quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Lata

Isso é um pouco estranho.
Quando você está voltando para casa e passa por aquelas meninas super bonitas no terminal de ônibus, com suas barriguinhas à mostra, um piercing pendendo delicado, luzindo e balançando pra lá e pra cá enquanto elas caminham em seus saltos - plataforma ou não - e mexendo o tempo todo em seus cabelos bonitos.
É sempre a mesma coisa. Passam essas mulheres fenomenais, outras que acreditam ser, e outras que prefeririam não ser notadas.
Não me encaixo em nenhum desses grupos, e portanto não me considero parte de nada disso. Eu faço parte do pequeno grupo de pessoas que se contenta em reparar em todos.
Por exemplo, aquele homem sempre desce no terceiro ponto. Aquela mulher com o cello que usa sandálias de couro e há uns três meses passou a usar óculos de grau desce depois de mim. Antes ela descia no ponto próximo à praia da Ponta. Às vezes ela come uma banana no ônibus, e vive cuidando para que ninguém esbarre no seu amado instrumento musical.
Aquele cobrador com as pernas tortas, os olhos doces e amendoados, castanhos, com longos cílios espessos e negros, ele olha para você com curiosidade. Ele é simpático.
E aquele motorista que sempre para alguns metros depois do seu ponto, perto de sua casa, por simples agradecimentos pelos seus acenos e sorrisos?
Pessoas cujos nomes você nem conhece, mas que sabe das manias, o sotaque que têm, o som de suas vozes.
E então você tenta não pensar nas coisas que acabou de fazer, na pessoa que acaba de encontrar, no que tudo isso implica, mas é impossível. E você acaba se deixando levar pelas memórias recentes, vívidas, e de repente vem aquela vertigem, um arrepio, a reviravolta do estômago, aquele formigamento.
O ônibus não está correndo, mas quando você se dá conta já tem que puxar a cordinha e descer. Você quase perdeu o ponto.
Isso é desconfortável.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Novelo

Pegue um novelo. Desenrole-o.
Agora ande com ele, arrastando-o pela casa
De forma que obtenha um lindo nó no final da operação
assim verás o bolo de fios que podem ser comparados a sua vida.

Eles não são lineares ou ininterruptos.
Agrupamentos súbitos cortam fluxos informacionais
Esses grandes emaranhados que surgem repentinamente num fio
são as situações que te atropelam e que te controlam.

Você não prevê.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Quem sabe?

Com o ano se aproximando do fim, as nuvens não deixando o costumeiro sol de dezembro dar o ar do verão que se aproxima, digo minha despedida aos anos de colégio.
Nunca odiei a escola. Desde muito mais nova do que sou agora eu detestava faltar às tão desejadas aulas. Eu me sentia útil e não havia espaço para o tédio em meio às descobertas que eu fazia com os livros e com os professores. E no entanto, neste último ano, senti-me fatigada pelas cobranças que me parecem irracionais daqueles que algum dia já passaram por esta mesma fase, mas talvez não tão decepcionados como eu. Porque eu não queria me estressar com vestibulares ou notas, mas todos que outrora não se importavam com este tipo de idiotice passaram a falar apenas nisso, e eu me senti no meio de gente paranóica, sistemática e sem graça.
O que quero dizer é que eu nunca me senti tão cansada daquelas paredes, daqueles tão conhecidos rostos. Talvez minha vida pessoal tenha atrapalhado nesse sentido, mas a escola não era mais uma fuga da minha vida, era uma parte dela da qual eu queria fugir, de forma que fiquei meio sem rumo.
Mesmo entre meus amigos, senti-me muito sozinha. E na realidade, são meus novos amigos, ou seja, aqueles que fiz há dois míseros meses - mas que se tornaram surpreendentemente significativos - que fizeram com que este ano valesse a pena.
A forma como minha relação com dois professores em especial se estreitou também fizeram o ano ser, no final das contas, memorável - de forma positiva, obviamente.
No mais, encerro a escola decepcionada. Estou muito feliz por ter acabado, sentirei saudade deste tempo, mas não é com tristeza que saio de lá.
A perspectiva da faculdade não me assusta mais, e quem sabe daqui a uns anos eu não serei uma professora de história super doida?
Quem sabe?

Épico

Conforme o prometido (a você, Anselmo), a tradução do poema do post anterior.

"Épico"

Venha. Seja protegido pelo abrigo de meus olhos.
Seja cingido pelos rios de minh'alma;
Seja um companheiro para meu coração verde -
O único com as folhas crescidas.

Tente. Entenda que você não está sempre certo.
Veja através de meu lago profundo - os castanhos olhos meus -
E assista a sua própria criação.

Aguarde. Envelheça um pouco e verá
O quanto mais tempo eu tenho esperado para estar,
Para ser aquela em seu caminho de fumaça e problemas.
Você não é o Ancião que finge ser.

A bruma turva e embaçada de seus olhos,
As luzes coloridas que deles emanam, insípidas,
Elas não refletem sua alma amargudara
Ou mesmo sua rebeldia injustificada.