quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Lata

Isso é um pouco estranho.
Quando você está voltando para casa e passa por aquelas meninas super bonitas no terminal de ônibus, com suas barriguinhas à mostra, um piercing pendendo delicado, luzindo e balançando pra lá e pra cá enquanto elas caminham em seus saltos - plataforma ou não - e mexendo o tempo todo em seus cabelos bonitos.
É sempre a mesma coisa. Passam essas mulheres fenomenais, outras que acreditam ser, e outras que prefeririam não ser notadas.
Não me encaixo em nenhum desses grupos, e portanto não me considero parte de nada disso. Eu faço parte do pequeno grupo de pessoas que se contenta em reparar em todos.
Por exemplo, aquele homem sempre desce no terceiro ponto. Aquela mulher com o cello que usa sandálias de couro e há uns três meses passou a usar óculos de grau desce depois de mim. Antes ela descia no ponto próximo à praia da Ponta. Às vezes ela come uma banana no ônibus, e vive cuidando para que ninguém esbarre no seu amado instrumento musical.
Aquele cobrador com as pernas tortas, os olhos doces e amendoados, castanhos, com longos cílios espessos e negros, ele olha para você com curiosidade. Ele é simpático.
E aquele motorista que sempre para alguns metros depois do seu ponto, perto de sua casa, por simples agradecimentos pelos seus acenos e sorrisos?
Pessoas cujos nomes você nem conhece, mas que sabe das manias, o sotaque que têm, o som de suas vozes.
E então você tenta não pensar nas coisas que acabou de fazer, na pessoa que acaba de encontrar, no que tudo isso implica, mas é impossível. E você acaba se deixando levar pelas memórias recentes, vívidas, e de repente vem aquela vertigem, um arrepio, a reviravolta do estômago, aquele formigamento.
O ônibus não está correndo, mas quando você se dá conta já tem que puxar a cordinha e descer. Você quase perdeu o ponto.
Isso é desconfortável.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Novelo

Pegue um novelo. Desenrole-o.
Agora ande com ele, arrastando-o pela casa
De forma que obtenha um lindo nó no final da operação
assim verás o bolo de fios que podem ser comparados a sua vida.

Eles não são lineares ou ininterruptos.
Agrupamentos súbitos cortam fluxos informacionais
Esses grandes emaranhados que surgem repentinamente num fio
são as situações que te atropelam e que te controlam.

Você não prevê.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Quem sabe?

Com o ano se aproximando do fim, as nuvens não deixando o costumeiro sol de dezembro dar o ar do verão que se aproxima, digo minha despedida aos anos de colégio.
Nunca odiei a escola. Desde muito mais nova do que sou agora eu detestava faltar às tão desejadas aulas. Eu me sentia útil e não havia espaço para o tédio em meio às descobertas que eu fazia com os livros e com os professores. E no entanto, neste último ano, senti-me fatigada pelas cobranças que me parecem irracionais daqueles que algum dia já passaram por esta mesma fase, mas talvez não tão decepcionados como eu. Porque eu não queria me estressar com vestibulares ou notas, mas todos que outrora não se importavam com este tipo de idiotice passaram a falar apenas nisso, e eu me senti no meio de gente paranóica, sistemática e sem graça.
O que quero dizer é que eu nunca me senti tão cansada daquelas paredes, daqueles tão conhecidos rostos. Talvez minha vida pessoal tenha atrapalhado nesse sentido, mas a escola não era mais uma fuga da minha vida, era uma parte dela da qual eu queria fugir, de forma que fiquei meio sem rumo.
Mesmo entre meus amigos, senti-me muito sozinha. E na realidade, são meus novos amigos, ou seja, aqueles que fiz há dois míseros meses - mas que se tornaram surpreendentemente significativos - que fizeram com que este ano valesse a pena.
A forma como minha relação com dois professores em especial se estreitou também fizeram o ano ser, no final das contas, memorável - de forma positiva, obviamente.
No mais, encerro a escola decepcionada. Estou muito feliz por ter acabado, sentirei saudade deste tempo, mas não é com tristeza que saio de lá.
A perspectiva da faculdade não me assusta mais, e quem sabe daqui a uns anos eu não serei uma professora de história super doida?
Quem sabe?

Épico

Conforme o prometido (a você, Anselmo), a tradução do poema do post anterior.

"Épico"

Venha. Seja protegido pelo abrigo de meus olhos.
Seja cingido pelos rios de minh'alma;
Seja um companheiro para meu coração verde -
O único com as folhas crescidas.

Tente. Entenda que você não está sempre certo.
Veja através de meu lago profundo - os castanhos olhos meus -
E assista a sua própria criação.

Aguarde. Envelheça um pouco e verá
O quanto mais tempo eu tenho esperado para estar,
Para ser aquela em seu caminho de fumaça e problemas.
Você não é o Ancião que finge ser.

A bruma turva e embaçada de seus olhos,
As luzes coloridas que deles emanam, insípidas,
Elas não refletem sua alma amargudara
Ou mesmo sua rebeldia injustificada.

sábado, 27 de novembro de 2010

Epic

Come. Be protected by the shelter of my eyes.
Be embraced by the rivers of my soul,
be a fellow to my green heart -
the only one with the leaves grown.

Try. Understand that you're not always right
see trough my deep lake - the brown eyes of mine -
and watch the creation of your own.

Wait. Get a little stale and you will see
how longer i've been waiting to be
the one on your path of smoke and troubles
you're not the old man you're pretending to be.

The mists from your eyes dim and blurred,
the colored light emanating from them insipid
they do not reflect your soul embittered
or even your transgression unjustified.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Gostaria de ser inquebrável.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

do mundo em volta

Por vezes encho-me de todos
dos que estão à minha volta
e dos que estão às voltas comigo.

Canso-me de tanto interpretar
apreciaria ser mais que apenas interpretada
gostaria que gostassem do que vissem.

Querer, querer, querer.
O mesmo nunca poder,
e o sempre se foder.

Mas vá, são coisas da vida
estamos acostumados e o mundo pode ser bem pior
nossos quartos são bonitinhos, até.

E a fome não assola nossas portas.
Veja bem, nós ainda temos cozinhas
e alguma coisa pra fazer nelas.

Mas voltando à questão inicial
do negócio de estarmos sempre às voltas
dizem amigos meus que eu gosto disso

Sim, queridos, até vai
mas aonde chega minha disposição pra tanto?
Talve digam isso por nunca terem me visto chorar.

É, talvez só precisem me ver chorar.

fendas e espelhos

Insondáveis olhos, profundos e tão fechados...
De todos os outros que me falam
São os únicos que se calam
E permanecem, pois, mal interpretados.

E por mais amargurados que permaneçam os olhos meus
Continuam sempre abertos, espelhos d'água
Podes ver cá dentro toda angústia e toda mágoa
Sempre que quiserdes refletir os teus.

Sou-te um livro aberto em temores
dentro de mim permanecem todas as dores
que meu peito sofria e ainda há de sofrer.

Porque sei que elas não acabam aqui
e também que não livrar-me-ão de ir
pr'onde quer que tu estejas, meu amor.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Saudades de Selany

A morte próxima não me causa muito efeito; a morte de um bichinho na estrada me comove mais que a morte de meu próprio cachorro.

E quando minha avó morreu, eu não chorei.
A não ser um mês depois, quando sonhei que a encontrava e, como numa despedida, ela me dizia, como costumava dizer em vida "Ah, Aninha, meu amor, tu estás mais bonita que ontem!" e sorria, com aqueles grandes olhos que tive a felicidade de herdar, com aquele rosto que eu tanto amava e aquela personalidade forte da menina que deu o primeiro beijo atrás da igreja, aos nove anos, aquela que colava nas provas desenhando formas geométricas nas unhas. A que jogava baldes d'água em quem passava pelo corredor do pensionato religioso.
A que apagava as provas e refazia para tirar dez, na calada da noite, abrindo sem permissão o armário de provas da freira. Fazendo outras meninas rirem durante o almoço desenhando rostinhos nos guardanapos, provocando desordem e fazendo as colegas levarem broncas.
Eu amava aquela avó. Ela queria que eu fizesse Belas Artes como faculdade. Elogiava minha voz, meu sorriso, sempre que podia. Queria que eu tocasse piano.
Só depois de sua morte eu comecei a tocar. Gostaria muito de ter aprendido a tocá-lo antes, só pra mostrar pra ela.
Não sei porque eu de repente senti a falta dessa mulher.
Eu nunca percebi até agora, enquanto escrevo essas palavras, que ela era meu refúgio quando criança, mesmo sem que ambas tomassem conhecimento disso; ela, aquela mulher muito magra e pequena, de aparência frágil e feições indígenas, o nariz e as maçãs do rosto muito características dos ameríndios.
O sotaque gaúcho e maneirismos de sua terra, o chimarrão que tomava de manhã e até o cheiro do cigarro me davam uma noção do que era "lar".
Depois que ela morreu, eu não gostei mais do cheiro do cigarro. Passou a me dar dor de cabeça.
Lembro-me que quando ela viajava para o Rio Grande do Sul eu morria de saudade, e que uma vez eu a ouvi me chamar numa dessas ausências, e que sua voz naquele sussurro imaginário me lembrava uma coruja. Quando corri para fora de meu quarto, pronta pra gritar "Vó, tu voltou!", deparei-me com o ar vazio.
Quando eu acordava, todo dia, gritava "Vóooo! Acordeeei!", e ela gritava de volta que eu descesse as escadas e fosse tomar café.
Coruja.
É algo que me remete sempre a ela. Porque ela era bonita como uma coruja. Olhos grandes e nariz de ave, o rosto fino e o olhar profundo de quem já viveu de tudo. Sua voz era de coruja.
Era corajosa e despudorada. Esnobe, até. Por vezes insuportável, aos olhos da família, mas me amava. E eu era a neta preferida, a única da família que poderia enfrentá-la, e ainda assim não o fazia, porque me sentia como ela. Eu era uma réplica sua, mas vergonhosamente menos desafiadora.

Ando pensando muito em minha avó.
Selany. Esse nome lhe caía muito bem.
Sinto sua falta e gostaria de ser como ela.
Mas, infelizmente, não posso tê-la de volta. E nem posso me despedir dela. Porque ela estava no hospital e ninguém me levou. Ninguém levaria a menina de 13 anos para o leito de morte de uma velha. Mas eu gostaria de ter beijado aquelas faces enrugadas uma última vez. Gostaria de sentir o cheiro de sabonete que nunca saía dela.
E amaria ouvir sua voz novamente.

sábado, 9 de outubro de 2010

Sábado de Manhã

Sábado.
O sol tímido tenta usurpar a janela. Quer ganhar terreno por sobre a colcha rosada da cama.
O irmão roncando. O outro já dá seus passinhos alegres pelo patamar, com o pai a perguntar-lhe "onde tá indo, Gabe?".
Toma coragem e levanta-se.
Os pés, descalços, tocam o chão frio. Toma a porta.
O bebê caminha até ela e grita seu nome, abrindo os bracinho gorduchos, pedindo colo: "Ana! Ana! óia a Ana". Um galanteador nato.
Pega o menino no colo, dá-lhe bom dia. Devolve-o para os pais, vai ao banheiro.
A partir daí tudo é mecânico: lavar as mãos, abrir a porta, ir para a escada; descê-la (a escada), sentar-se à mesa. Corta uma fatia do bolo abatumado de ontem à tarde. Serve-se de café e obriga-se a mastigar, obedientemente, a massa amorfa de chocolate.
Levanta-se, pois, e toma uns goles de suco de maçã.
Volta a subir as escadas. A madeira sem verniz com o padrão tão conhecido dos veios da madeira...
Volta ao quarto: Clarice a espera.
Entre uma página e outra da Cidade Sitiada o sol vai saíndo detrás das nuvens cortinadas.
Abre a janela. O ar frio da manhã entra no quarto, misturando, diluindo seu cheiro. Um sábado com alma de domingo e tanto a fazer...
Ontem era um dia feliz. Mas a mãe gostava de deixar as coisas normais, entristecendo-a e fazendo-a regredir de todo o progresso. Estava resoluta, agora. Não precisava mais agradar.
E nisso ia lendo, entre uma reflexão e outra, entre os lençóis - precisavam ser trocados! - da cama velha.
O irmão continuava ressonando em seu sono adolescente.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Soneto torto contra tua Empáfia

Armando-se de porquês e de defesas sem sentido,
fechando-se num corpo de prazer não permitido.
Achando tudo feio, tosco ou inferior,
tu já não tens anseios, nem ao menos um sabor.

Perdeste teu rumo, teu fumo, teu fervor.
Só tens o teu orgulho e ideias sem valor.
Tu vais te afundando na tua solidão
e ainda assim esperas que alguém te dê razão

Não é a toa que dizem que ninguém sabe quem tu és.
Querido, tu não podes ter todos aos teus pés,
como se fosse verdade que tu sabes mais que nós.

Por favor, volte agora, não afunde o teu ser
se te arrancaram os olhos, não significa que não possas ver.
E eu só te digo isso porque me deram o dom da voz
para que eu possa cantar na tua cara o que te faz ser tão atroz.


RIMAS BARATAS MODE ON! É isso aí.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

#confições


Às vezes tenho medo de escrever. Medo de que quem não deveria leia e entenda.
Tenho medo de escrever. Medo de me escrever, de me expor inteira diante de olhos que não deveriam me ler.
Tenho medo de me traduzir àqueles que nem imaginam que eu seja outro idioma.
Você não me conhece e nem quer me conhecer.
Tenho observado as coisas ao meu redor, e parece que elas nunca estão relacionadas a mim. Parece-me que as pessoas não me vêem em primeiro plano.
E não há nada que me faça mover as coisas.
Estou num momento trancado dentro de minha própria mente. Estou trancafiada em meu próprio coração.
Então eu espero. Por todos vocês que não sabem o que fazem
Espero; por todos aqueles que têm medo de mim; de me ferir ou de por mim serem feridos.
Espero.
Não tenho poder sobre nada disso, é inútil. Nenhuma recionalização pode me tirar o poder da minha intuição e o que eu já nem sei se é verdade.
Porque a primeira vez em que as coisas começaram a fazer sentido...
Bem, estou divagando, apenas.
O fato é que eu não sei. E parece que por muito tempo vou ficar nesse estado de torpor.
Alguém, por favor, salve-me.

sábado, 24 de julho de 2010

Coisas velhas

Eu não tenho mais medo de admitir. Acho que isso não muda nada. Até porque isso nem me dói mais...

Terceira Casa

Desvendando teus enigmas,
compenetrada em teus traços,
perdidamente apaixonada,
profundamente insatisfeita.

O que queres aqui, ó, moreno lindo?
Arrastas tudo o que tenho com tua dor.
Daria tudo para não ter que ver isso de novo.

Tem dias que não leio teus pensamentos.
Há meses tua irregularidade acentuou-se,
e é aí que eu danço a tua dança
tu o metrônomo, eu a bailarina.

És compasso composto;
minhas mãos quase não acompanham o ritmo.
És composição complexa e impactante.

Há aquelas frases em que meus dedos escorregam
frágeis, vacilantes, débeis, fantasmas pelas teclas.
Não sei em que tom estou tocando,
e quase me perco em ti.

Então tua expressão muda,
as notas ficam mais suaves,
soam mais precisas, mas não em staccato.

Tu te viras em minha direção
e então eu sei o que vai acontecer.
Seguras minhas mãos,
depois, pousa as tuas em meu rosto.

É aí que me confundo.
É quando a noite me faz pensar e imaginar
é quando as cartas falam de um futuro cheio de amor.

Mas no outro dia, moreno, tu mudas novamente,
e é quando eu quase morro;
é quando eu sinto as lágrimas ardrem em meus olhos;
é quando eu ponho minha máscara e finjo, sem sucesso, não ligar.

Por que me testas, anjo, meu "anjo da música"?
Sou eu, afinal, como todos os outros seres,
aqueles que se apaixonam por ti e tu nem te importas?

Sinto-me como a menina ludibriada pelo lobo.
Sinto-me como a bailarina enfeitiçada pelo fantasma.
Sinto-me a rainha que sucumbe à conquista do cavaleiro.
Sou a Julieta que cai pelo Don Juan, achando que ele é Romeu.

Vai, vai embora. Sei que voltarás à mim.
Velarei tudo que for teu que permanecer comigo;
velarei tudo aquilo que permanecer de teu em mim.
Velarei a mim mesma, moreno.

E então serei teu anjo, sendo que tu nem perceberás.
Tuas paixões em meus ouvidos me fazendo sangrar
Tenho de ti o que queres me dar. Um dia isso bastará.

Êêê, lapsos momentâneos dos quais me arrependo em cinco minutos.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

#postssemtitulo

E teus olhos me perseguem, como as contas negras de um rosário satânico, lembrando-me sempre de tua presença maligna. E muito embora tristes, essas contas muito negras e muito brilhantes são, às vezes, minha única alegria. Ter o teu olhar sobre mim, meu único consolo nestes dias tão frios.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Feiticeira em fúria #rascunhos

Com todas as estações eu rogo
Que você permaneça em inverno longo,
negro, frio e vazio.
Mil anos são suficientes, eu creio.
Você não sabe como é ser
eu.

Medo de ti

O que essa menina sente?
O quanto ela mente?
O que ela esconde?
O olhar dela deve dizer onde.

Tu olhas para mim
como se estivesse confuso.
Como se defendendo de farpas
que eu possa soltar.
Mas também eu
tenho medo de ti.

Canção mais Triste

minha canção mais triste
cantada apenas com as barras
das rimas mais frágeis
dos sentimentos mais simples
dos fios mais finos

minha canção mais triste
arrebenta rápido
é cantada sem pressa
e sussurrada em teus ouvidos

na minha canção mais triste
eu vivo, respiro e sonho ao teu redor
envolta em meus véus de pureza.
frieza, dor e tristeza

na minha canção mais triste
eu morro pelos refrões mais toscos
me desfaço em compassos intermináveis
dando voltas em torno de ti

minha canção mais triste
fica balançando entre dois extremos
pendurada pelo fino fio
da teia de meus pensamentos ardilosos
em torno daquilo que mais amo

na minha canção mais triste
fica constatado o fato
de que o cristal espelhado do pêndulo
que um dia hipnotizou a nós todos
quebrou-se em mil pedaços
e que meu reflexo não se vê

na minha canção mais triste
eu sou, de fato, um espectro
rondando toda a cidade
subindo todas as escadas

atravessando todas as pontes
fechando todas as portas
caindo depois de segurar o fio
a teia que nos prende, ligados.

sábado, 26 de junho de 2010

Hematomas



Meu coração não é vermelho
é roxo de hematomas
de tanto levar pancadas
de nem se lembrar de quem foi.

E a cada vez que ele bate mais rápido,
quando me apaixono,
ele se aperta em aviso:
"Não se meta em amores,
ou eu lhe abandono o peito".

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Processo Criativo Frustrado

Mudei o nome do blog - não que alguém leia isso aqui, mas é bom avisar.
Não é que eu ache que os pensamentos da gente sejam compartimentados - ao menos os meus, certamente, não o são -, mas acho que fica legal a analogia. Até porque tudo que eu escrevo, antes de vir pro blog, fica por longos períodos no limbo das gavetas, das pastas, dos cadernos impublicáveis.
Gosto de escrever, mas, como diria Ana Elisa Ribeiro, "Perdi a veia/Não escrevo mais/Como tecia a teia."
É isso, que aconteceu.
Eu costumava escrever mais. E talvez não esteja escrevendo por medo dos meus pensamentos.
Um amigo me disse que a pior coisa que pode ocorrer a uma pessoa é o medo - e olha que ele estava falando apenas de uma prova de geografia! - e acho que eu percebi que ele está certo.
Tenho muito medo. Eu deveria ser mais impulsiva. Honrar meu signo, na verdade.
Mas não consigo.
E meu caráter criativo fica limitado aos intermináveis desenhos.
Mas não tenho muito talento pra isso, sabe?
O processo criativo tem me frustrado. Mas vamos lá.

Aleatoriedade Criativa

Os pingos cortam o ar
e chegam até a janela;
o barulho já não é suficiente
pra me confortar.

Tenho sono mas não durmo
Tenho fome mas não como
Penitência incosciente
De uma consciência irrelevante,
de uma cabeça sem mente.

Não me deixe pensar.
Por favor, não me deixe.
Não me deixe sentir
porque você não sente.

Tudo parece tão longe
e as palavras mais simples
foram feitas para nós.
Não quero uma definição complexa
para o que me acontece.

Porque a idiotice é o que me resta
e o resto é pouca coisa
nem amor, nem beleza
só me resta distância e frieza.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Teste

Por que me pede?
Por que se importa e depois se esquece?
Por que me tenta?
Se você nem quer saber qual é meu gosto.

E não eu não queria falar sobre isso.
E eu não pretendo esfregar isso na sua cara
Como se pudesse cobrar isso de você de alguma forma
você não está em teste.

domingo, 6 de junho de 2010

parodiando mika

I tried to be Amanda Palmer
But all her looks were too punk
So I tried a little GaGa
I've gone identity mad!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Trecho de "I See You", música composta pelo Mika.

"Truth be told
My problems old
You mean the world to be but you'll never know
You could be cruel to me
While we're risking the way that I see you"

domingo, 21 de março de 2010

Ana Terra,





Fios negros de seu cabelo bem penteado. São só pedaços daquilo que já a tocou. Tantos outros ainda segura. Procurando e achando segurança em todas as linhas já descobertas. Usando-as em suas danças para compor outra história. Absorvendo toda Terra que pode alcançar com toda mistura que pode conter. Combinando alegria e culturas, do Brasil e de climas temperados.
De pensamentos, de reflexões que se entrecruzam entre todas as Ana's , em toda Ana.
O tempo da Terra não a preenche, nem a revela. São 16 anos de um romance gigante, mas nem perto do tempo de todos bastidores, de todas as reservas. Toda presença em pensamentos de amigos, da família, toda conversa simultânea, toda troca, nem tudo isso consegue criar uma boa sinopse, mas se cria. Cada conhecido tem uma, escreveu em pensamento pelo menos uma resenha atrativa sobre uma parte de você, eu tenho mais, e a agradeço por poder conhecer mais, mesmo atrás de uma tela em quase toos os parágrafos das resenhas que fiz.
Fico aqui tentando simplificar o complexo de formação de mais de uma década, é mais que um governo, mais do que um país. É uma amiga pra mim, uma menininha e uma mulher, uma senhora culta de idade adolescente, e uma adolescente buscando seus ideais e se jogando em suas temporárias loucuras e de tudo mais que diverte e faz pensar. Cantando e celebrando o real que se sente e é múltiplo. Maior que um salto que se pode usar, maior do que a ilha que vivemos.

Amo você muito mais do que o Google Earth!
Amiga, não tem como, você é um pouco dessa escrita, aliás, essa escrita é um pouco de você. Escrita, vida, musica, arte, ciência. e mais!


Cartinha de aniversário que Michelle, uma das minhas melhores amigas, me entregou ontem, dia 20 de março.
Achei linda, e vou guardar comigo até o fim desta vida.
Eu te amo, My Michelle :*

terça-feira, 16 de março de 2010

Colisão

Quando as estrelas explodem
quando a chama consome
quando a nuvem se forma
e a chuva me mata afogada.

Quando ela se apaga
a vela, a cera derrete.
A lágrima roxa cai
e então ela morre.

Deixe-a lá, imersa
em poeira dourada
deixe-a lá.

Flores secas que não vivem
paralisando o tempo em si mesmas
Marcam as velhas páginas

Quando as estrelas explodem
os sonhos colidem
a nuvem se forma
e a chuva nos mata afogados

sábado, 6 de março de 2010

"Comme la nuit nous manque parfois... Le noir serait plus à mon goût."

Esta música linda aparece no filme "A Bela Junie" (Le Belle Personne), do diretor francês Christofer Honoré. É uma música maravilhosa, e uma cena mais que dramática.
Esse filme, sobretudo essa música, me inspiram bastante. Eu recomendo.
Eu que tive que traduzir, mesmo sem entender nada de francês. Espero que não tenha ficado muito nada a ver...
Bem, leiam e, por favor, gostem.

"Como a Chuva" (Comme La Pluie) - Alex Beaupain

Como a chuva às vezes nos faz falta ...
Uma tempestade faria mais sentido agora
Para gritar essas coisas
E atirar estas palavras na cara.

Como a chuva às vezes nos faz falta;
Como o sol nos mata;
Como seus raios nos parecem frios
Quando já não se ama mais.

Como as forças, às vezes, podem nos faltar...
Uma briga teria mais garganta
para lançar-se e bater em seu rosto.
Enfim ninguém mais seria covarde.

Como as forças, às vezes, nos fazem falta
Como nossos braços podem nos trair!
Quando o amor entre nossos dedos
como areia desliza.

Como as lágrimas às vezes nos fazem falta...
Um melodrama teria mais classe.
Qualquer lágrima valeria à pena
Mas, infelizmente, isso é pedir muito.
Como as lágrimas às vezes nos faltam...

Como a noite às vezes nos faz falta...
O preto faz mais o meu gosto
As estrelas, para muitos, como cruzes
E um céu todo de luto por nós.

Como a noite ás vezes nos faz falta...
Como ela tarda a vir!
Quando ele tomba, o que você acha?
Todas essas noites por vir...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

cidade fria

às vezes eu sinto como se não tivesse amigos.
às vezes eu sinto como se minha única companheira fosse eu mesma.
às vezes eu sinto que o único lugar que me conforta
é aquele canto escuro que está dentro de mim,
na cidade fria do meu coração.
a fria e solitária cidade onde choramos juntas, eu e eu mesma.

eu fico aqui, pois sei que essa cidade me ama.
fico, pois sei que aqui não há alguém.
eu fico aqui, pois o que há lá fora não existe.
deixe-me cantarolar velhas canções que me lembrem velhos amigos, aqueles que aqui não significam mais.
deixe-me aqui, deixe-me chorar; deixe-nos chorar juntas, eu e eu mesma.

Este lugar me conhece, me acolhe.
Aqui é frio, aqui me sinto bem.
aqui venta muito e é brisa boa.
sinto como se meus cabelos congelassem.
o ar frio que penetra meus pulmões. e eu continuo aqui.

aqui há paz, e todo mundo está do lado de fora.
aqui é muito bom, mas não posso lhe convidar para entrar,
pois é meu único lugar, o único onde me sinto bem.
só eu tenho a chave.

aqui a tristeza é uma doce sensação.
cada sacrifício é doloroso e reconfortante;
as memórias e lembranças ruins se tornam boas, repentinamente.
aqui as lembranças vêm até mim de forma natural e as lágrimas rolam como se tivessem vontade própria
aqui, na cidade fria de meu coração.

eu nunca quero me sentir como me senti naquele dia
a falta de sentimento...
mas aqui na cidade fria eu quero lembrar
então me leve para lá.
leve-me para a cidade fria de meu coração.

deixe-me lá.
onde o vulto de cabelos negros vem me assombrar
e aqueles olhor verdes, tão devotos, me guardam e protegem.
aqui eu posso vê-los, apenas aqui dentro.
aqui onde adormece alguém na torre alta.

aqui há uma torre alta, como no conto da Rapunzel
lá dentro está uma rainha morta, como naquele filme
e lá está guardado um frasco de tristeza que contém meu sangue
e esse é o sangue que usarei para matar o príncipe
este é o sangue venenoso que usarei para matá-lo, pois ele quis roubar meu sossego.

lá fora está todo mundo.
lá fora, então, há ninguém.
aqui há apenas eu.
eu e eu mesma, com os vultos dançantes dos meu velhos companheiros
aqui é que está todo o mundo.

aqui, na cidade fria de meu coração.

Pedras

Poemas inspirados por sonhos, atoron.
Esse é ridículo, saca só:



Corra.
Corra para que as lembranças te inundem,
Num redemoinho pra te deixar tonto,
Louco, cair no chão.

Corra.
Depressa. Na beira do mar, na ilha da lua.
Deite na areia, chore com o barulho do mar.
Deixe essas águas tomarem conta de você. Deixe-se afogar.

Corra.
Esse sentimento novo assusta.
Corra, mas não o deixe fugir.
Ele está na costa da praia, esperando você, sentado nas pedras.

Corra.
Você consegue alcançá-lo?
Consegue distinguir o vulto?
Corra, embora ele possa esperar.

Corra.
Você consegue distinguir
Se ele está sorrindo para você?
Corra, as soluções estão lá.

Corra.
Aqui chove, mas lá há luz do sol.
Lembre-se deles e os deixe para trás.
Eles não estão mais ao seu lado

Corra.
Chegue perto dele e então
Ache o caminho para o castelo de areia
Na colina verde, com o homem das pedras.

Jogo do Ar

 O poema a seguir é um jogo de palavras bobinho que eu fiz há muito tempo, algumas semanas depois da formatura da 8ª série. Espero que gostem.



Vazia como teu quarto, teu espaço, tua mente
Coração, alma, ouvido, audição, cérebro, um nada

Esperando areia, vento, brisa do mar
Leve soprar do outono, ver o tempo passar
Num instante declina, decifra o teu olhar
Muda, gera, cresce, brilha
Vê a chama acesa apagar

Viaja para perto dele, colina, verde, amar.
Voa como pluma, bate como água
Fere como pedra, queima feito fogo

Volta para a festa, tempo que vai passar
Olha, escuta, dança, sente
Beijo não quer beijar
Língua, lábio, dente, sorriso
Braço que quer abraçar, falar

Quer enlaçar de pernas, braços, traços, sem pensar
Murmúrio não é segredo, é sopro, é quase apaixonar

Vem da língua para o ouvido, envolvente toque, sussurrar
as palavras saem roucas, elas não querem falar
cabelos esvoaçam, roupas, panos a balançar
par de olhos, três segundos, uns instantes, olhar com olhar
olha o lado, fala algo, some sem respirar

ar não há, flutua leve, olhos ao longe
dois pares de olhos amigos, saem para falar
ao longe sai às pressas, não quer mais ficar

um suspiro, rosto alegre pelo que acabou de escutar
duas almas com tudo que pode ser dito
duas almas com nada do que deve ser feito

agora, vazia como o quarto, coração sem palpitar
peito que não movimenta, pulmão sem respirar
ar falta, não importa, já não quer mais levantar

deitada em sua cama, espera o tempo passar
noite, estrela, brilha lua, alma cansada de esperar.
Tenta viajar até ele, distante, só vê o mar
Castelo, longe, colina; é onde quer estar.

Marasmo Criativo - O porquê do nome do blog

Antes eu podia falar sobre tudo.
Qualquer coisa me servia de assunto,
qualquer coisa desencadeava jorros de palavras.
Era forte.

Agora eu me sinto pobre, fraca, seca.
Anorexia criativa.

Antes eu sentia como se as palavras fossem sangue,
jorrando incessantemente de uma ferida recém aberta.
Agora tenho que me esforçar para conseguir me expressar.
Bulimia criativa.

Antes eu queria me expressar de forma indireta,
queria que lessem meu sentimento, minha emoção.

Agora não tenho emoção,
não tenho sentimento,
nada para ser expresso.
Será que você é capaz de compreender?

Não é a falta de criatividade que me preocupa.
Muitas pessoas vivem com ela e nem ligam.

Meu problema, meu medo,
é aquilo em que me tornei.
Alguém sem nem vontade de ter criatividade,
alguém que não se importa mais se não pode dizer como se sente.

Olá, meu nome é ramo seco, pronto para ser quebrado.
Quebre-me, ou inspire-me: eu não gosto de marasmo criativo.