sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Saudades de Selany

A morte próxima não me causa muito efeito; a morte de um bichinho na estrada me comove mais que a morte de meu próprio cachorro.

E quando minha avó morreu, eu não chorei.
A não ser um mês depois, quando sonhei que a encontrava e, como numa despedida, ela me dizia, como costumava dizer em vida "Ah, Aninha, meu amor, tu estás mais bonita que ontem!" e sorria, com aqueles grandes olhos que tive a felicidade de herdar, com aquele rosto que eu tanto amava e aquela personalidade forte da menina que deu o primeiro beijo atrás da igreja, aos nove anos, aquela que colava nas provas desenhando formas geométricas nas unhas. A que jogava baldes d'água em quem passava pelo corredor do pensionato religioso.
A que apagava as provas e refazia para tirar dez, na calada da noite, abrindo sem permissão o armário de provas da freira. Fazendo outras meninas rirem durante o almoço desenhando rostinhos nos guardanapos, provocando desordem e fazendo as colegas levarem broncas.
Eu amava aquela avó. Ela queria que eu fizesse Belas Artes como faculdade. Elogiava minha voz, meu sorriso, sempre que podia. Queria que eu tocasse piano.
Só depois de sua morte eu comecei a tocar. Gostaria muito de ter aprendido a tocá-lo antes, só pra mostrar pra ela.
Não sei porque eu de repente senti a falta dessa mulher.
Eu nunca percebi até agora, enquanto escrevo essas palavras, que ela era meu refúgio quando criança, mesmo sem que ambas tomassem conhecimento disso; ela, aquela mulher muito magra e pequena, de aparência frágil e feições indígenas, o nariz e as maçãs do rosto muito características dos ameríndios.
O sotaque gaúcho e maneirismos de sua terra, o chimarrão que tomava de manhã e até o cheiro do cigarro me davam uma noção do que era "lar".
Depois que ela morreu, eu não gostei mais do cheiro do cigarro. Passou a me dar dor de cabeça.
Lembro-me que quando ela viajava para o Rio Grande do Sul eu morria de saudade, e que uma vez eu a ouvi me chamar numa dessas ausências, e que sua voz naquele sussurro imaginário me lembrava uma coruja. Quando corri para fora de meu quarto, pronta pra gritar "Vó, tu voltou!", deparei-me com o ar vazio.
Quando eu acordava, todo dia, gritava "Vóooo! Acordeeei!", e ela gritava de volta que eu descesse as escadas e fosse tomar café.
Coruja.
É algo que me remete sempre a ela. Porque ela era bonita como uma coruja. Olhos grandes e nariz de ave, o rosto fino e o olhar profundo de quem já viveu de tudo. Sua voz era de coruja.
Era corajosa e despudorada. Esnobe, até. Por vezes insuportável, aos olhos da família, mas me amava. E eu era a neta preferida, a única da família que poderia enfrentá-la, e ainda assim não o fazia, porque me sentia como ela. Eu era uma réplica sua, mas vergonhosamente menos desafiadora.

Ando pensando muito em minha avó.
Selany. Esse nome lhe caía muito bem.
Sinto sua falta e gostaria de ser como ela.
Mas, infelizmente, não posso tê-la de volta. E nem posso me despedir dela. Porque ela estava no hospital e ninguém me levou. Ninguém levaria a menina de 13 anos para o leito de morte de uma velha. Mas eu gostaria de ter beijado aquelas faces enrugadas uma última vez. Gostaria de sentir o cheiro de sabonete que nunca saía dela.
E amaria ouvir sua voz novamente.

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