sábado, 9 de outubro de 2010

Sábado de Manhã

Sábado.
O sol tímido tenta usurpar a janela. Quer ganhar terreno por sobre a colcha rosada da cama.
O irmão roncando. O outro já dá seus passinhos alegres pelo patamar, com o pai a perguntar-lhe "onde tá indo, Gabe?".
Toma coragem e levanta-se.
Os pés, descalços, tocam o chão frio. Toma a porta.
O bebê caminha até ela e grita seu nome, abrindo os bracinho gorduchos, pedindo colo: "Ana! Ana! óia a Ana". Um galanteador nato.
Pega o menino no colo, dá-lhe bom dia. Devolve-o para os pais, vai ao banheiro.
A partir daí tudo é mecânico: lavar as mãos, abrir a porta, ir para a escada; descê-la (a escada), sentar-se à mesa. Corta uma fatia do bolo abatumado de ontem à tarde. Serve-se de café e obriga-se a mastigar, obedientemente, a massa amorfa de chocolate.
Levanta-se, pois, e toma uns goles de suco de maçã.
Volta a subir as escadas. A madeira sem verniz com o padrão tão conhecido dos veios da madeira...
Volta ao quarto: Clarice a espera.
Entre uma página e outra da Cidade Sitiada o sol vai saíndo detrás das nuvens cortinadas.
Abre a janela. O ar frio da manhã entra no quarto, misturando, diluindo seu cheiro. Um sábado com alma de domingo e tanto a fazer...
Ontem era um dia feliz. Mas a mãe gostava de deixar as coisas normais, entristecendo-a e fazendo-a regredir de todo o progresso. Estava resoluta, agora. Não precisava mais agradar.
E nisso ia lendo, entre uma reflexão e outra, entre os lençóis - precisavam ser trocados! - da cama velha.
O irmão continuava ressonando em seu sono adolescente.