sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

crueldade

eu sempre senti que havia algo de errado
um desajuste
você estava lá, mas ao mesmo tempo não estava
você se lembra das coisas que disse ou elas simplesmente se evanescem de manhã,
quando você parece sentir tanto nojo de mim que nem me abraça?
o que faz você pensar que tem o direito de agir dessa forma?

eu estou tentando sair disso e manter uma relação saudável com você na minha cabeça
eu estou tentando sair disso e manter você numa posição confortável para nós dois
mas você não colabora
você, definitivamente, não colabora
eu não quero ter que fazer isso
eu não quero usar a foice
fazer a colheita da lua nova e ter que te deixar ir
você, definitivamente, não colabora.

eu não vou correr com você
e nem nunca quis isso, se é o que está pensando
você me deixa sem respostas e nem mesmo tem vontade de me fazer perguntas
o que estávamos pensando?
e, mais que isso, no que você estava pensando?, quando fez todo um circo
quando você poderia simplesmente ter me falado "preciso sair daqui a pouco"

eu teria ido embora
teria voltado se você chamasse
a gente bebia e trepava até os vizinhos dizerem chega
e eu tomava meu caminho
e poderia fazer isso de novo, e de novo, e de novo
por cem anos se fosse possível
sem nunca precisar de nenhum verso
de nenhum carinho
um cafuné

eu não estava procurando por isso
eu não procuro por isso
você age como se eu estivesse
e depois tem a pretensão de me acusar de romantismo
te amar e querer ser um casal são duas coisas diferentes.

e nem sinto que posso resolver isso
te olhar na cara e querer te rasgar até os ossos
despejar esses medos e raivas e saber o que você quer dizer pra mim
eu gosto tanto, tanto de saber o que você tem a dizer
e você insiste
em voltar pro buraco de onde veio como se a gente não tivesse nada que ver com isso
depois de termos virado amigos
você quer que eu aja como se tivesse sido só uma festa muito longa
com beijos muito intensos

a partir daqui eu não sei o que fazer.
fico aqui, sigo, esperando.
lembra desse poema? em que eu era Ana Terra.
Sigo sendo mesmo como Ana Terra
e sigo te achando bonito no sono
e você segue com os olhos cruéis
a diferença é que eu finalmente entendi
que você tem olhos cruéis
porque você é inteiro cruel.

eu seguirei aqui. porque é o que eu faço.
eu não tenho problemas em admitir que irei até você se você precisar
que eu me importo com você
mas agora tem que ser a carne, a foda e o álcool goela abaixo
e a despedida sem abraço de que você tanto gosta.
porque eu só gosto de apanhar na cama,
e às vezes eu sinto como se tivesse levado um soco na cara quando você me fala certas coisas.
e mulher nenhuma gosta de apanhar.



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

amargo.

às vezes eu acordo com um sentimento estranho
quero escrever sobre e não sei exatamente o que
porque esse sentimento só tem um gosto estranho
e um exasperar-se que agita a boca do estômago
mas falta delimitação e os termos me escapam.

eu me sinto difícil de amar na maior parte do tempo.
a despeito das solidões gostosas de se amar e se conhecer
a despeito das horas passando pelos meus dedos com gostosidade
desacompanhada e desimpedida,
abraçada por mim mesma no arco do tempo
amando todos vocês em silêncio e sendo o porto que é de vocês desconhecido
fico pensando que sou uma coisa difícil de abraçar e segurar -
eu me sinto difícil de amar na maior parte do tempo.

fico amargurada, confesso.
porque essa certeza me atravessa ao longo dos anos há anos
o céu me ampara às vezes
e às vezes a grama debaixo dos pés.
é comum que a areia me irrite como outras coisas pequenas
e que eu esqueça essa certeza dolorida
mas ela sempre volta.

impassível diante da vida
segue me enrolando nessas teias difíceis
são tantas coisas que ficam guardadas na gente
venho tentado abrir o peito e rasgar meu coração na medida do possível
para que possa carregar o menos comigo. nem sempre vocês deixam.
é aí que o amargo me escorre língua adentro
e fica preso em algum lugar entre a garganta e o fundo da boca.



domingo, 11 de dezembro de 2016

sobre como decidi voltar a estudar música.

está chovendo novamente.
quando eu era pequena, minha avó de voz de coruja
me contava, como se piasse,
que durante a chuva, as árvores dançavam.
balançavam-se assim porque o vento cantava uma canção pra elas
que nós, pessoas, não conseguíamos entender que era uma melodia.

eu sempre quis ser como ela.
inatingível.
mas agora ela se foi e nem sempre me lembro dela -
e nem sempre me lembro de sua força.

sento-me pequena ao lado da minha janela
olho para as mesmas árvores que eu observava
minha vó apontando os dedos finos e delicados para aqueles galhos balançando
a cara de índia
os olhos cruéis
a voz rasgada de cigarro e o cheiro do mate fumegando.
a pele dela com cheirinho de sabonete.

sento-me aqui, olhando a chuva e suas companhias inevitáveis no jardim de casa.
as folhas caindo
os pássaros se protegendo
as frutas caídas na grama
a mãe recolhendo a roupa e pedindo a ajuda do pai
a falta do meu irmão em casa
os passinhos do pequeno na escada.

sento-me aqui e aqui me sinto
mapeando o que dói e o que me deixa feliz
remoendo memórias, e em certa medida me ressentindo da vida
enquanto uma parte de mim respira fundo e se alonga
antes da próxima corrida.

espero ainda poder caminhar com quem amo
espero não precisar deixá-lo pra trás.
espero poder vê-la novamente.
espero reencontrá-lo.
fico feliz de tê-lo esquecido.
desejo nunca ter me apaixonado
rasgo cartas nunca escritas mentalmente
irrompo em lágrimas, depois em sorrisos, e choro novamente.

estou sentimental na beira do insuportável.
inevitavelmente vem a tua imagem na minha cabeça.
respiro fundo, e olho de novo pras árvores.
acho que vou voltar a tocar piano.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

no trânsito em transe

Presa no trânsito, na chuva
Fico imaginando as gotas caindo nas tuas costas bonitas.
Você deitado na grama,
A luz fria deixando tudo meio azulado,
E tuas costas, viradas para o céu como quem desafia deus,
Molhadas e arrepiadas do frio toque da água que corre e se esvai de tuas omoplatas, costelas e vértebras aparentes sob a pele.

Eu sentada, olhando as árvores.
Sentindo aquela cheiro de terra molhada, de chuva e de você,
Lindo e chapado no chão verde de algum lugar que imaginei.

A chuva tem esse poder, você vê,
De me transportar para lugares imaginários ou só meio esquecidos no fundo da minha mente.
Porque pensando bem, já estive nesse lugar antes - embora eu tenha certeza que você não.
Me ponho a cantarolar mentalmente alguma música que gostamos.
Não é tão difícil encontrar nossos gostos em comum.

Eu já tive pavor de escrever pra você.
Era difícil entender onde as palavras queriam ir.
Hoje em dia é fácil te acessar na minha cabeça e te colocar em linhas.
Acho que você me punha medo, mais que eu posso ter admitido.
E não é que eu não fique ainda apavorada de te ver toda vez que você abre a porta,
Ou que teu receio não me deixe preocupada.
Só não tenho mais vergonha de admitir que eu te acesso na minha mente quando preciso aquarelar meu dia.

sábado, 26 de novembro de 2016

certeza

às vezes parece que serei jogada para longe
quando sinto isso eu própria trato de
recolher meus trapos e ir embora
estou adiando minha viagem há muito tempo
estou prolongando minha estadia demasiado
talvez eu esteja juntando forças suficientes para o cortar definitivo das cordas

eu amo, amo com força.
eu não sei amar de outro jeito.
queria tanto pedir desculpas por isso.
às vezes dói.
causa vertigem.
ultrapassa todos os limites imagináveis.
quero tocar sua pele e toco,
mas eu não consigo alcançar você.

e quando isso acontece eu fico genuinamente triste.
e sei que é só dar um tempinho pra um respiro que dali a pouco você volta.
mas tem dias que eu não te quero mais assim.
eu sei que vai passar em um dia ou dois.
mais cedo ou mais tarde vou sentir só alegria de novo.
mas dói muito quando essa certeza de que você não tem certeza me ataca.
porque eu sou muito certa no que eu sinto.


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

divagações nada a ver

odeio quando me sinto assim
há dias que estou desse jeito
uma angústia que não vem de lugar nenhum
uma certeza de que tudo irá se desmoronar e todos irão embora.

eu sei que não irão.
eu sei que essas pessoas se importam.
Eu sei que se eu ligasse pra ele chorando ele se importaria.
e sei que todos os meus amigos ficam desesperados
ansiando por me ver confiando neles.

passei por várias pessoas hoje
e eu estava tão amedrontada pela minha própria vida que
não reparei em nenhuma.
nenhuma moça bonita
nenhum moço de olhar diferente.
só uma dor insistente
como uma cólica
no peito.

acho que preciso sumir.
olho teus presentes na estante.
abro tuas cartas e as releio com carinho.
vou em busca de fotos
vídeos
do som da tua voz e do teu sotaque estranho.

se eu tiver como, quero ter filhas
quando eu tiver uma filha, e se eu tiver uma filha que pareça doce
que olhe curiosa pra tudo
e que não se pareça nada, nada comigo
porque ela seria doce e eu não o sou
só então
eu colocaria nela o nome de
Amanda.



terça-feira, 22 de novembro de 2016

Do não te experenciar

Tem dias que a gente acorda com nuvens brancas no peito e nas têmporas. Me sinto só, não aquele estar só de ser um ser que nasce e morre sozinho, mas um só com gostinho de abandono - quase adolescente, sabendo que ninguém compreenderia.

Primeiro eu senti vontade. Um arrepio que foi tão grande que era quase um evento. Depois eu pensei nele. E então senti uma frustração que não sentia há meses. Depois, em terceiro, virei meu rosto para o lado da parede e desliguei o despertador. Em dias assim não me importo de chegar atrasada.

Uso uma metáfora criada por outro*, e abro uma janela com força, mas ignoro o fato. São tantas as saudades que sinto que uma a mais, uma a menos, que diferença faz? Detenho-me mentalmente nos detalhes dele antes de respirar fundo e encarar o que está de fato me incomodando.

Quis fazer uma prece, mas não senti que faria sentido. O nó se formou na garganta, o desespero me arrepiou, esquentou o pescoço e as orelhas. Desejei uma catástrofe para que eu pudesse chorar sem ser questionada. Fazia algumas semanas que não me sentia assim.

Fatalmente minha mente enfim se voltou para minha tristeza mais antiga, e doeu andar pelo centro da cidade pensando naquele amor morto anos atrás. Como pode ainda ser tão dolorida essa fatalidade que me acometeu tão cedo, quando ainda era uma menina?

Em dias em que durmo pouco, tua imagem, teus olhos tranquilos e profundos, grandes e escuros, aparecem dentro dos meus e cortam meu peito com lâmina fina e quente. A indiferença com a qual o mundo permanece lidando com esse fato dói demais. A indiferença do destino, que insiste em me jogar para longe de você, me mata todos os dias. Eu não deveria ter ficado tão insone. Eu não deveria ter dormido tanto pra compensar. Não há uma noite em que eu não me sinta vazia por pelo menos três minutos, e embora eu nem sempre lembre de você, eu sei que é porque eu não te experienciei direito que esse nada me toma e me arrebata, eventualmente, de manhã.

*"A janela em mim é tão brutal
Longe de você"
Trecho de "Longe de Você", de Vitor Ramil.

Do não te experenciar

Tem dias que a gente acorda com nuvens brancas no peito e nas têmporas. Me sinto só, não aquele estar só de ser um ser que nasce e morre sozinho, mas um só com gostinho de abandono - quase adolescente, sabendo que ninguém compreenderia.

Primeiro eu senti vontade. Um arrepio que foi tão grande que era quase um evento. Depois eu pensei nele. E então senti uma frustração que não sentia há meses. Depois, em terceiro, virei meu rosto para o lado da parede e desliguei o despertador. Em dias assim não me importo de chegar atrasada.

Uso uma metáfora criada por outro*, e abro uma janela com força, mas ignoro o fato. São tantas as saudades que sinto que uma a mais, uma a menos, que diferença faz? Detenho-me mentalmente nos detalhes dele antes de respirar fundo e encarar o que está de fato me incomodando.

Quis fazer uma prece, mas não senti que faria sentido. O nó se formou na garganta, o desespero me arrepiou, esquentou o pescoço e as orelhas. Desejei uma catástrofe para que eu pudesse chorar sem ser questionada. Fazia algumas semanas que não me sentia assim.

Fatalmente minha mente enfim se voltou para minha tristeza mais antiga, e doeu andar pelo centro da cidade pensando naquele amor morto anos atrás. Como pode ainda ser tão dolorida essa fatalidade que me acometeu tão cedo, quando ainda era uma menina?

Em dias em que durmo pouco, tua imagem, teus olhos tranquilos e profundos, grandes e escuros, aparecem dentro dos meus e cortam meu peito com lâmina fina e quente. A indiferença com a qual o mundo permanece lidando com esse fato dói demais. A indiferença do destino, que insiste em me jogar para longe de você, me mata todos os dias. Eu não deveria ter ficado tão insone. Eu não deveria ter dormido tanto pra compensar. Não há uma noite em que eu não me sinta vazia por pelo menos três minutos, e embora eu nem sempre lembre de você, eu sei que é porque eu não te experienciei direito que esse nada me toma e me arrebata, eventualmente, de manhã.

"A janela em mim é tão brutal
Longe de você"
Trecho de "Longe de Você", de Vitor Ramil.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

de te incomodar

[Para ler ouvindo ou ouvir lendo.]

passei por uma menina linda hoje
você ia gostar de ver.
ela estava com uma roupa branca, e nenhum sutiã.
conseguia ver suas aréolas, rosadas, de longe.
fiquei sem respirar uns segundos,
absorvendo sua beleza distraída.
eu duvido muito que o moço que estava com ela
(aba reta, meias brancas, um tênis Vans qualquer)
possa um dia ver a moça
como eu a vi,
ali, de longe, já no meu banco de ônibus,
estremecida e efêmera.

e logo meu pensamento voou para outra moça,
e logo depois para outro moço.
e me dei conta que até em divagações eu sou essa vagabunda.
e começou a tocar Ramil
e eu encostei a cabeça na janela, e começamos a andar,
e as lágrimas não demoraram a cair.
e eu ali, feliz.

mas, faz dias
(quatro, para ser mais exata),
que sonho com você.
alguns desses sonhos uns estorvos de acordar aflita.
mesmo no meu sonho você é impossível de prever.
mesmo ali você continua agindo de forma inesperada.
te falei que comecei uma série de contos eróticos?
acho que não.
às vezes eu traço diálogos na minha cabeça
e não lembro se falei de verdade.

passam as pessoas, passam os cheiros.
passam seus olhos, e bocas, e sorrisos e sobrancelhas mal feitas.
e seguem passando seus cabelos
e anseios, e medos, e choros.
eu ali, com minha cara tola.
(minha cara é tão tola quanto eu vejo ela tola?)
fazendo planos pra mim, sempre sozinha, hoje, ontem, amanhã,
daqui a décadas, graças àquele Deus em que não acredito.
eu, sozinha, ali,
divagando e passando tanto tempo na própria companhia
que fico mau humorada quando preciso interagir.

e eu dou risada, uma daquelas que tu gostas,
e fico me sentindo idiota novamente
porque sei que mesmo nos meus dias mais sociopatas
eu ainda assim te ofereceria meu ombro se você precisasse.
e eu dou mais risada, porque isso vai soar tão besta se eu disser em voz alta
algo de definitivo ou de drástico
como sempre soa quando eu sôo - e é por isso que eu não te falo nada.

e de novo eu vou agir
como se não estivesse escrevendo mais uma
das quinze poesias que já fiz pra ti
ou que por ti passam
ou que te mencionam, assim, en passant.
deve até ser meio chato,
ficar assim se lendo o tempo todo nesses devaneios em versos
mas, bem, eu até que gosto de te incomodar.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

te-ver-bonito

[Para ouvir enquanto lê.]

Tenho tido algumas noites de insônia
desde que você abriu o peito
e puxou os fios doloridos do teu passado;
eu os segurei nas minhas mãos trêmulas
e chorei, chorei, chorei...

E desde então eu não sei nem o que pensar.
Eu me dei conta que eu não choro muito, sabe.
Não é que eu seja forte.
Eu queria ser forte como você acha que eu sou.
E então me peguei revisando as coisas que já escrevi pra você.
Com um sorriso cansado e triste
dei-me conta de que as notas de desespero dos teus olhos maus não eram impressão minha.

Você sempre me deixa assim
sem saber o que sentir.
E eu sou sempre tão decidida!
Será que isso está certo?, eu sempre me pergunto.
Se eu ao menos soubesse que você está bem
juro que te deixaria em paz.

A metáfora da dor, líquido quente, escorrendo por meus dedos,
permanece.
Continuo querendo você como antes.
Mas eu estou sinceramente triste.
Não sei te dizer por que.
Não poderia te explicar.
Não quero sumir.
Não quero ficar longe, mas talvez você precise.
Talvez eu precise.
Talvez você queira.

"Você é um pequeno mistério para mim toda vez que você chega perto",
e eu queria que você pudesse me ver agora.
Mas eu acho que eu nunca vou deixar.
Mesmo agora, mesmo depois de tudo
eu sigo com medo de você.

Às vezes eu queria que você ficasse puto.
Às vezes eu queria ser uma vaca.
Não consigo, fico aqui.
Ouço você balbuciar qualquer coisa pra mim, dormindo, e não escuto.
Queria poder te curar.
Mas de alguma forma eu própria estou quebrada de diferentes formas.
E eu nem mesmo sei te dizer por que.

Eu choro, e choro, e choro, e mesmo agora, que te quero tanto,
eu não consigo conter as lágrimas.
Parece que é fatal, isso tudo.
E no entanto não sinto que minha tristeza é sobre você.
Eu queria tanto te ver, e só te ver.
Olhar você, me certificar de que você existe de verdade,
fazer alguma piada, e ir embora.

"Você é um pequeno mistério para mim toda vez que você chega perto",
e eu queria tanto entender melhor,
e ao mesmo tempo é assim que eu te gosto.
"Nós faremos uma pequena história, meu bem"
e eu fico olhando, em terceira pessoa,
te observando vir e voltar
quando precisa.

Com medo de te machucar,
eu fico assustada de ir até você.
Às vezes acho que você queria me querer mais.
Racionalmente faria sentido.
Mas não é assim que funciona,
e eu me pergunto se isso te frustra.

Incrivelmente, percebo que eu própria não me ressinto dessa ideia.
Te olho com um olhar cansado de quem ama e não vê mais o que fazer.
Sorrio, porque você é assim, essa coisinha bonita e meio quebrada,
meio canalha, meio avoada,
e assim um tanto profunda.
Sempre tem algo novo pra te olhar.

Nunca quis que você fosse embora,
me desculpa as palavras ruins.
Eu estou tão perdida, e às vezes esqueço que não tem a ver com você.
Tem dias que eu te sinto tão perto
que, quando não consigo te alcançar com a minha mente, eu fico um pouco tonta.
Quem diria.
Logo eu. Logo você. Logo nesse tempo.

Queria abraçar teu coração.
Esquentar o meio-do-teu-peito,
fechar teus olhos, beijar tuas pálpebras:
- Vai ficar tudo bem.
E, assim, desse jeito simples, dissipar essas dores e nuvens cinzas.
Queria iluminar os dias brancos que te afligem
com uma luz quente, amarela-quase-laranja.
E te mostrar como você merece todas as coisas bonitas que eu vejo em você.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

sobre ela

como na música profética,
eu senti sua falta quando você foi embora.
não posso ouvir a introdução que eu choro.
não é que lembrar de você me deixe triste, coisinha.
mas a nossa história é complicada, e eu queria tanto, tanto que você não estivesse assim tão longe.

queria poder descer do ônibus
andar atá a praia
molhar meus pés
voltar pra rua.
colocar os chinelos de novo,
os pés cheios de areia, o coração batendo acelerado.
andar até a tua casa, te chamar no portão.
e ver os teus olhinhos magrinhos de sorrir pra mim.

temos algumas músicas, não é?
e algumas luzes
coloridas, de natal, piscantes.
algumas que eu estraguei, inclusive.
não me desculpo.
suas cores todas, guardo elas no meu peito com carinho.
todas as suas expressões, e o formato dos teus dedos.

tuas unhas curtinhas
teu cabelo
e o cheiro, o teu cheiro eu ainda sinto
como isso é possível?
às vezes estou andando na rua e sinto teu cheiro
ou estou em casa, e lá vem ele, teu cheiro
uma coisa assim meio doce, meio venenosa

eu queria tanto, tanto, chegar aí a nado
queria tanto chegar aí de barco
mas eu não sei nadar
esse oceano de distância entre nós
essa coisa linda e trágica que sempre fomos
teus abraços e teu corpo pequeno
te fazer cócegas porque você não consegue evitar rir quando eu arranho suas costelas
tua risada
teu sotaque e o jeito como você me acha babaca

eu nunca te disse um monte de coisas
com essa minha mania de ser quieta
onde e quando não devo
e eu queria muito te colocar nas minhas mãos e te ninar
e assistir os teus filmes preferidos
nos embebedar e acordar rindo.

eu ainda lembro você lá
rindo
e teu cheiro
e tua pele
e teu rosto
e os olhos
e os seios
e a língua
e a boca pequena
e o sorriso
com a risada que se seguia
depois de chamar meu nome
depois de fingir que não liga.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

às vezes eu queria poder bater em vocês

Prólogo

A merda é que eu te amo.
E nem é que eu queria tua vida na minha.
É só que eu te gosto, mesmo.
Isso é demais?
Não é normal?
É só um amor em si mesmo!, nada mais, por que o medo?

Eu já sei como isso acaba.
Você some, do nada.
Exatamente como eu pedi, envergonhada,
pra você não fazer.
Você vai evanescer aos poucos
sem avisar
rarear
e então sumir.
Não vai me dar adeus.

E eu vou chorar.
Você vai se sentir mal, mas não tanto,
de saber que estou triste,
entregue à vida,
caída.
Amargurada e costurando novos sorrisos à minha cara branca.
(Você pode, por favor, não fazer isso?
Você pode, por favor, provar que estou errada,
e pelo menos me avisar?)

E eu avisei,
eu pedi com lágrimas nos olhos.
Eu cheguei mesmo a ser dramática,
uma criança de pelos raros,
e você disse que não ia a lugar algum.
É o que você diz pra si mesmo
quando foge de mim e se esquiva?,
Como se eu tivesse alguma pretensão de te prender?

Ou você nem se dá ao trabalho,
vis que são teus olhos,
de sequer lembrar de quem tanto te espera com paciência?
Ouvi um
- Te quero muito!,
e de muito me serve isso, quando me jogas no teu gelo fino
Onde tenho que andar suspensa
Sendo doce quando minha vontade é te maltratar até o talo.

Capítulo I

E enquanto ele vai se deixando levar,
Te sigo com os olhos.
Atentos, enquanto observo os teus, alheios
a minha análise silenciosa.
Você tem movimentos amplos
daqueles de pessoas que não têm consciência de si mesmas.
Você apenas se divertia,
e ria, ria, ria,
e eu ali, sofrendo, por uma coisa tão bonita.

E enquanto você sumia,
seus cabelos ondulando, ventando atrás de si,
eu ia relembrando os braços
os ombros altivos e a cara louca.
Prendia cada detalhe na memória
pra poder te imaginar no dia seguinte.
O despertar da minha face mais louca,
torta e descontrolara,
amante frustrada.
E no entanto nem um pouco arrependida.

Nas frações que meus olhos imensos
encontraram os teus, igualmente grandes,
parecia que eu te punha medo.
Você desviou de mim,
senti de longe e aceitei o gesto.
Assenti, imaginária,
e ao me voltar para o meu copo,
já sentia aquele poderoso tremor
de que algo poderia ter sido e não foi,
dando uma golada forte de gelo derretido e um pouco de álcool.

Epílogo

Por fim, novamente você aparece na minha tela azulada.
Apago a luz do quarto e você,
do outro lado da cidade,
novamente me manda um abraço.
Curte uma ou outra foto.

Sussurro que te amo,
sabendo que você jamais vai poder atender.
E assim, indiferente, você faz as coisas mais esquisitas
que alguém pode fazer
na rede social de alguém
com quem não conversa muito.

Não é como se eu quisesse voltar no tempo.
Não é como se eu quisesse que você corresse pra mim agora.
Não é "como poderia ter sido",
Ou "pare de ter uma namorada".
Não é que eu queria ser sua namorada.
Eu não quero ser uma namorada.
É que eu sinto que tem amor demais nas minhas mãos,
meus bolsos já estão cheios,
e eu preciso de mais amor pra carregar comigo,
mas onde enfiar?

E por mais sugestivo que isso soe
(e essa não é uma opção, caro leitor,
porque amor a gente não vai enfiando assim no corpo, a seco),
eu não vejo você e eu
unidos
corpos
almas
pelos
qualquer coisa assim meio quase suja, meio quase perfeita.
Só sei que vejo você.
E que em você me vejo.
E que, vez em quando, até invejo.