terça-feira, 2 de maio de 2017

um demorar-se sob teus olhos

Queria conseguir descrever a cor dos teus olhos. é que eles se despejam sobre mim de uma forma que me põe amolecida. Tu me amortece com olhos líquidos. Eu fico esperando essa água me esquentar de tu me olhar, enquanto tu te derramas entre minhas pernas, ávidas de te segurar.

Eles têm uma cor quente, esses teus olhos - que me comem, amam, despem, admiram, observam, entendem. Quando o sol lhes apanha eles ficam com nuances alaranjadas muito rápidas. O outono cai repentinamente sobre eles enquanto se demoram, pensativos, em lugar nenhum. Ao mesmo tempo, fazem cair folhas sobre tudo aquilo que sob eles se demora quando eles se demoram, sonhadores, aqui e ali.

Às vezes eu queria poder come-los, como eles fazem quando levanto minhas pernas nuas e distraídas na sua cama, quando estas nos pés dela, tirando ou colocando a tua roupa. Queria sentir essa cor escorrendo pelos meus dedos, colocando-os com delicadeza dentro de mim - meus olhos nos teus, a pele acidentada em arrepios - falanges embaladas pelos punhos livres. De gemidos brotar uma melodia que traduzisse tudo isso - cor, outono, amor, desejo -, pra desenhar em tatuagem funda o momento em que eu vejo teus olhos.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

[sem título]

Hoje a tristeza me suprimiu
Como se comprimisse algo que fica correndo no meu peito
Me fez sair da aula correndo de vazar pelos olhos
Senti um desespero e uma vontade estúpida de te ver.

É engraçado quando fico assim
Sinto uma coisa que eu sentia quando era pequena
E me sentia incapaz, querendo girar a roda do tempo
E estar onde estou agora.

É difícil viver no mundo físico e eu odeio pagar contas.
Sei que depois de amanhã estarei melhor, quando eu sangrar.
Estou aflita de não nos ver, e cansada de estar sempre alerta

Queria cinco minutos do cheiro do teu prédio.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

de te desejar

quando eu te senti de longe
fiquei com um sentimento esquisito no peito
ele me rondou tipo um bicho
mas eu, humana, esqueci o instinto em casa
e fui saindo por aí dando meu corpo desejoso aos homens que me cabiam
e deixando de lado aquele faro animal que me alertava sobre você

e tu era um monte de piadas sem rosto
que nem sequer parecia me levar a sério
e sentia até mesmo tanta familiaridade que tu ficou assim meio no fundo
da minha cabeça incessante nas paranoias
mas sem me noiar nem um pouco

agora você tem rosto
e um corpo de me deixar louca
uma distância de me deixar longe
uma voz de me botar molhada
a sabedoria-de-quem-é-muito-novo de me botar esperançosa

agora que você tem rosto
e que eu o lamberia inteiro
agora que você tem cara
e que eu te aninhava no meu peito
eu fico precisando te sentir, de longe,
e permaneço sem saber
se você me leva a sério.
agora que eu te desejo, eu não sei se você deseja.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Homem-casa ou sobre ele que insistimos em ser coadjuvantes

Estar na sua casa e você não estar aqui é muito estranho
O tipo de vazio que se sente tem um gostinho de saudade misturado com algo doce
É quando me dou conta que não consigo encontrar teu cheiro mesmo que eu entre no teu quarto.

Sonho com você e o coração aperta
E no entanto é impossível me sentir mal,
porque mesmo que meu peito fique pequeno de sentir-falta
Não consigo me angustiar porque esse tu-longe é teu navegar
E tu fica bonito quando experimenta coisas
E mesmo quando não estou envolvida
Fico feliz de te ver sorrir
Mesmo que não possa ver de fato.

Entrei no teu quarto pra sentir seu cheiro mas pouco dele ficou.
Espero que não se importe pela invasão.
Se bem que não me importei quando você me sorriu porque me reconheceu
E me invadiu com esses olhos mansos
Mansidão lânguida que me leva a acreditar
Que tenho casa nessa coisa bonita que é o teu abraço.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

crueldade

eu sempre senti que havia algo de errado
um desajuste
você estava lá, mas ao mesmo tempo não estava
você se lembra das coisas que disse ou elas simplesmente se evanescem de manhã,
quando você parece sentir tanto nojo de mim que nem me abraça?
o que faz você pensar que tem o direito de agir dessa forma?

eu estou tentando sair disso e manter uma relação saudável com você na minha cabeça
eu estou tentando sair disso e manter você numa posição confortável para nós dois
mas você não colabora
você, definitivamente, não colabora
eu não quero ter que fazer isso
eu não quero usar a foice
fazer a colheita da lua nova e ter que te deixar ir
você, definitivamente, não colabora.

eu não vou correr com você
e nem nunca quis isso, se é o que está pensando
você me deixa sem respostas e nem mesmo tem vontade de me fazer perguntas
o que estávamos pensando?
e, mais que isso, no que você estava pensando?, quando fez todo um circo
quando você poderia simplesmente ter me falado "preciso sair daqui a pouco"

eu teria ido embora
teria voltado se você chamasse
a gente bebia e trepava até os vizinhos dizerem chega
e eu tomava meu caminho
e poderia fazer isso de novo, e de novo, e de novo
por cem anos se fosse possível
sem nunca precisar de nenhum verso
de nenhum carinho
um cafuné

eu não estava procurando por isso
eu não procuro por isso
você age como se eu estivesse
e depois tem a pretensão de me acusar de romantismo
te amar e querer ser um casal são duas coisas diferentes.

e nem sinto que posso resolver isso
te olhar na cara e querer te rasgar até os ossos
despejar esses medos e raivas e saber o que você quer dizer pra mim
eu gosto tanto, tanto de saber o que você tem a dizer
e você insiste
em voltar pro buraco de onde veio como se a gente não tivesse nada que ver com isso
depois de termos virado amigos
você quer que eu aja como se tivesse sido só uma festa muito longa
com beijos muito intensos

a partir daqui eu não sei o que fazer.
fico aqui, sigo, esperando.
lembra desse poema? em que eu era Ana Terra.
Sigo sendo mesmo como Ana Terra
e sigo te achando bonito no sono
e você segue com os olhos cruéis
a diferença é que eu finalmente entendi
que você tem olhos cruéis
porque você é inteiro cruel.

eu seguirei aqui. porque é o que eu faço.
eu não tenho problemas em admitir que irei até você se você precisar
que eu me importo com você
mas agora tem que ser a carne, a foda e o álcool goela abaixo
e a despedida sem abraço de que você tanto gosta.
porque eu só gosto de apanhar na cama,
e às vezes eu sinto como se tivesse levado um soco na cara quando você me fala certas coisas.
e mulher nenhuma gosta de apanhar.



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

amargo.

às vezes eu acordo com um sentimento estranho
quero escrever sobre e não sei exatamente o que
porque esse sentimento só tem um gosto estranho
e um exasperar-se que agita a boca do estômago
mas falta delimitação e os termos me escapam.

eu me sinto difícil de amar na maior parte do tempo.
a despeito das solidões gostosas de se amar e se conhecer
a despeito das horas passando pelos meus dedos com gostosidade
desacompanhada e desimpedida,
abraçada por mim mesma no arco do tempo
amando todos vocês em silêncio e sendo o porto que é de vocês desconhecido
fico pensando que sou uma coisa difícil de abraçar e segurar -
eu me sinto difícil de amar na maior parte do tempo.

fico amargurada, confesso.
porque essa certeza me atravessa ao longo dos anos há anos
o céu me ampara às vezes
e às vezes a grama debaixo dos pés.
é comum que a areia me irrite como outras coisas pequenas
e que eu esqueça essa certeza dolorida
mas ela sempre volta.

impassível diante da vida
segue me enrolando nessas teias difíceis
são tantas coisas que ficam guardadas na gente
venho tentado abrir o peito e rasgar meu coração na medida do possível
para que possa carregar o menos comigo. nem sempre vocês deixam.
é aí que o amargo me escorre língua adentro
e fica preso em algum lugar entre a garganta e o fundo da boca.



domingo, 11 de dezembro de 2016

sobre como decidi voltar a estudar música.

está chovendo novamente.
quando eu era pequena, minha avó de voz de coruja
me contava, como se piasse,
que durante a chuva, as árvores dançavam.
balançavam-se assim porque o vento cantava uma canção pra elas
que nós, pessoas, não conseguíamos entender que era uma melodia.

eu sempre quis ser como ela.
inatingível.
mas agora ela se foi e nem sempre me lembro dela -
e nem sempre me lembro de sua força.

sento-me pequena ao lado da minha janela
olho para as mesmas árvores que eu observava
minha vó apontando os dedos finos e delicados para aqueles galhos balançando
a cara de índia
os olhos cruéis
a voz rasgada de cigarro e o cheiro do mate fumegando.
a pele dela com cheirinho de sabonete.

sento-me aqui, olhando a chuva e suas companhias inevitáveis no jardim de casa.
as folhas caindo
os pássaros se protegendo
as frutas caídas na grama
a mãe recolhendo a roupa e pedindo a ajuda do pai
a falta do meu irmão em casa
os passinhos do pequeno na escada.

sento-me aqui e aqui me sinto
mapeando o que dói e o que me deixa feliz
remoendo memórias, e em certa medida me ressentindo da vida
enquanto uma parte de mim respira fundo e se alonga
antes da próxima corrida.

espero ainda poder caminhar com quem amo
espero não precisar deixá-lo pra trás.
espero poder vê-la novamente.
espero reencontrá-lo.
fico feliz de tê-lo esquecido.
desejo nunca ter me apaixonado
rasgo cartas nunca escritas mentalmente
irrompo em lágrimas, depois em sorrisos, e choro novamente.

estou sentimental na beira do insuportável.
inevitavelmente vem a tua imagem na minha cabeça.
respiro fundo, e olho de novo pras árvores.
acho que vou voltar a tocar piano.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

no trânsito em transe

Presa no trânsito, na chuva
Fico imaginando as gotas caindo nas tuas costas bonitas.
Você deitado na grama,
A luz fria deixando tudo meio azulado,
E tuas costas, viradas para o céu como quem desafia deus,
Molhadas e arrepiadas do frio toque da água que corre e se esvai de tuas omoplatas, costelas e vértebras aparentes sob a pele.

Eu sentada, olhando as árvores.
Sentindo aquela cheiro de terra molhada, de chuva e de você,
Lindo e chapado no chão verde de algum lugar que imaginei.

A chuva tem esse poder, você vê,
De me transportar para lugares imaginários ou só meio esquecidos no fundo da minha mente.
Porque pensando bem, já estive nesse lugar antes - embora eu tenha certeza que você não.
Me ponho a cantarolar mentalmente alguma música que gostamos.
Não é tão difícil encontrar nossos gostos em comum.

Eu já tive pavor de escrever pra você.
Era difícil entender onde as palavras queriam ir.
Hoje em dia é fácil te acessar na minha cabeça e te colocar em linhas.
Acho que você me punha medo, mais que eu posso ter admitido.
E não é que eu não fique ainda apavorada de te ver toda vez que você abre a porta,
Ou que teu receio não me deixe preocupada.
Só não tenho mais vergonha de admitir que eu te acesso na minha mente quando preciso aquarelar meu dia.

sábado, 26 de novembro de 2016

certeza

às vezes parece que serei jogada para longe
quando sinto isso eu própria trato de
recolher meus trapos e ir embora
estou adiando minha viagem há muito tempo
estou prolongando minha estadia demasiado
talvez eu esteja juntando forças suficientes para o cortar definitivo das cordas

eu amo, amo com força.
eu não sei amar de outro jeito.
queria tanto pedir desculpas por isso.
às vezes dói.
causa vertigem.
ultrapassa todos os limites imagináveis.
quero tocar sua pele e toco,
mas eu não consigo alcançar você.

e quando isso acontece eu fico genuinamente triste.
e sei que é só dar um tempinho pra um respiro que dali a pouco você volta.
mas tem dias que eu não te quero mais assim.
eu sei que vai passar em um dia ou dois.
mais cedo ou mais tarde vou sentir só alegria de novo.
mas dói muito quando essa certeza de que você não tem certeza me ataca.
porque eu sou muito certa no que eu sinto.


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

divagações nada a ver

odeio quando me sinto assim
há dias que estou desse jeito
uma angústia que não vem de lugar nenhum
uma certeza de que tudo irá se desmoronar e todos irão embora.

eu sei que não irão.
eu sei que essas pessoas se importam.
Eu sei que se eu ligasse pra ele chorando ele se importaria.
e sei que todos os meus amigos ficam desesperados
ansiando por me ver confiando neles.

passei por várias pessoas hoje
e eu estava tão amedrontada pela minha própria vida que
não reparei em nenhuma.
nenhuma moça bonita
nenhum moço de olhar diferente.
só uma dor insistente
como uma cólica
no peito.

acho que preciso sumir.
olho teus presentes na estante.
abro tuas cartas e as releio com carinho.
vou em busca de fotos
vídeos
do som da tua voz e do teu sotaque estranho.

se eu tiver como, quero ter filhas
quando eu tiver uma filha, e se eu tiver uma filha que pareça doce
que olhe curiosa pra tudo
e que não se pareça nada, nada comigo
porque ela seria doce e eu não o sou
só então
eu colocaria nela o nome de
Amanda.



terça-feira, 22 de novembro de 2016

Do não te experenciar

Tem dias que a gente acorda com nuvens brancas no peito e nas têmporas. Me sinto só, não aquele estar só de ser um ser que nasce e morre sozinho, mas um só com gostinho de abandono - quase adolescente, sabendo que ninguém compreenderia.

Primeiro eu senti vontade. Um arrepio que foi tão grande que era quase um evento. Depois eu pensei nele. E então senti uma frustração que não sentia há meses. Depois, em terceiro, virei meu rosto para o lado da parede e desliguei o despertador. Em dias assim não me importo de chegar atrasada.

Uso uma metáfora criada por outro*, e abro uma janela com força, mas ignoro o fato. São tantas as saudades que sinto que uma a mais, uma a menos, que diferença faz? Detenho-me mentalmente nos detalhes dele antes de respirar fundo e encarar o que está de fato me incomodando.

Quis fazer uma prece, mas não senti que faria sentido. O nó se formou na garganta, o desespero me arrepiou, esquentou o pescoço e as orelhas. Desejei uma catástrofe para que eu pudesse chorar sem ser questionada. Fazia algumas semanas que não me sentia assim.

Fatalmente minha mente enfim se voltou para minha tristeza mais antiga, e doeu andar pelo centro da cidade pensando naquele amor morto anos atrás. Como pode ainda ser tão dolorida essa fatalidade que me acometeu tão cedo, quando ainda era uma menina?

Em dias em que durmo pouco, tua imagem, teus olhos tranquilos e profundos, grandes e escuros, aparecem dentro dos meus e cortam meu peito com lâmina fina e quente. A indiferença com a qual o mundo permanece lidando com esse fato dói demais. A indiferença do destino, que insiste em me jogar para longe de você, me mata todos os dias. Eu não deveria ter ficado tão insone. Eu não deveria ter dormido tanto pra compensar. Não há uma noite em que eu não me sinta vazia por pelo menos três minutos, e embora eu nem sempre lembre de você, eu sei que é porque eu não te experienciei direito que esse nada me toma e me arrebata, eventualmente, de manhã.

*"A janela em mim é tão brutal
Longe de você"
Trecho de "Longe de Você", de Vitor Ramil.

Do não te experenciar

Tem dias que a gente acorda com nuvens brancas no peito e nas têmporas. Me sinto só, não aquele estar só de ser um ser que nasce e morre sozinho, mas um só com gostinho de abandono - quase adolescente, sabendo que ninguém compreenderia.

Primeiro eu senti vontade. Um arrepio que foi tão grande que era quase um evento. Depois eu pensei nele. E então senti uma frustração que não sentia há meses. Depois, em terceiro, virei meu rosto para o lado da parede e desliguei o despertador. Em dias assim não me importo de chegar atrasada.

Uso uma metáfora criada por outro*, e abro uma janela com força, mas ignoro o fato. São tantas as saudades que sinto que uma a mais, uma a menos, que diferença faz? Detenho-me mentalmente nos detalhes dele antes de respirar fundo e encarar o que está de fato me incomodando.

Quis fazer uma prece, mas não senti que faria sentido. O nó se formou na garganta, o desespero me arrepiou, esquentou o pescoço e as orelhas. Desejei uma catástrofe para que eu pudesse chorar sem ser questionada. Fazia algumas semanas que não me sentia assim.

Fatalmente minha mente enfim se voltou para minha tristeza mais antiga, e doeu andar pelo centro da cidade pensando naquele amor morto anos atrás. Como pode ainda ser tão dolorida essa fatalidade que me acometeu tão cedo, quando ainda era uma menina?

Em dias em que durmo pouco, tua imagem, teus olhos tranquilos e profundos, grandes e escuros, aparecem dentro dos meus e cortam meu peito com lâmina fina e quente. A indiferença com a qual o mundo permanece lidando com esse fato dói demais. A indiferença do destino, que insiste em me jogar para longe de você, me mata todos os dias. Eu não deveria ter ficado tão insone. Eu não deveria ter dormido tanto pra compensar. Não há uma noite em que eu não me sinta vazia por pelo menos três minutos, e embora eu nem sempre lembre de você, eu sei que é porque eu não te experienciei direito que esse nada me toma e me arrebata, eventualmente, de manhã.

"A janela em mim é tão brutal
Longe de você"
Trecho de "Longe de Você", de Vitor Ramil.