quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Lata

Isso é um pouco estranho.
Quando você está voltando para casa e passa por aquelas meninas super bonitas no terminal de ônibus, com suas barriguinhas à mostra, um piercing pendendo delicado, luzindo e balançando pra lá e pra cá enquanto elas caminham em seus saltos - plataforma ou não - e mexendo o tempo todo em seus cabelos bonitos.
É sempre a mesma coisa. Passam essas mulheres fenomenais, outras que acreditam ser, e outras que prefeririam não ser notadas.
Não me encaixo em nenhum desses grupos, e portanto não me considero parte de nada disso. Eu faço parte do pequeno grupo de pessoas que se contenta em reparar em todos.
Por exemplo, aquele homem sempre desce no terceiro ponto. Aquela mulher com o cello que usa sandálias de couro e há uns três meses passou a usar óculos de grau desce depois de mim. Antes ela descia no ponto próximo à praia da Ponta. Às vezes ela come uma banana no ônibus, e vive cuidando para que ninguém esbarre no seu amado instrumento musical.
Aquele cobrador com as pernas tortas, os olhos doces e amendoados, castanhos, com longos cílios espessos e negros, ele olha para você com curiosidade. Ele é simpático.
E aquele motorista que sempre para alguns metros depois do seu ponto, perto de sua casa, por simples agradecimentos pelos seus acenos e sorrisos?
Pessoas cujos nomes você nem conhece, mas que sabe das manias, o sotaque que têm, o som de suas vozes.
E então você tenta não pensar nas coisas que acabou de fazer, na pessoa que acaba de encontrar, no que tudo isso implica, mas é impossível. E você acaba se deixando levar pelas memórias recentes, vívidas, e de repente vem aquela vertigem, um arrepio, a reviravolta do estômago, aquele formigamento.
O ônibus não está correndo, mas quando você se dá conta já tem que puxar a cordinha e descer. Você quase perdeu o ponto.
Isso é desconfortável.

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