segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

cidade fria

às vezes eu sinto como se não tivesse amigos.
às vezes eu sinto como se minha única companheira fosse eu mesma.
às vezes eu sinto que o único lugar que me conforta
é aquele canto escuro que está dentro de mim,
na cidade fria do meu coração.
a fria e solitária cidade onde choramos juntas, eu e eu mesma.

eu fico aqui, pois sei que essa cidade me ama.
fico, pois sei que aqui não há alguém.
eu fico aqui, pois o que há lá fora não existe.
deixe-me cantarolar velhas canções que me lembrem velhos amigos, aqueles que aqui não significam mais.
deixe-me aqui, deixe-me chorar; deixe-nos chorar juntas, eu e eu mesma.

Este lugar me conhece, me acolhe.
Aqui é frio, aqui me sinto bem.
aqui venta muito e é brisa boa.
sinto como se meus cabelos congelassem.
o ar frio que penetra meus pulmões. e eu continuo aqui.

aqui há paz, e todo mundo está do lado de fora.
aqui é muito bom, mas não posso lhe convidar para entrar,
pois é meu único lugar, o único onde me sinto bem.
só eu tenho a chave.

aqui a tristeza é uma doce sensação.
cada sacrifício é doloroso e reconfortante;
as memórias e lembranças ruins se tornam boas, repentinamente.
aqui as lembranças vêm até mim de forma natural e as lágrimas rolam como se tivessem vontade própria
aqui, na cidade fria de meu coração.

eu nunca quero me sentir como me senti naquele dia
a falta de sentimento...
mas aqui na cidade fria eu quero lembrar
então me leve para lá.
leve-me para a cidade fria de meu coração.

deixe-me lá.
onde o vulto de cabelos negros vem me assombrar
e aqueles olhor verdes, tão devotos, me guardam e protegem.
aqui eu posso vê-los, apenas aqui dentro.
aqui onde adormece alguém na torre alta.

aqui há uma torre alta, como no conto da Rapunzel
lá dentro está uma rainha morta, como naquele filme
e lá está guardado um frasco de tristeza que contém meu sangue
e esse é o sangue que usarei para matar o príncipe
este é o sangue venenoso que usarei para matá-lo, pois ele quis roubar meu sossego.

lá fora está todo mundo.
lá fora, então, há ninguém.
aqui há apenas eu.
eu e eu mesma, com os vultos dançantes dos meu velhos companheiros
aqui é que está todo o mundo.

aqui, na cidade fria de meu coração.

Pedras

Poemas inspirados por sonhos, atoron.
Esse é ridículo, saca só:



Corra.
Corra para que as lembranças te inundem,
Num redemoinho pra te deixar tonto,
Louco, cair no chão.

Corra.
Depressa. Na beira do mar, na ilha da lua.
Deite na areia, chore com o barulho do mar.
Deixe essas águas tomarem conta de você. Deixe-se afogar.

Corra.
Esse sentimento novo assusta.
Corra, mas não o deixe fugir.
Ele está na costa da praia, esperando você, sentado nas pedras.

Corra.
Você consegue alcançá-lo?
Consegue distinguir o vulto?
Corra, embora ele possa esperar.

Corra.
Você consegue distinguir
Se ele está sorrindo para você?
Corra, as soluções estão lá.

Corra.
Aqui chove, mas lá há luz do sol.
Lembre-se deles e os deixe para trás.
Eles não estão mais ao seu lado

Corra.
Chegue perto dele e então
Ache o caminho para o castelo de areia
Na colina verde, com o homem das pedras.

Jogo do Ar

 O poema a seguir é um jogo de palavras bobinho que eu fiz há muito tempo, algumas semanas depois da formatura da 8ª série. Espero que gostem.



Vazia como teu quarto, teu espaço, tua mente
Coração, alma, ouvido, audição, cérebro, um nada

Esperando areia, vento, brisa do mar
Leve soprar do outono, ver o tempo passar
Num instante declina, decifra o teu olhar
Muda, gera, cresce, brilha
Vê a chama acesa apagar

Viaja para perto dele, colina, verde, amar.
Voa como pluma, bate como água
Fere como pedra, queima feito fogo

Volta para a festa, tempo que vai passar
Olha, escuta, dança, sente
Beijo não quer beijar
Língua, lábio, dente, sorriso
Braço que quer abraçar, falar

Quer enlaçar de pernas, braços, traços, sem pensar
Murmúrio não é segredo, é sopro, é quase apaixonar

Vem da língua para o ouvido, envolvente toque, sussurrar
as palavras saem roucas, elas não querem falar
cabelos esvoaçam, roupas, panos a balançar
par de olhos, três segundos, uns instantes, olhar com olhar
olha o lado, fala algo, some sem respirar

ar não há, flutua leve, olhos ao longe
dois pares de olhos amigos, saem para falar
ao longe sai às pressas, não quer mais ficar

um suspiro, rosto alegre pelo que acabou de escutar
duas almas com tudo que pode ser dito
duas almas com nada do que deve ser feito

agora, vazia como o quarto, coração sem palpitar
peito que não movimenta, pulmão sem respirar
ar falta, não importa, já não quer mais levantar

deitada em sua cama, espera o tempo passar
noite, estrela, brilha lua, alma cansada de esperar.
Tenta viajar até ele, distante, só vê o mar
Castelo, longe, colina; é onde quer estar.

Marasmo Criativo - O porquê do nome do blog

Antes eu podia falar sobre tudo.
Qualquer coisa me servia de assunto,
qualquer coisa desencadeava jorros de palavras.
Era forte.

Agora eu me sinto pobre, fraca, seca.
Anorexia criativa.

Antes eu sentia como se as palavras fossem sangue,
jorrando incessantemente de uma ferida recém aberta.
Agora tenho que me esforçar para conseguir me expressar.
Bulimia criativa.

Antes eu queria me expressar de forma indireta,
queria que lessem meu sentimento, minha emoção.

Agora não tenho emoção,
não tenho sentimento,
nada para ser expresso.
Será que você é capaz de compreender?

Não é a falta de criatividade que me preocupa.
Muitas pessoas vivem com ela e nem ligam.

Meu problema, meu medo,
é aquilo em que me tornei.
Alguém sem nem vontade de ter criatividade,
alguém que não se importa mais se não pode dizer como se sente.

Olá, meu nome é ramo seco, pronto para ser quebrado.
Quebre-me, ou inspire-me: eu não gosto de marasmo criativo.