

Preciso gritar, preciso gritar mais e de novo
Só que, dessa vez, com outra pessoa.
Às vezes eu me pergunto se eu amo as pessoas erradas
Se não amo errado
E quando eu me convenço de que não existe amar errado
Quando eu percebo que todos merecem meu amor
Vem alguém e me quebra no meio.

Valeu aí.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Faça pouco caso de mim que eu te mato da minha vida.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Manifestos de Menina #3

Acho que tenho que jogar algumas coisas fora - e eu não estou falando de bonecas.
Por isso, dias atrás eu joguei palavras fora. Palavras que estavam acumuladas, densas, palavras que ulceravam meu ventre e deixavam minha língua grossa. Palavras que me impediam de falar.
Quando eu disse que gritei muito, eu não estava usando metáfora. Eu realmente gritei, eu quebrei um corrimão. E teria quebrado mais algumas coisas se pudesse.
Eu vim escrevendo em grafite no papel a noite inteira. Palavras aleatória das quais já nem lembrava. E entre "não crucificarei as coisas que você faz" e "olá, escuridão, minha velha amiga, eu vim falar com você de novo", eu me perdi.
Tem lágrimas deixando meus olhos, se quer mesmo saber.
Viver é perder e morrer um pouco a cada dia.
Eu me sinto frágil e vulnerável. Eu ando com um medo terrível do tempo, ou do fim dele.
Eu. Só sei falar disso, porque é só disso que eu entendo, no fim das contas.
Presto atenção nas pessoas, nos jeitos, nos olhares, nos sorrisos, nas coisas pras quais elas torcem o nariz... E eu sei tanto sobre elas, sem nem mesmo com elas conversar... Sei do que está na superfície, e tenho vislumbres do que está mais no fundo.
E eu passo despercebida no ônibus lotado. Eu atravesso a rua, e o vento e os morros e as folhas das árvores me dizem coisas, e ninguém para pra olhar. Nem o sol chama mais atenção, e eu fico aqui sozinha reparando nessas coisas todas.
E quando eu digo pra você "te amo" eu estou sendo sincera.
Eu só queria poder dizer isso pra mais pessoas sem ser mal interpretada.
Porque eu fico cativada por muitos. Porque pra mim, o simples fato de você existir já me faz te amar. O fato de ser você um ser humano e de poder rir, chorar, falar, gritar, olhar...
As palavras me atropelam. Os sentimentos, idem.
O tempo corre e eu sigo ele aos tropeços, o relógio tem braços no lugar dos ponteiros, braços esfumaçantes e elásticos, que puxam e nos afogam nos fluidos da existência.
E por incrível que pareça, hoje não me sinto só.
Cada olhar é significativo.
E se você lê isso, eu te amo.

sábado, 30 de julho de 2011

Para um curitibano

Pobre escritor não retribuído
Entre uma rua e outra da cidade
Ele caminha entristecido
Descobre que as musas podem ser cruéis.

Versos ingratos lhe vêm à cabeça
E eles lhe fogem pelos dedos em teclas
A delicada indiferença, a resposta blasé
Os olhos e as sobrancelhas expressam o não-expressar.

E o jovem desanimado volta pra casa
como uma árvore que chora-se
por querer ver mais bonitas suas flores.

Entristece-me vê-lo, poeta, andando a esmo
sem versos que lhe venham em agradecimento
sem sorriso ou amor que chegue perto
desse amor que tem em si e não lhe cabe.

E que transborda em versos.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

de poeta para poeta

Pobre poeta
Quantas poesias lhe fogem dos dedos
da mente, e da boca
em rolos de fumaça

E no entanto pouca palavra escrita em versos é dita dele
Que representa nos versos a vida
o amor, a loucura - a musa.
Todos seus.

É um homem e é um país
É um sábio e é um louco
É louco por ser sábio
e sábio por permitir-se louco.

É um paradoxo de impenetráveis olhos semicerrados
Mas o enigma se entremeia em bruma
As cores se confundem, caleidoscópicas
Perpassando frases e memórias
Flashes corrosivos

Em letras se mostra o que só em imagens se traduziria
Imagens puras, nuas
A realidade, relativa, desnudada
Como a musa das águas claras
Como os sorrisos da menina
Tudo claro. Tudo despido.
Bem em frente aos olhos.

(Dou ao poeta versos
Para que sinta na pele
o efeito desta poderosa droga que é a palavra.)

Manifestos de Menina #2

Eu não quero me fechar.
Mas, perceba, todos são fechados.
Estão todos disponíveis para as risadas,
para as conversas e para os copos cheios.
Mas quantos estão ali de verdade?
E quantos estão se divertindo realmente?
Porque eu me sinto muito livre conversando e rindo.
Mas acho que muitos só fazem isso porque é o que têm que fazer.

Manifestos de Menina #1

Eu não queria estar sóbria
eu não queria ser quem eu sou
eu não queria estar onde estou
nem como estou.

Eu queria tantas coisas
e hoje eu gritei muito,
e as coisas parecem mais perto agora.

Não quero ser um ator suicida
que deixa uma guirlanda na janela.
Não quero que o frio me mate;
nem armas;
nem solidões desnecessárias.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O Tempo e o Vento

Eu não sei sobre o que escrever hoje. E na verdade começo mais estas incertas linhas sem saber.

Talvez possa lhe parecer vazio que eu procure por palavras quando na verdade o certo deveria ser que elas viessem até mim como uma visão, uma profecia – uma forma de clarividência fluída e algo mística.

Só sei que isso aqui é como que uma carta, para que possam saber o que se passa por aqui.

Preciso dizer que tenho assistido a Lua há dias – ou melhor, há noites (embora ela tenha dado o ar da graça mesmo que ofuscada pelo sol no céu azul claro algumas vezes nesta fase). Ela tem sorrido para nós. Como um gato malicioso.

Você acredita em destino?

Às vezes me pego acreditando nele, sim, como quando disponho as cartas belamente ilustradas na mesa (ou mesmo no meu colchão), esperando que elas me digam o que fazer, ou qual a melhor forma de agir. Sei que parece bobo, e talvez até mesmo seja. Mas acho que as cartas são meu psicólogo, fazendo com que, no fim das contas, eu prórpia ache a solução dos meus problemas e, mais que isso, a resposta para meus questionamentos.

Hoje eu estava assistindo a um documentário sobre a gravação do disco “The Dark Side of the Moon”, de uma das bandas mais surpreendentes que a humanidade já viu passar sobre a Terra, Pink Floyd, e, ao falar sobre a canção “Brain Damage”, Roger Waters disse algo que me fez concordar plenamente.

Ele disse que, quando escreveu a música, ele estava pensando no gramado de um parque (ou praça, agora não lembro) em Cambridge, Inglaterra, e em como é injusto e inútil que as pessoas plantem grama e não permitam que qualquer ser humano possa pisar nela, deitar nela, “jogar bola nela”, deitar, dançar neste gramado. Como se pisar na grama fosse loucura, “The lunatic is on the grass, the lunatic is on the grass”.

Pois bem. “Não pise na grama” sempre me pareceu bem idiota.

Eu esta pensando ontem na idéia de tempo, e na verdade eu estava tão mergulhada na confusão mental das duas últimas semanas que na verdade a idéia ficou apenas pairando sobre minha cabeça sem que eu no entanto pudesse a chegar a qualquer conclusão.

Primeiro eu decidi que o tempo me odeia. Ele sempre faz as coisas começarem tarde demais e acabarem muito cedo. Faz com que eu conheça as pessoas pouco antes de elas irem embora. É sempre assim. Talvez seja culpa minha. Talvez eu mesma as faça ir.

Outra coisa que Waters disse que muito me tocou e me fez ficar refletindo foi algo sobre a vida, e acho que é por isso que o parágrafo anterior foi sobre minha relação com o tempo.

Ele disse que, numa certa altura da vida ele se deu conta de que a idéia de que a adolescência e a infância eram preparadoras para a vida que começaria apenas quando se atingisse a idade adulta era completamente estúpida (estas duas últimas palavras são minhas).

E aquilo me chocou tanto... Porque, de fato, até dois meses atrás eu estava esperando a vida acontecer quando, sei lá, quando eu saísse da casa de minha família ou algo do tipo.

Então eu, vendo o documentário, dei-me conta de que eu concordo com Waters quando ele diz que “a qualquer momento da vida você pode mandar no seu destino”. E foi isso que eu comecei a fazer quando comecei a obedecer minhas prórpias vontades uns tempos atrás.

Meus planos são completamente diferentes agora. Quero dizer, meus objetivos, de certo modo, são os mesmos, mas “the way”, o caminho, a maneira (eu amo essa palavra, “way”, que significa ambas as coisas; é um jeito de dizer que dois “ways”, dois caminhos, podem ser maneiras, “ways”, diferentes de se obter a mesma coisa) é diferente porque agora eu sei que eu posso agir. E Roger Waters verbalizou isso por mim perfeitamente. Acho que tenho uma dívida com esse cara, hein.

Então eu pensei naquela minha idéia boba de que o tempo me odeia. Tratar o tempo como uma entidade é bem a minha cara mesmo.

De qualquer modo, o tempo nada tem a ver com o fato de as pessoas irem embora ou de as coisas acabarem. As pessoas têm intenções e planos, ou não têm plano nenhum, e, antes de qualquer coisa, elas têm sentimentos próprios que independem dos meus.

Ora, isso é óbvio.

Mas hoje eu me dei conta de como é difícil pra mim ignorar motivos. As coisas não precisam de muitas justificativas pra que elas aconteçam. E, mais ainda, me dei conta de que as coisas que acontecem às pessoas que amo não necessariamente têm a ver comigo, e que o fato de alguém ter que ir embora não quer dizer que seja algo relacionado a mim, mas a ela mesma.

Ora, isso é óbvio!

As pessoas têm que sair, pra que outras possam vir. Mas confesso que eu preferiria que todas pudessem ficar. Eu gosto de dinamismo, mas... Eu sou muito apegada.

Eu sinto paz... Acho que eu recebi outro tiro de partida de presente. Mas foi um presente de mim mesma. Agora é "run rabbit run".

“The lunatic is in my head, the lunatic is in my head”, “o lunático está na minha cabeça”, e ele me faz enxergar. “You raise the blame, you make the change”, “você ergue a lâmina, você faz a mudança” - eu faço uma incisão no tempo e interfiro na minha vida, enfim.

Eu penso diferente de ontem.



"Sempre que me acontece algo importante, está ventando..."

sexta-feira, 8 de julho de 2011

desapontamento

Atormentada novamente, estúpida e inerte - eu peço perdão infinitas vezes.
- Foi só um acidente. - É essa a frase que me acompanha a cada discussão, cada erro bobo e insignificante, a cada tensão que se forma nos fios da colcha.
Eu ouço o que PJ Harvey e Amanda Palmer têm a me dizer, atualmente são minhas mestras. "Take me one more time" - isso não funciona pra você, garota estúpida, só pras mestras.
Começo a me desesperar com a solidão fria e vazia desta casa, a casa onde vivi a vida inteira com sua costumeira desordem e os meus olhos começam a arder de lágrimas. Então eu ligo Dire Straits e tudo fica bem.
Eu não sou sórdida, eu não sou profunda, eu não tenho nenhuma vivência que te faria querer descobrir o que está por trás das minhas palavras. O que eu tenho aqui são especulações, sentimentos e, ultimamente, muitos sonhos confusos que me fazem acordar inebriada. Meus olhos se entrefecham como se eu tivesse dormido o tempo todo de minha vida até agora. Entreabertos. Como portas que se recusam a se fechar, e no entanto se recusam a serem abertas e, o que guardam, descoberto.
Eu não ando conseguindo escrever de um jeito bonito ultimamente.

sábado, 2 de julho de 2011

Da facilidade dos versos

As memórias falhas e repetidas.
Sem me dar conta, sou mais poetiza que outra coisa qualquer - cronista, artista, autista. Por que os versos são sempre mais fáceis?
Não me sinto capaz de nada.
Desculpem por desapontá-los, no fim das contas eu não sinto como se fosse culpa minha. É só que uma seqüência irônica de fatalidades tem se colocado na minha frente com uma crueldade mais ácida do que posso suportar.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Continue assim. Você está quase conseguindo.




Me fazer vomitar.

domingo, 26 de junho de 2011

Da morte e do tempo - o nada ácido

Em parte de mim ecoa o passado não muito distante;
noutra parte ressoa a voz de um presente delirante,
um agora entristecido que simplesmente não quer ser.

Lamuriando entretido, segue o cotidiano lavando roupa.
O coração que se apega a um dia-a-dia fracassado.
Corta à faca o talo verde que joga na panela borbulhante.

Foi minguando, virando resto.
Fina lasca de bordas suavizadas e sem fio
e as cascas espalhadas pelo chão.

Limites esfumaçados, casas sem telhas e o vento varrendo o sótão.
Esses ares todos, movimentados e frios.
Esses ventos todos, arredios e arrepios.

Arrepios infinitos, voltas infinitas, ventos intermináveis.
Lágrimas intermináveis.
Dores... E cada vez mais terra fabricando os tijolos.

Das paredes volta batida a voz que grita.
São os ecos das vozes de outrora - esquecidas.
Esquisitos gemidos incontíveis - e por vezes inaudíveis.

E esse passado gritante, cortante vento limpo,
O agora entristece o músculo pulsante
E corta causticante na garganta as entranhas

E mata aos poucos.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

"Your lips move but i can't hear what you're saying..."

As chuvas todas que caíram até hoje, as que eu tenha presenciado, estão condensadas na minha janela... "É preciso limpar os vidros", penso com preguiça. Fica pra depois.
- Ana, pra você, amar é...?
- Trabalhoso.
Como limpar uma janela. Só que pior. Porque a sujeira gruda de tal forma que nem todo o esforço do mundo faz com que a poeira acumulada suma.
E ontem você se sentiu tão amada, todos aqueles abraços e aquelas palavras,e as despedidas e os beijos... Falando assim parecia até um arrebatamento dionisíaco que se apoderara de todos mas não é esse o ponto. E eu não tenho, hoje, a minima vontade de usar as vírgulas pelas quais normalmente tenho compulsão.
- Preciso escrever. Alguma idéia?
- Sim - e o rapaz fez uma pausa - pega um papel e uma caneta. E então escreve.
Um sorriso brotou nos lábios da moça. Tão fácil... Agora era difícil capturar, dentre toda sua inspiração, a idéia que lhe serviria de impulso...

sábado, 18 de junho de 2011

Trecho de "Pandora", Anne Rice

"Passei horas evitando Marius. Eu nunca seria perdoada! Então fui para o jardim.
Descobri que ele estava sofrendo, e quando ergueu os olhos, percebi que tinha certeza
absoluta de que eu pretendia partir com Flavius. Ao ver isso, abracei-o. Ele ficou todo
aliviado e amoroso; perdoou imediatamente aquela minha "impulsividade extrema".
— Não percebe — disse eu, dando-lhe a mão — que adoro você? Mas você não
pode mandar em mim! Não consegue enxergar dessa sua maneira racional que o principal
aspecto do nosso dom lhe escapa? É a libertação da prisão dos conceitos de masculino e
feminino!
— Você não pode me convencer nem por um minuto — disse ele — que não sente,
pensa e age como uma mulher. Nós dois amávamos Flavius. Mas por que mais um bebedor
de sangue?
— Não sei, a não ser pelo fato de que Flavius queria isso. Flavius sabia tudo a
respeito de nossos segredos, havia um... entendimento entre mim e Flavius! Ele foi leal nos
piores momentos de minha vida mortal. Ah, eu não sei explicar.
— Sentimentos de mulher, precisamente. E você lançou essa criatura na
eternidade.
— Ele se une à nossa busca — retruquei.
Em meados do século, quando a cidade estava riquíssima e a paz reinava no
Império como não voltaria a reinar nos próximos duzentos anos, o cristão Paulo chegou a
Antioquia.
Fui ouvi-lo falar uma noite e voltei para casa comentando que ele era capaz de
converter até as pedras à sua fé, tamanho era seu carisma.
— Como pode gastar o seu tempo com essas coisas! — indignou-se Marius. —
Cristãos. Eles nem chegam a ser um culto! Uns reverenciam João, outros Jesus. Vivem
brigando entre si! Não vê o que esse Paulo fez?
— Não, o quê? — perguntei. — Eu não disse que ia entrar para essa seita. Só que
parei para ouvi-lo. Quem sai prejudicado com isso?
— Você, sua cabeça, seu equilíbrio, seu bom senso. Tudo isso fica comprometido
por essas bobagens pelas quais você se interessa, e a verdade sai francamente
prejudicada! — Ele só estava começando.
— Deixe-me contar-lhe uma coisa sobre esse Paulo — disse Marius. — Ele não
conheceu nem o João Batista nem o Jesus da Galiléia. Os hebreus o expulsaram do grupo.
Jesus e João eram ambos hebreus! Então Paulo agora está se dirigindo a todo mundo.
Judeus e cristãos, gregos e romanos, e dizendo: "Vocês não precisam seguir as
prescrições hebraicas. Esqueçam as festas em Jerusalém. Esqueçam a circuncisão.
Tornem-se cristãos."
— Sim, é verdade — suspirei.
— Essa é uma religião facílima de se adotar — disse ele. — Não é nada. A pessoa
precisa acreditar que esse homem ressurgiu dos mortos. E por falar nisso, pesquisei os
textos disponíveis espalhados pelo mercado. Você pesquisou?
— Não. Para mim é uma surpresa o fato de você ter achado que valia a pena
gastar seu tempo com essa pesquisa.
— Nos escritos daqueles que conheceram João e Jesus, não vi Jesus nem João
dizendo que ressuscitarão dos mortos, ou que todos os que acreditarem neles viverão após
a morte. Paulo acrescentou tudo isso. Que promessa sedutora! E você devia ouvir o seu
amigo, Paulo, a respeito do Inferno! Que visão cruel — os mortais imperfeitos serem
capazes de cometer pecados tão deploráveis que os condenariam ao fogo por toda a
eternidade.
— Ele não é meu amigo. Você exagera os meus comentários. Por que isso o afeta
tanto?
— Já lhe disse, eu me importo com a verdade, com o que é racional!
— Bem, há uma característica desse grupo de cristãos que você não está
percebendo, um modo especial que eles têm, quando estão reunidos, de compartilhar um
amor eufórico e de acreditar numa generosidade maior...
— Ah, de novo não! E você vai me dizer que isso é bom?
Não respondi.
Ele voltava aos seus afazeres quando falei.
— Você tem medo de mim — eu lhe disse. — Tem medo de que eu perca a cabeça
por alguém de fé e abandone você. Não. Não, não é isso. Você tem medo de ser
arrebatado. De ser de alguma maneira seduzido a voltar para o mundo. Aí você não vai ficar
mais aqui comigo, a observadora romana superior reclusa, mas vai voltar, buscando os
confortos mortais do companheirismo, da convivência, da amizade com os mortais,
querendo que eles o reconheçam como sendo um deles quando você não é!
— Pandora, você não está dizendo coisa com coisa.
— Guarde seus segredos nobres — disse eu. — Mas receio por você, isso eu vou
confessar.
— Receia por mim? E por quê? — perguntou ele.
— Por que você não percebe que tudo morre, tudo é artifício! Que nem a lógica
nem a matemática nem a justiça têm um significado último!
— Isso não é verdade — disse ele.
— Ah, é, sim. Uma noite dessas você ainda vai ver o que eu vi, quando cheguei a
Antioquia, antes de você me encontrar, antes dessa transformação que deveria ter varrido
tudo que encontrasse pelo caminho.
"Você verá uma escuridão — prossegui —, uma escuridão tão completa como
nunca existiu nem existirá na natureza em nenhum lugar sobre a face da terra! Só a alma
humana é capaz de conhecê-la. E ela não tem fim. E faço votos para que quando afinal
você não conseguir fugir mais dela, quando perceber que ela o envolve completamente,
que a sua lógica e a sua razão o ajudem a enfrentá-la."
Ele me olhou com o máximo respeito. Mas ficou calado. Prossegui:
— Resignação não vai lhe fazer bem nenhum — disse eu — quando essa hora
chegar. Resignação exige vontade, e vontade exige decisão, e decisão exige fé, e a fé
exige que haja algo em que se tenha fé! E toda ação ou aceitação exige um conceito de
uma testemunha! Bem, não há nada, e não há testemunhas! Você ainda não sabe disso,
mas eu já sei. Espero que quando descobrir, alguém possa consolá-lo quando você estiver
vestindo e arrumando aquelas relíquias monstruosas lá embaixo! Quando você estiver lhes
trazendo flores!
Eu estava furiosa. Continuei:
— Lembre-se de mim quando chegar essa hora, se não para ser perdoado, pelo
menos para ter um modelo. Pois eu vi isso e sobrevivi. E pouco importa que eu tenha
parado para ouvir Paulo pregar sobre Cristo, ou que eu faça coroas de flores para a Rainha,
ou que eu fique dançando feito uma idiota ao luar no jardim antes de o dia raiar, ou que eu...
que eu ame você. Pouco importa. Porque não existe nada. E não há ninguém para ver.
Ninguém! -Suspirei. Estava na hora de terminar.
"Volte para a sua história, esse monte de mentiras que tenta associar os
acontecimentos a uma causa e um efeito, essa fé absurda que postula que uma coisa seja
conseqüência de outra. Vou lhe dizer, não é assim. Mas é muito romano de sua parte achar
que é."
Ele estava calado me olhando. Eu não sabia dizer o que lhe ia na cabeça nem no
coração. Então ele perguntou:
— O que quer que eu faça? — Ele jamais pareceu tão inocente.
Com amargura, eu ri. Não falávamos a mesma língua? Ele não ouvira nem uma
palavra que eu dissera. No entanto, não me deu uma resposta, apenas fez essa pergunta
simples.
— Está bem — eu disse. — Vou lhe dizer o que quero. Quero que você me ame,
Marius, que me ame, mas me deixe em paz! — protestei. Eu nem sequer refletira. As
palavras foram saindo. — Me deixe em paz, para que eu procure meus próprios confortos,
meus próprios meios de continuar viva, pouco importa o quanto esses confortos lhe
pareçam idiotas ou sem nexo. Me deixe em paz!
Ele estava ferido, tão perplexo, com um ar tão inocente apesar de tudo.
Tivemos muitas discussões semelhantes pelas décadas afora.
Algumas vezes, ele depois me procurava; começava a tecer longas considerações
sobre o que estava acontecendo com o Império, como os imperadores estavam
enlouquecendo e o Senado estava sem poder, como o próprio progresso do homem era
único na natureza e algo a ser acompanhado. Como ele precisava da vida, achava ele, até
a vida acabar.
— Mesmo que não reste nada a não ser um deserto desolado — disse ele -eu
quero estar lá, para ver aquelas dunas todas — prosseguiu. — Se só restasse uma única
lâmpada no mundo, eu haveria de querer ficar olhando para a chama dela. E você também.
Mas o teor e o calor das brigas nunca mudaram muito.
No fundo ele achava que eu o odiava por ter sido tão duro no dia em que recebi o
Sangue das Trevas. Eu lhe dizia que isso era infantilidade. Não conseguia convencê-lo de
que minha alma e minha inteligência eram muito grandes para um ressentimento desses, e
que eu não lhe devia explicação alguma a respeito de meus pensamentos, palavras e atos.
(...)
Às vezes passávamos noites a fio sem falar para não brigar. Entre nós sempre
houve uma afeição física — abraços, beijos, às vezes apenas o enlace silencioso de nossas
mãos."

RICE, Anne. Pandora. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. pp. 179-183

Identificação extrema.

sábado, 11 de junho de 2011

de fato.

"Ai, cara. Eu só me deprimo. Vou até escrever".
Oi.

A areia voa. Foi o que pensei ao sentir o cheiro do mar quando cheguei na praia. E o sol era tão lindo! E era tão bom estar ali e pensar somente no cenário à minha frente, sem ninguém a invadir minha solidão.
Eu estava em paz ali, olhando pro mar.
Estava quente, muito quente, agora que o sol tocava minha pele. E eu só sentei na areia.
A verdade é que a confusão está aqui. Ela mora em mim.
E hoje eu não vou conseguir fazer com que nenhum esforço poético se apodere de minhas mãos e me faça escrever belas coisas. Porque eu simplesmente não consigo eliminar a confusão da minha cabeça. E não há poesia na confusão. Não quando ela envolve tantos rostos, tantos nomes, tantas coisas tão pequenas.
Porque são coisas pequenas, não são?
E eu fico aqui. Sempre nos meus esforços de interpretar o ininterpretável. Inacabando o acabável. Martirizando-me... pelo quê mesmo?
E os sonhos, eles não me deixam em paz!
Cada dia é um sonho novo e mais estúpido que o outro.

Queria conseguir ficar sozinha de fato.
(Porque as companhias não me são permitidas.)